Injeção

Minha avó gostava de injeção.

Magricela demais, não sei como conseguiam espetá-la. As veias, é fato, eram fáceis de encontrar. Mas não tinha carne nenhuma. Ela brincava que tinha aflição de mexer no próprio braço, tão magro ele era. Na aliança, enrolava barbante para deixá-la mais justa e não a perder quando mexia em sabão ou na comida. Não era magra de doença, comia pouco desde que, adulta casada já, perdeu a mãe e teve que se acostumar à própria comida. Não gostava do que cozinhava. Só de pão com manteiga, chá, mariola, biscoito Maria, aliás era esse seu nome, e das asas de frango que meu pai, seu genro, fritava. Gostava também de injeção. Se tinha que tomar um remédio, a primeira coisa era perguntar se não podia ser injeção. Tomava várias, nem todas pela idade, a maioria pela mania de doenças. Acho que as inventava. Quando éramos crianças, ela nos levava ao pediatra sem precisão. Queixava-se de problemas que nós nem imaginávamos ter, queixava-se de problemas seus e tentava sair de lá com uma receita de injeção. Dizia ter dificuldade para engolir comprimidos. Eram as manias médicas da injeção e do Xarope São João. Talvez por isso tenha vivido tanto.

Tinham datas certas as injeções de cada remédio. O farmacêutico, em Osasco nós chamávamos o dono da farmácia de farmacêutico, ele tinha a agenda de injeções do bairro todo e ia em casa levar a medicação e aplicar. Perguntava das consultas, se tinha algo de novo, a família todo como estava. A cidade, vinte anos atrás, era muito menor do que é hoje. Os moradores não se mudavam com freqüência.

Houve uma vez em que ele teve problemas. Não sei, ou não me lembro, quais, não pôde vir. Veio, na noite seguinte, a enfermeira do posto de saúde, a pedido dele, aplicar as injeções de minha avó. Ela ficou preocupada com o atraso na injeção. A enfermeira disse que não havia problema, que como ela só podia ir à noite, depois do expediente, havia verificado as medicações de cada um antes para saber quais podiam atrasar ou não. A de minha avó podia atrasar um dia. Alguns podiam mais. Houve gente que ela não tve que atender no mesmo dia, sem atraso.

Na semana seguinte, o farmacêutico ainda estava com problemas, minha avó pediu para que minha madrinha a levasse à farmácia tomar a injeção. “Como assim? Olha sua idade. Subir a avenida?” Minha avó, por essa época, já passava dos oitenta e seis. Eu sei porque era a idade dela quando meu avô faleceu. Sem ele, ela pediu-me para passar as férias em sua casa, eu tinha onze anos, mas como ela morava ao lado da escola, quando as aulas recomeçaram, fui ficando. Fiquei até os vinte, quando ela morreu, com noventa e cinco.

Minha avó, mesmo com ainda mais idade, tinha força e inquietação para fazer o trabalho de casa. Começava de manhã cedo. Lavando os cabelos brancos, enormes, iam até as coxas. Lavavá-os na água gelada do tanque. O tanque de lavar roupa mesmo. Usava o sabão da roupa, às vezes umas gotas de azeite. Demorava para secá-los com a toalha. Era uma alquimia cosmética que eu não entendia, mas os cabelos ficavam lindos. Eu só via seus cabelos se, por engano ou insônia, acordasse muito cedo. No resto do dia, ela os deixava presos dentro do lenço. Sempre usava lenço na cabeça, camisa, xale, saia, saiote, socas. Eram as roupas típicas de sua terra. Eram roupas discretas, nada folclóricas. Passava despercebida numa cidade em que, na época, quase todas as famílias eram de imigrantes, italianos, portugueses, japoneses ou armênios.

