Terras Desconhecidas

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Uma distração minha, em momentos de enfado, pego lápis ou caneta, um caderno de rascunhos, tenho vários, e desenho mapas de terras desconhecidas.

Hoje em dia, as pessoas crêem que já conhecemos todo o mundo. O engano é compreensível. Conhecemos, talvez, todo o mapa do mundo. Esmiuçado por satélites com potentes câmeras de vigilância. Contudo, não conhecemos todo o mundo, suas terras e gentes.

Um dia essas terras serão descobertas, embora duvide de que sejam descobertas todas, e seu conhecimento difundido pelo mundo.

As terras desconhecidas que desenho são, na maioria, ilhas. Pequenas, normalmente próximas de lugares conhecidos, mas sem rota regular de transporte.

Outras são montanhas ou vales cercados de verde. De acesso difícil até para quem já delas ouviu falar. Muitas vezes escondidas por árvores, neve, trilhas ruins, normalmente não há registro nenhum de sua existência além de boatos.

São ignoradas, essas terras todas, a ponto de não constar nos mapas mesmo de quem as vê. Somos assim, nós deste mundo, ignoramos o que não sabemos como tirar proveito. Vemos algo bonito e pensamos “Para quê serve? Quê faço disto?” Se não encontramos logo utilidade prática, não queremos nem “perder tempo” em catalogá-lo para mais tarde ou para quem se interessar. Tocamos a vida em frente para coisas sérias.

Eu me permito perder algum tempo com isso. Gostaria de ter mais tempo a perder. Quando percebo uma terra, nova ou velha, a que ainda não dei a devida importância, reparo-lhe o sítio, a forma, aparência, o aparente acesso. Faço isso em minha memória mesmo é, quando posso, desenho-lhe o mapa em papel. Como um mapa de pirata ou bestiário moderno.

Gosto de gente que tem esse mesmo interesse. Acompanhei o relato da descoberta da Ilha Desconhecida, nome apropriado, posto que, embora descoberta, muito de desconhecida ainda tem. O autor, perspicaz, não deu as coordenadas exatas. Isso facilitaria a chegada de leigos oportunistas. Ao invés, deixou no seu relato todas as pistas de onde e como chegar. Quem realmente se interessar de coração aberto, e isso é o mais importante, o coração aberto, desenhará fácil o mapa em seu caderno. Com algum esforço, sempre há esforço, uns tem mais jeito, facilidades naturais, mas todos tem de se esforçar. Com algum esforço, todo mundo, de coração aberto, pode encontrá-la e lá chegar. Conhecê-la, já leva tempo. A vida toda talvez. Conhecer uma terra não é turismo. Quem diz “Eu conheço tais e tais lugares”, na verdade, diz “Estive lá” ou “Vi”. Conhecer implicar percorrer devagar, observar, interagir, guardar.

As terras que desenho, não as conheço, não sei dizer exatamente onde ficam. Faço como o astrônomo que teoriza sobe as impressões que tem. Posso estar totalmente errado. Todavia registro meus rascunhos de mapa. Talvez, algum dia, eles ajudem alguém, mesmo que não seja eu, a encontrar algo. Ou a entender quem desenha esses mapas.

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A Azul

As outras crianças estavam fazendo algazarra junto a uma parede de vidro, na verdade, um quebra-vento de vidro que foi colocado entre duas colunas para que os porteiros não tomassem chuva.

Isolado, fui procurar qual era a brincadeira, talvez participar. Queria brincar também. Não era brincadeira. Uma borboleta, uma grande, bonita, de asas azuis, se batia de encontro ao vidro sem conseguir sair para o jardim. Voava de baixo para cima, arrastada de encontro ao vidro, achando que o vazaria.

As crianças, cercavam a bichinha, um menino cutucava com um graveto, quando conseguia, voltava correndo, com medo do que tinha feito. Alguns discutiam do como pega-la, conserva-la num pote ou dentro de um livro.

