Bill

Eu tenho um amigo, nós os chamamos de Bill. Esse não é seu nome. É um apelido que ele mesmo se deu. Ou, melhor, o pai lhe deu e ele, por raiva do pai, o adotou para o resto da vida. A história é engraçada, para nós. Para ele foi constrangedora, na hora. Hoje, todos rimos muito disso.

Foi num de seus aniversários. O pai se atrasou, ligavam, ele não atendia. O bolo atrasou mais de hora e meia esperando por ele. O velho, quando chegou, estava completamente bêbado, fedendo a perfume de prostitutas. A esposa passou-lhe uma descompostura por se esquecer do aniversário do filho. Ele disse que não se esqueceu, que se lembrou “do aniversário do… do… do… do menino.” Além do atraso, da vergonha que fez a família passar, de tão bêbado, se esqueceu do nome do filho. “Como pode? Vocês têm o mesmo nome!” Nosso amigo foi, então, rebatizado: “Não me esqueci nem do aniversário, nem do nome do… do… Bill.” Ninguém sabe de onde ele tirou o nome. O aniversário acabou em separação. O filho abandonou o nome do pai e passou a, sarcasticamente, se apresentar como Bill. Não atendia se o chamássemos pelo nome. Para nós, sabemos, nos lembramos, de que um dia teve outro nome, às vezes é difícil nos lembrarmos de qual, era apenas o Bill.

O conheci no trabalho. Contratei-o para o lugar de outro amigo meu que saiu da empresa. A mãe é uma figura. Quando me conheceu disse ao filho que aquele menino que trabalhava com ele parecia simpático. “Menino? É meu gerente, mãe!” Rimos muito. Bons tempos, eu ainda tinha cara de menino e ele, coitado, tinha medo que eu me ofendesse com a observação da mãe. Ele é muito formal: roupas, cerimônias, modo de falar. Se apega a essas coisas que não combinam com alguém que usa o apelido como nome. Destoava do resto da equipe. Mas nós dávamos todos muito bem. Em meus dias ruins, ficava até altíssimas horas consolando minhas mágoas. Tinha jeito, poderia ser padre, conselheiro ou assistente social de sucesso. Quando saiu da empresa, não resisti a uma última zoeira corporativa com o amigo, mandei-lhe um buquê enorme de rosas vermelhas, entregues na calçada da Paulista. Mais vermelho ficou ele.

Saíamos muito em happy hour. Eu gosto de vinho. Ele, mais novo, era etílico. Gostava de destilados. Ficava bêbado muito antes de mim. Não entendo beber destilados puros. O gosto não é bom e têm muito álcool. Só servem para embebedar e deixar mal.

Houve um happy, estávamos em uns oito, só homens, numa mesa de calçada. Boa coisa não podia vir dali. Onde só tem homem, fala-se muita besteira. Coisas sérias também, mas muita besteira. Se bebem, então é só besteira.

Dois solteiros choravam as pitangas e nós, fiéis amigos, queríamos encontrar-lhes um par. Não que eles quisessem ajuda, simplesmente não tinham a opção de recusá-la. As outras mesas não ajudavam, quase só homens. As poucas mulheres estavam acompanhadas.

Tarde já, a mesa ao nosso lado desocupou. Duas garotas se sentaram. Não as achei bonitas, eram duas loiras muito magricelas, dessas com cara de modelo. Não gosto de mulher assim, me desculpem. Meus amigos riem de mim, dizem que gosto de gorda. Gosto de mulher com corpo de mulher saudável, não de vareta de pipa.

Eram duas. Nossos desiludidos eram dois. Estávamos bebendo. Bastou. Começou a zoeira. “Vamos lá, chama elas. Chama lá, Bill.” Um dos solteiros queixosos era o Bill. “Vão lá. Vocês estão a fim. Chamam elas. Vão lá, Bill.” Tímido, todo formal, e os dois, era dele que mais enchíamos o saco. Ele morria de vergonha, mas quanto mais pesado pegávamos, mais dava risada. Chorava de tanto rir, com a boca escancarada. Cada vez que pedia para pararmos, falávamos uma pior e ele tinha um acesso mais violento de riso.

Elas pediram a conta mais ou menos junto de nós. Enquanto a conta não chega, os homens costumam ir, um por um ao banheiro para evitar incômodos no caminho de volta. Ele aproveitou e foi escondido à mesa delas: “Eu queria pedir desculpa em nome de todos nós. A gente bebeu muito, sabe como é.” Eles, danadas da vida com a zoeira, acho que pegamos pesado mesmo, devemos ter falado muito alto. Foi tão divertido! Elas demoraram pra se acalmar, e olha que ele tem o dom das palavras. Quando por fim se acalmaram, confessaram terem simpatizado com ele, trocaram telefones, e nós perdoaram a todos. Quase todos porque “aquele tal de Bill é um idiota!”

Bill concordou: “Eu entendo, ele é um idiota mesmo. Anotaram meu telefone? Não se esqueçam, eu sou o Fernando.”

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