Depois de lavar os cabelos, fazia o café. Limpava uma parte da casa. Preparava o almço. Almoçava diferente de nós. Só uma xícara de caldo do feijão e meia batata, que cozia nele. Portugueses gostam de batatas. Depois do almoço, lavava a cozinha toda. Quando fiquei adulto, meu primeiro apartamento era menor que sua cozinha. Cuidava das plantas, tinha um mundo de samambaias, chamava-as de rendas, outro mundo de antúrios e o roseiral da frente de casa. As rosas eram amarelas. Rosas amarelas são muito raras. De raiva da inveja que tinham de suas roseira, uma vez pegou a foice e cortou-as todas. O irmão, meu tio Porfírio, ajudou a plantar vermelhas no lugar. Hoje nem essas estão mais lá. No meio da tarde, dormia sentada na sala, vendo livros de figuras. Não sabia ler. Acordava para o banho e o chá. Não jantava. Tomava uma xícara de chá com meio pãozinho com manteiga. Rezava o terço, à moda de sua terra, Trás-os-Montes. Levava horas. Sentava-se junto à porta de meu quarto, vendo comigo uma novela. E ia para a cama, cedo, oito da noite, no máximo. No dia seguinte, acordava de madrugada cedo de novo.

Morávamos perto da farmácia, dois quarteirões, uns trezentos metros. Mas era muita ladeira. Por mais força que minha avô tivesse, ninguém lhe permitia mais fazer aquela subida.

Pediu que minha madrinha fosse a farmácia apressar o moço. A madrinha não podia ir tão já. Era quarta-feira. De quarta-feira, logo depois do almoço, tem a missa de Santo Antônio. Tinha de ir. Há de se ofertar pães, benzê-los para que nunca faltem. Na volta da missa, passaria na farmácia a cobrar a visita. A farmácia fica defronte à igreja. Mas para minha avó isso era muita demora. Eram duas horas de missa. Pareceu triste pelo adiamento da injeção. Parecia criança com natal atrasado.

A madrinha saiu para a missa e a avó se trancou no quarto.

Apareceu-me daí uns dez minutos: “Filho, – certo seria neto, mas tratava-me filho – você vem comigo aqui em cima?” Falou como se fôssemos colher erva cidreira ao fundo do quintal. Ela estava de xale diferente. Aquele eu nunca a vi usar em casa. Com os olhos procurei sua mão. Tinha o molho de chaves. Não precisava de chaves para ir ao quintal. Só trancávamos as portas para dormir e para sair de casa.

Fui sem objeção. Nem precisava mostrar que sabia onde íamos, achei que ela desistiria antes da esquina. A farmácia fica na avenida, subindo dois quarteirões, atravessando a rua, em frente à catedral. Morávamos numa travessa, segunda casa depois da esquina. Acho que, teimosa, ela nao desistiu tão cedo porque queria mostrar que ainda conseguia. Logo que descemos a escada de casa e trancou o portão, se encostou ao muro. Tinha a cara do teimoso que se arrependeu mas que não iria voltar. Andamos trinta metros, dobramos a esquina se apoiou de novo, olhou a ladeira. Acho que não se lembrava dela tão grande.

“Vamos.”” Foi nesse vamos tão natural, como se perguntasse se eu tinha disposição de a acompanhar, que eu percebi que a casa tinha caído. Me arrependi pensando em como chamaria a ambulância se precisasse. Não havia celulares ainda. Eu ri, ela também. Sabíamos que seria ainda pior se eu tentar convencê-la a voltar. Dei-lhe o braço como namorado e fomos. Ela parava a cada dez passos, tomava ar. Pensei que fosse pelo cansaço. Hoje sei que não era. Ela admirava a avenida que já há uns cinco anos não via. Mais ou menos depois dos oitenta anos, parou de sair de casa. Olhava as casas dos dois lados da rua, “Aqui é o Seu Renato?” Era. Nosso terreno dava fundos para o dele. Ele tinha um dálmata bonito que dormia na calçada. Sempre me atacava na volta da escola. Acompanhado de minha avó, o cachorro ficou quieto com cara de enfado. Mal me olhou, não deu bola. “Esta derrubaram”. Era a casa antiga de Seu Alberto, dono da venda. Eu não me lembro de tê-la visto. Seu Alberto, quando os filhos cresceram, se mudou para uma casa menor, vendeu essa para a construção de um edifício. A casa foi derrubada. Mas, nos fundos, ele tinha umas três casinhas só de quarto e cozinha, com inquilinos. A construtora, acho que até hoje, não conseguiu despeja-los. A avó olhava tudo e cumprimentava todos que via.