Achei-a muito bonita. Mas, mesmo que não fosse, não gostava de vê-los importunando-a. Fui o estraga-festa. Tinha medo de tocá-la, acho que todos que a cutucavam também tinham. Tinha medo de machucá-la. Mas também não queria que se machucasse. Fiquei frente a ele e esperei que pousasse. Pousou no chão, junto ao vidro, asas juntos, acho que cansada. Tentei pegá-la pelas asas, entre dois dedos. Vi isso algumas vezes na televisão. Parece ser o modo certo, para não machucar. Ela fugiu antes que eu encostasse, acho que consegui na terceira vez que tentei. Ela já devia estar muito cansada. Acho que por isso consegui. Não queria apertar as asas. Não sabia se poderia machucar. Era tentador tentar guardá-la em algum lugar, para mim. Entendi as outras crianças que falavam em guardá-la.

Eu não podia. Olhando sua beleza, dei a volta no vidro e fui ao jardim. Não sabia direito como fazer. Encostei-a a uma planta, acho que era uma espada-de-são-jorge. Abri os dedos, a outra mão ficou embaixo, para se ela caísse.

Não caiu, pôs os pãezinhos na planta. Ficou. Não sei se perdeu o medo de mim ou se estava só cansada. Demorou bem pouquinho. Fiquei junto para se as crianças viessem importuná-la.

Quando viu por bem. Bateu asas e voou, por cima do muro, levando seu azul. Não a vi mais. Não vi mais nenhuma igual que pudesse confundir com ela.

Talvez tenha sido pega por uma pomba, por pardais, um sabiá. Sabiás gostam muito de borboletas. Talvez tenha se mudado para outra vizinhança ou esteja trancada em um toca.

Não é da minha conta. Por isso a levei ao jardim. Ela tem o direito de ser bonita e feliz do jeito que quiser.

Pirilampos

Eu poucas vezes vi pirilampos. Talvez tenha visto mais alguma, mas me lembro só de duas.

A primeira, na casa de meu avô. Ele tinha um quintal grande com muitas plantas, árvores e mato. Não sei porque estávamos brincando ali à noite. Não era nosso costume, devia haver alguma festa. Brincávamos de pegar. Eu atravessava um pequeno caminho no meio das plantas, e parei por causa de um brilho verde, a luz deles é verde, que me representou alguma coisa presa numa teia de aranha. Foi o bastante para meu irmão me pegar. Apelei, a teia havia me atrapalhado. Não adiantou, perdi a causa, e ele me disse para olhar bem. Não havia teia. Mostrei o brilho parado no ar. Ele olhou e reconheceu um vaga-lume. Explicou-me direito: era um pirilampo, aquele que falavam no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Curiosos, a brincadeira acabou até a avó chamar. Eu devia ser bem pequeno, era pequeno quando ela morreu.

A segunda foi na casa da outra avó. Num domingo, depois do jantar. Sempre comíamos frango no jantar do domingo na avó. Meu pai matava dois frangos pela manhã e os preparava à tarde. Saia para a missa e mãe os olhava no fogo até ele voltar. Quando chegava, eram um banquete. Frango de criação é grande, não parece com esse pequenininhos congelados. As asinhas eram de minha avó, ela adorava, eram a única carne que comia a semana toda. Num domingo, enquanto a mãe e a avó lavavam a louca, brincávamos de pegar. Deve haver alguma coisa ente pirilampos e brincar de pegar. Eu corri para as roseiras atrás de minha irmã e, entre nós dois, vi uns pontinhos. Achamos que fossem varejeiras refletindo alguma luz. De novo meu irmão fez a identificação. Eram dois pirilampos voando. Corremos para pedir a câmera para a mãe e chamar a avó. Quando voltamos, eles já tinham sumido.

Eu juro que, com tantas pombas e pardais por aí, não entendo esses bichinhos. Eles gastam energia ficando luminosos, mais fáceis de serem encontrados. Veja a mariposa, por exemplo, fica quietinha, parecida com a casca da árvore, para não ser encontrada. Eles não, são fáceis de achar. Das duas vezes, só me lembro deles pela luz verde. Lembro de onde eu estava, o que fazia, mas não me lembro dos bichinhos mais do que a luz.

Olhei agora na enciclopédia e vi a foto de um. Se parece com uma lombriga cascuda. Um pedacinho de galho de eucalipto. Feio, feio, feio, muito feio. Com a luz verde na barriga. Parece que engoliu um luminoso de boate. Tão feio! Talvez a luz seja isso. Um enfeite que ele sabe que lhe faz mal. Mas prefere esse mal a não ter esperança de trazer nada bonito em si.

Injeção

Minha avó gostava de injeção.

Magricela demais, não sei como conseguiam espetá-la. As veias, é fato, eram fáceis de encontrar. Mas não tinha carne nenhuma. Ela brincava que tinha aflição de mexer no próprio braço, tão magro ele era. Na aliança, enrolava barbante para deixá-la mais justa e não a perder quando mexia em sabão ou na comida. Não era magra de doença, comia pouco desde que, adulta casada já, perdeu a mãe e teve que se acostumar à própria comida. Não gostava do que cozinhava. Só de pão com manteiga, chá, mariola, biscoito Maria, aliás era esse seu nome, e das asas de frango que meu pai, seu genro, fritava. Gostava também de injeção. Se tinha que tomar um remédio, a primeira coisa era perguntar se não podia ser injeção. Tomava várias, nem todas pela idade, a maioria pela mania de doenças. Acho que as inventava. Quando éramos crianças, ela nos levava ao pediatra sem precisão. Queixava-se de problemas que nós nem imaginávamos ter, queixava-se de problemas seus e tentava sair de lá com uma receita de injeção. Dizia ter dificuldade para engolir comprimidos. Eram as manias médicas da injeção e do Xarope São João. Talvez por isso tenha vivido tanto.

Tinham datas certas as injeções de cada remédio. O farmacêutico, em Osasco nós chamávamos o dono da farmácia de farmacêutico, ele tinha a agenda de injeções do bairro todo e ia em casa levar a medicação e aplicar. Perguntava das consultas, se tinha algo de novo, a família todo como estava. A cidade, vinte anos atrás, era muito menor do que é hoje. Os moradores não se mudavam com freqüência.

Houve uma vez em que ele teve problemas. Não sei, ou não me lembro, quais, não pôde vir. Veio, na noite seguinte, a enfermeira do posto de saúde, a pedido dele, aplicar as injeções de minha avó. Ela ficou preocupada com o atraso na injeção. A enfermeira disse que não havia problema, que como ela só podia ir à noite, depois do expediente, havia verificado as medicações de cada um antes para saber quais podiam atrasar ou não. A de minha avó podia atrasar um dia. Alguns podiam mais. Houve gente que ela não tve que atender no mesmo dia, sem atraso.

Na semana seguinte, o farmacêutico ainda estava com problemas, minha avó pediu para que minha madrinha a levasse à farmácia tomar a injeção. “Como assim? Olha sua idade. Subir a avenida?” Minha avó, por essa época, já passava dos oitenta e seis. Eu sei porque era a idade dela quando meu avô faleceu. Sem ele, ela pediu-me para passar as férias em sua casa, eu tinha onze anos, mas como ela morava ao lado da escola, quando as aulas recomeçaram, fui ficando. Fiquei até os vinte, quando ela morreu, com noventa e cinco.

Minha avó, mesmo com ainda mais idade, tinha força e inquietação para fazer o trabalho de casa. Começava de manhã cedo. Lavando os cabelos brancos, enormes, iam até as coxas. Lavavá-os na água gelada do tanque. O tanque de lavar roupa mesmo. Usava o sabão da roupa, às vezes umas gotas de azeite. Demorava para secá-los com a toalha. Era uma alquimia cosmética que eu não entendia, mas os cabelos ficavam lindos. Eu só via seus cabelos se, por engano ou insônia, acordasse muito cedo. No resto do dia, ela os deixava presos dentro do lenço. Sempre usava lenço na cabeça, camisa, xale, saia, saiote, socas. Eram as roupas típicas de sua terra. Eram roupas discretas, nada folclóricas. Passava despercebida numa cidade em que, na época, quase todas as famílias eram de imigrantes, italianos, portugueses, japoneses ou armênios.