Mostrou cansaço depois de atravessar a rua, quando andamos os primeiros metros da subida da minha escola. Da escola só se via o muro alto, não havia o que olhar. Ela lembrou de se cansar. Descansou, fingiu que ia desmaiar. Achou que pensou mesmo que fosse. Largou meu braço, pediu o ombro. Subiu até a esquina sem parar e esse era o pior pedaço. Atravessamos pra a igreja velha, a antiga matriz, abandonada. Foi desativada logo que ela veio morar aqui. Não precisava, mas a prefeitura queria uma igreja nova, desenhada pelo Niemeyer. Essa igreja nova é a atual catedral. Fica ao lado, pegada, projetada para ser vista na subida do calçadão. Meu batizado foi uma das primeiras missas após a inauguração, contou-me. Olhou bem as duas igrejas.

Não havia o semáforo ainda. Mesmo com pouco movimento, ela andava devagar, com dificuldade , esperamos uns dois minutos sem conseguir começar a travessia. Ela teve idéia de acenar para um carro parar. A senhora que dirigia acenou de volta e parou segurando os outros carros. Atravessamos agradecendo.

O farmacêutico estranhou-a ali. Não repreendeu. Felicitou pela saúde e disposição naquela idade. Ela tomou a injeção conversando, sem expressão, pensava no que mais podia fazer nessa sua tarde livre. Se fosse uma caneta a lhe escrever no braço, ficaria brava. Ao invés disso, uma agulha furando o braço, parece que nem a notava.

Fomos à padaria. Eram duas, separadas pela borracharia e pelo sapateiro. De um ma delas, bem grande, na esquina, não gostávamos. Fomos à pequena, do João. Gostamos dele e do pão. Havia muito tempo que não via minha avô. Saiu do balcão pra abraçar e dar um beijo. Pediu-me licença para beijar “minha namorada”.

Ela gostava de pagar-me sorvete. Não gostava de sorvete, mas tinha prazer em ver os netos tomarem. Escolhi um de chocolate, aquele com malte. Ela pediu pão. Não precisava, a madrinha sempre trás o pão depois da missa. Eu não disse isso. E ela pediu muito pão. Juntos comíamos quatro, ela pediu duas dúzias. João se admirou, ela disse que eram para os pobres. Tudo o que sobrava ela dizia que era para os pobres.

Fez-me sinal para acompanhá-la, já estava independente. Depois da subida, a calçada plana no alto da avenida era tranqüila. Passamos pela borracharia. Em frente ao sapateiro, na banca de jornal, cumprimentamos minha amiga que estava lá. A banca é do pai dela. “Essa é sua outra avó?” Ela sempre confundia minha madrinha com avó. Expliquei, de novo, que aquela sim é que era a minha avó de verdade. A avó teve calma, sempre tinha, de me esperar encerrar a conversa. Além de muito legal, aquela era talvez a menina mais bonita da escola. Depois dos tchaus, e de sairmos da vista da menina, enquanto esperávamos para atravessar a rua, minha avó passou-me a mão na cabeça e riu, o olho molhado. Percebeu que o neto já tinha idade para querer algo mais com a amiga. “Ela é bonita mesmo! É essa?” Respondi que não, crescer juntos inibe certos sentimentos, mas que era uma boa sugestão. Rimos, ela não deve ter acreditado.

Subiu a escada da igreja sem me avisar, nem pedir apoio. Deve ter pensado que era óbvio para mim que fizéssemos isso. Chegou à metade antes de eu começar. Na porta, pediu-me o braço de novo. Andamos a igreja toda até o altar, é longa, mais de cem metros. Pediu-me o pão. Colocou-o ao pé do altar. Benzeu-se de novo, pôs a mão à boca e acenou ao bispo. Conheceu-o menino. O pai era da terra dela. A madrinha rezava de olhos fechados, no fundo da igreja. Sentamo-nos no banco atrás dela. Minha avó vitoriosa. Pegamos quase metade da missa, inclusive a benção do pão. O bispo a citou ao final da missa. Só então a madrinha soube que estávamos lá. Não teve coragem de ficar brava.

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