Depois de lavar os cabelos, fazia o café. Limpava uma parte da casa. Preparava o almço. Almoçava diferente de nós. Só uma xícara de caldo do feijão e meia batata, que cozia nele. Portugueses gostam de batatas. Depois do almoço, lavava a cozinha toda. Quando fiquei adulto, meu primeiro apartamento era menor que sua cozinha. Cuidava das plantas, tinha um mundo de samambaias, chamava-as de rendas, outro mundo de antúrios e o roseiral da frente de casa. As rosas eram amarelas. Rosas amarelas são muito raras. De raiva da inveja que tinham de suas roseira, uma vez pegou a foice e cortou-as todas. O irmão, meu tio Porfírio, ajudou a plantar vermelhas no lugar. Hoje nem essas estão mais lá. No meio da tarde, dormia sentada na sala, vendo livros de figuras. Não sabia ler. Acordava para o banho e o chá. Não jantava. Tomava uma xícara de chá com meio pãozinho com manteiga. Rezava o terço, à moda de sua terra, Trás-os-Montes. Levava horas. Sentava-se junto à porta de meu quarto, vendo comigo uma novela. E ia para a cama, cedo, oito da noite, no máximo. No dia seguinte, acordava de madrugada cedo de novo.

Morávamos perto da farmácia, dois quarteirões, uns trezentos metros. Mas era muita ladeira. Por mais força que minha avô tivesse, ninguém lhe permitia mais fazer aquela subida.

Pediu que minha madrinha fosse a farmácia apressar o moço. A madrinha não podia ir tão já. Era quarta-feira. De quarta-feira, logo depois do almoço, tem a missa de Santo Antônio. Tinha de ir. Há de se ofertar pães, benzê-los para que nunca faltem. Na volta da missa, passaria na farmácia a cobrar a visita. A farmácia fica defronte à igreja. Mas para minha avó isso era muita demora. Eram duas horas de missa. Pareceu triste pelo adiamento da injeção. Parecia criança com natal atrasado.

A madrinha saiu para a missa e a avó se trancou no quarto.

Apareceu-me daí uns dez minutos: “Filho, – certo seria neto, mas tratava-me filho – você vem comigo aqui em cima?” Falou como se fôssemos colher erva cidreira ao fundo do quintal. Ela estava de xale diferente. Aquele eu nunca a vi usar em casa. Com os olhos procurei sua mão. Tinha o molho de chaves. Não precisava de chaves para ir ao quintal. Só trancávamos as portas para dormir e para sair de casa.

Fui sem objeção. Nem precisava mostrar que sabia onde íamos, achei que ela desistiria antes da esquina. A farmácia fica na avenida, subindo dois quarteirões, atravessando a rua, em frente à catedral. Morávamos numa travessa, segunda casa depois da esquina. Acho que, teimosa, ela nao desistiu tão cedo porque queria mostrar que ainda conseguia. Logo que descemos a escada de casa e trancou o portão, se encostou ao muro. Tinha a cara do teimoso que se arrependeu mas que não iria voltar. Andamos trinta metros, dobramos a esquina se apoiou de novo, olhou a ladeira. Acho que não se lembrava dela tão grande.

“Vamos.”” Foi nesse vamos tão natural, como se perguntasse se eu tinha disposição de a acompanhar, que eu percebi que a casa tinha caído. Me arrependi pensando em como chamaria a ambulância se precisasse. Não havia celulares ainda. Eu ri, ela também. Sabíamos que seria ainda pior se eu tentar convencê-la a voltar. Dei-lhe o braço como namorado e fomos. Ela parava a cada dez passos, tomava ar. Pensei que fosse pelo cansaço. Hoje sei que não era. Ela admirava a avenida que já há uns cinco anos não via. Mais ou menos depois dos oitenta anos, parou de sair de casa. Olhava as casas dos dois lados da rua, “Aqui é o Seu Renato?” Era. Nosso terreno dava fundos para o dele. Ele tinha um dálmata bonito que dormia na calçada. Sempre me atacava na volta da escola. Acompanhado de minha avó, o cachorro ficou quieto com cara de enfado. Mal me olhou, não deu bola. “Esta derrubaram”. Era a casa antiga de Seu Alberto, dono da venda. Eu não me lembro de tê-la visto. Seu Alberto, quando os filhos cresceram, se mudou para uma casa menor, vendeu essa para a construção de um edifício. A casa foi derrubada. Mas, nos fundos, ele tinha umas três casinhas só de quarto e cozinha, com inquilinos. A construtora, acho que até hoje, não conseguiu despeja-los. A avó olhava tudo e cumprimentava todos que via.

Mostrou cansaço depois de atravessar a rua, quando andamos os primeiros metros da subida da minha escola. Da escola só se via o muro alto, não havia o que olhar. Ela lembrou de se cansar. Descansou, fingiu que ia desmaiar. Achou que pensou mesmo que fosse. Largou meu braço, pediu o ombro. Subiu até a esquina sem parar e esse era o pior pedaço. Atravessamos pra a igreja velha, a antiga matriz, abandonada. Foi desativada logo que ela veio morar aqui. Não precisava, mas a prefeitura queria uma igreja nova, desenhada pelo Niemeyer. Essa igreja nova é a atual catedral. Fica ao lado, pegada, projetada para ser vista na subida do calçadão. Meu batizado foi uma das primeiras missas após a inauguração, contou-me. Olhou bem as duas igrejas.

Não havia o semáforo ainda. Mesmo com pouco movimento, ela andava devagar, com dificuldade , esperamos uns dois minutos sem conseguir começar a travessia. Ela teve idéia de acenar para um carro parar. A senhora que dirigia acenou de volta e parou segurando os outros carros. Atravessamos agradecendo.

O farmacêutico estranhou-a ali. Não repreendeu. Felicitou pela saúde e disposição naquela idade. Ela tomou a injeção conversando, sem expressão, pensava no que mais podia fazer nessa sua tarde livre. Se fosse uma caneta a lhe escrever no braço, ficaria brava. Ao invés disso, uma agulha furando o braço, parece que nem a notava.

Fomos à padaria. Eram duas, separadas pela borracharia e pelo sapateiro. De um ma delas, bem grande, na esquina, não gostávamos. Fomos à pequena, do João. Gostamos dele e do pão. Havia muito tempo que não via minha avô. Saiu do balcão pra abraçar e dar um beijo. Pediu-me licença para beijar “minha namorada”.

Ela gostava de pagar-me sorvete. Não gostava de sorvete, mas tinha prazer em ver os netos tomarem. Escolhi um de chocolate, aquele com malte. Ela pediu pão. Não precisava, a madrinha sempre trás o pão depois da missa. Eu não disse isso. E ela pediu muito pão. Juntos comíamos quatro, ela pediu duas dúzias. João se admirou, ela disse que eram para os pobres. Tudo o que sobrava ela dizia que era para os pobres.

Fez-me sinal para acompanhá-la, já estava independente. Depois da subida, a calçada plana no alto da avenida era tranqüila. Passamos pela borracharia. Em frente ao sapateiro, na banca de jornal, cumprimentamos minha amiga que estava lá. A banca é do pai dela. “Essa é sua outra avó?” Ela sempre confundia minha madrinha com avó. Expliquei, de novo, que aquela sim é que era a minha avó de verdade. A avó teve calma, sempre tinha, de me esperar encerrar a conversa. Além de muito legal, aquela era talvez a menina mais bonita da escola. Depois dos tchaus, e de sairmos da vista da menina, enquanto esperávamos para atravessar a rua, minha avó passou-me a mão na cabeça e riu, o olho molhado. Percebeu que o neto já tinha idade para querer algo mais com a amiga. “Ela é bonita mesmo! É essa?” Respondi que não, crescer juntos inibe certos sentimentos, mas que era uma boa sugestão. Rimos, ela não deve ter acreditado.

Subiu a escada da igreja sem me avisar, nem pedir apoio. Deve ter pensado que era óbvio para mim que fizéssemos isso. Chegou à metade antes de eu começar. Na porta, pediu-me o braço de novo. Andamos a igreja toda até o altar, é longa, mais de cem metros. Pediu-me o pão. Colocou-o ao pé do altar. Benzeu-se de novo, pôs a mão à boca e acenou ao bispo. Conheceu-o menino. O pai era da terra dela. A madrinha rezava de olhos fechados, no fundo da igreja. Sentamo-nos no banco atrás dela. Minha avó vitoriosa. Pegamos quase metade da missa, inclusive a benção do pão. O bispo a citou ao final da missa. Só então a madrinha soube que estávamos lá. Não teve coragem de ficar brava.

Destino

Outro dia fui perguntado se acredito em destino.

Eu acho que se existir algum deus, alguma força que criou este mundo e nos criou ou pôs nele, não acho razoável ter-nos deixado ao, trocadilho infame, Deus-dará. Seria como termos um aquário, um viveiro, e não cuidarmos dos bichinhos, não brincarmos com eles.

Se, por outro lado, não existe esse ente, essa força, acho muito muita coincidência que equívocos e desencontros, com tanta freqüência, se juntem mais à frente do caminho, em encontros tão acertados. São acidentes, obstáculos, enganos. Devemos usá-los para evoluir.

Alguma coisa há, uma conspiração da natureza talvez, a vontade de um deus, a vontade conjunta das pessoas, desejo comum, percepção compartilhada, algo há. Não sei se isso é premeditado desde o começo dos tempos, para que possa ser chamado destino. Ou se é só coincidência. Eu prefiro não pensar muito nisso. Prefiro ficar feliz, aceitar, e colaborar para deixar rolar.

Lua e Sol

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Eu gosto muito, muito mesmo, tanto do sol quanto da lua.
Pra mim são um só, uma só. Uma amiga, companheira, bonita, agradável que, de dia, aquece e ilumina, de noite, guia, dá alento, reflete a luz do sol, sua própria.
De manhã cedo, bem cedo, toma café e sai resplandecente para trabalhar. Lá no alto. Seu trabalho é muito importante, vital. Ilumina e aquece, do bom dia à boa noite. Seu calor, tão gostoso, resiste na terra até o dia seguinte.
À noite, põe seu pijama, confortável e deita no céu, descansando.
Eu me deito também, longe, aqui embaixo, seu brilho por cobertor, com pena de dali não alcançá-la. Queria alcançá-la. Sonho bonito com ela. Por mim, passaria todas as noites fora de casa, ao relento, olhando-a. Assim, nem dormir precisaria para sonhar.

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Sonhos impróprios

Eu não devia falar isso, mas fiquei triste de saber que mais alguém sonha com você. Era de se esperar, não o culpo, você me parece mesmo ser um sonho de pessoa.
Eu também já tive sonhos impróprios com você.
Impróprio é um modo de falar. Seriam impróprios pra serem contados na TV em horário onde crianças e gente pudica pudessem assistir. Para mim, foram bons sonhos, antecipados.
Não foram sonhos adormecidos, inconscientes. Sonhei-os por querer, acordado, na minha imaginação, quieto no meu canto, cabeça no travesseiro ou no encosto do sofá, braços cruzados, abraçando a mim mesmo. E, nessa minha imaginação, vivo-os. Só na imaginação.
Alguns, contei-os aqui, para você. Talvez você não soubesse que estava neles. Isso não te contei.
Contar assim tudo do sonho é proibido. Nem dá pra explicar tudo. Queria ter um jeito de você os assistir, não como um filme, com os mesmos arrepios que emoções que eu senti.

Rosto

Ele nunca antes havia deixado ninguém por a mão no seu rosto. A avô punha. Morou dez anos com ela. Não era opção, mas também era diferente. ela, quando não tinha boa coisa para contar, em vez de falar, pegava-lhe seu rosto entre as mãos, tentava apertar com força, nunca conseguia. As mãos tremiam, ela fazia cara de choro e esperava que ele entendesse o que acontecia. Foi assim quando o avô e o irmão morreram, foi assim também quando ela percebeu que não viveria o suficiente para vê-lo terminar a faculdade.

Ele é muito tímido. A avó ele deixava fazer, porque era tímido demais para decepciona-la. Não deixou mais ninguém, nunca mais. Não sabia porque. Incomodava. Talvez sentir-se na mão de outra pessoa, à sua mercê, entregue ou dominado. Talvez lhe parecesse isso e, por isso, lhe incomodasse.

Houve duas exceções, duas vezes só. Um primo, homossexual não assumido. Ele sabia. O primo por duas vezes se emocionou. Uma de alegria, casamento da sobrinha. Outra de tristeza, funeral da irmã. Nas duas, chorando, segurou-lhe o rosto, deu-lhe três tapas firmes na bochecha, um beijo na bochecha estapeada e agradeceu pela companhia. Ele não se incomodou com isso. Não se sentiu mal, era só um demonstração de amizade e de satisfação. Quando o primo morreu, chorou. Gostava de ter-lhe feito companhia uma última vez e retribuir-lhe, rindo os dois, ao menos um dos tapas no rosto.

É algo estranho. Não tinha vergonha de pedir colo, de se mostrar frágil, de chorar. Mas, mesmo nos momentos de maior intimidade, nunca deixou uma mulher fazer-lhe carinho no rosto. Desviava-o, olhava para o lado, para cima, fingia procurar algo no chão.

Uma noite, antes de dormir, com a nuca enterrada no travesseiro, olhando o teto, pensando nas coisas que lhe tiravam o sono, chorou. Abraçou o travessei como se fosse o colo da mãe. Engoliu o choro, totalmente em silêncio. Esse lhe doeu até sair, em silêncio pelos olhos. Pela boca não sairia nada.

Tentou pensar em algo bom, que o acalmasse. Conseguiu. Logo se lembrou de alguém. Pensou em abraçar-lhe, mas não queria se mexer. Uma das bochechas estava virada para cima, desencostada do travesseiro. Imaginou uma mão cobrindo-a. Quando notou que isso não lhe incomodaria, quis sentir um afago, a mão inteira aberta, alisando-lhe o rosto. O coração se apertou. Queria participar, retribuir o carinho imaginário. É difícil imaginar o que fazer numa situação inédita. Achou que a abraçaria, com os rostos colados, tentando sorrir. Mas não sabia se assim ela conseguiria continuar com a mão em seu rosto.

No word available, no adequate emot

Tem coisas que a gente quer escrever para as quais não há palavras.
Para responder sim ou não, por exemplo, como deixar a pessoa saber que você ficou sem graça, feliz, ou envergonhado com a resposta? Não é cousa que se escreva. “Sim. E tenho vergonha de falar que sim.” Ou “Não. E fiquei bravo pra falar não.”
Eu posso fazer um texto imenso explicando como pensei, que cara fiz antes e depois de responder, como me senti. Mas isso também não é coisa que se faça durante uma conversa, num recado, em uma linha.
Alguém inventou umas coisas muito legais chamadas emoticons, eu chamo de emots. Em vez de explicar, mostro que sorri :), que corei :$, que chorei :’), que estou brincando ;), que quero ser carinhoso (k). Quase sempre, isso basta.
Mas ainda assim, há situações complicadas, como, por exemplo, responder “sim” ou “não”. Como se a vida real fosse assim binária. Talvez nem enunciável ela seja.
Se me perguntar algo que eu devo responder “sim” ou “não”, minha resposta, para ser correta pode ter de mostrar que ela me deixa triste, mas que fiquei feliz, por achar que você me entendeu, e também encabulado, por te deixar saber aquilo. Não há palavras prontas para isso. Posso montar essa frase, cheia de verbos e oposições. Quando terminar de responder e pontuar com ela, talvez já tenha muito mais frases explicativas para juntar. Também não há emot. Se combiná-los, combino também outros sentidos que não são corretos.
Às vezes, fugir à resposta é o melhor jeito de deixá-la clara.

Bill

Eu tenho um amigo, nós os chamamos de Bill. Esse não é seu nome. É um apelido que ele mesmo se deu. Ou, melhor, o pai lhe deu e ele, por raiva do pai, o adotou para o resto da vida. A história é engraçada, para nós. Para ele foi constrangedora, na hora. Hoje, todos rimos muito disso.

Foi num de seus aniversários. O pai se atrasou, ligavam, ele não atendia. O bolo atrasou mais de hora e meia esperando por ele. O velho, quando chegou, estava completamente bêbado, fedendo a perfume de prostitutas. A esposa passou-lhe uma descompostura por se esquecer do aniversário do filho. Ele disse que não se esqueceu, que se lembrou “do aniversário do… do… do… do menino.” Além do atraso, da vergonha que fez a família passar, de tão bêbado, se esqueceu do nome do filho. “Como pode? Vocês têm o mesmo nome!” Nosso amigo foi, então, rebatizado: “Não me esqueci nem do aniversário, nem do nome do… do… Bill.” Ninguém sabe de onde ele tirou o nome. O aniversário acabou em separação. O filho abandonou o nome do pai e passou a, sarcasticamente, se apresentar como Bill. Não atendia se o chamássemos pelo nome. Para nós, sabemos, nos lembramos, de que um dia teve outro nome, às vezes é difícil nos lembrarmos de qual, era apenas o Bill.

O conheci no trabalho. Contratei-o para o lugar de outro amigo meu que saiu da empresa. A mãe é uma figura. Quando me conheceu disse ao filho que aquele menino que trabalhava com ele parecia simpático. “Menino? É meu gerente, mãe!” Rimos muito. Bons tempos, eu ainda tinha cara de menino e ele, coitado, tinha medo que eu me ofendesse com a observação da mãe. Ele é muito formal: roupas, cerimônias, modo de falar. Se apega a essas coisas que não combinam com alguém que usa o apelido como nome. Destoava do resto da equipe. Mas nós dávamos todos muito bem. Em meus dias ruins, ficava até altíssimas horas consolando minhas mágoas. Tinha jeito, poderia ser padre, conselheiro ou assistente social de sucesso. Quando saiu da empresa, não resisti a uma última zoeira corporativa com o amigo, mandei-lhe um buquê enorme de rosas vermelhas, entregues na calçada da Paulista. Mais vermelho ficou ele.

Saíamos muito em happy hour. Eu gosto de vinho. Ele, mais novo, era etílico. Gostava de destilados. Ficava bêbado muito antes de mim. Não entendo beber destilados puros. O gosto não é bom e têm muito álcool. Só servem para embebedar e deixar mal.

Houve um happy, estávamos em uns oito, só homens, numa mesa de calçada. Boa coisa não podia vir dali. Onde só tem homem, fala-se muita besteira. Coisas sérias também, mas muita besteira. Se bebem, então é só besteira.

Dois solteiros choravam as pitangas e nós, fiéis amigos, queríamos encontrar-lhes um par. Não que eles quisessem ajuda, simplesmente não tinham a opção de recusá-la. As outras mesas não ajudavam, quase só homens. As poucas mulheres estavam acompanhadas.

Tarde já, a mesa ao nosso lado desocupou. Duas garotas se sentaram. Não as achei bonitas, eram duas loiras muito magricelas, dessas com cara de modelo. Não gosto de mulher assim, me desculpem. Meus amigos riem de mim, dizem que gosto de gorda. Gosto de mulher com corpo de mulher saudável, não de vareta de pipa.

Eram duas. Nossos desiludidos eram dois. Estávamos bebendo. Bastou. Começou a zoeira. “Vamos lá, chama elas. Chama lá, Bill.” Um dos solteiros queixosos era o Bill. “Vão lá. Vocês estão a fim. Chamam elas. Vão lá, Bill.” Tímido, todo formal, e os dois, era dele que mais enchíamos o saco. Ele morria de vergonha, mas quanto mais pesado pegávamos, mais dava risada. Chorava de tanto rir, com a boca escancarada. Cada vez que pedia para pararmos, falávamos uma pior e ele tinha um acesso mais violento de riso.

Elas pediram a conta mais ou menos junto de nós. Enquanto a conta não chega, os homens costumam ir, um por um ao banheiro para evitar incômodos no caminho de volta. Ele aproveitou e foi escondido à mesa delas: “Eu queria pedir desculpa em nome de todos nós. A gente bebeu muito, sabe como é.” Eles, danadas da vida com a zoeira, acho que pegamos pesado mesmo, devemos ter falado muito alto. Foi tão divertido! Elas demoraram pra se acalmar, e olha que ele tem o dom das palavras. Quando por fim se acalmaram, confessaram terem simpatizado com ele, trocaram telefones, e nós perdoaram a todos. Quase todos porque “aquele tal de Bill é um idiota!”

Bill concordou: “Eu entendo, ele é um idiota mesmo. Anotaram meu telefone? Não se esqueçam, eu sou o Fernando.”