Injeção

Minha avó gostava de injeção.

Magricela demais, não sei como conseguiam espetá-la. As veias, é fato, eram fáceis de encontrar. Mas não tinha carne nenhuma. Ela brincava que tinha aflição de mexer no próprio braço, tão magro ele era. Na aliança, enrolava barbante para deixá-la mais justa e não a perder quando mexia em sabão ou na comida. Não era magra de doença, comia pouco desde que, adulta casada já, perdeu a mãe e teve que se acostumar à própria comida. Não gostava do que cozinhava. Só de pão com manteiga, chá, mariola, biscoito Maria, aliás era esse seu nome, e das asas de frango que meu pai, seu genro, fritava. Gostava também de injeção. Se tinha que tomar um remédio, a primeira coisa era perguntar se não podia ser injeção. Tomava várias, nem todas pela idade, a maioria pela mania de doenças. Acho que as inventava. Quando éramos crianças, ela nos levava ao pediatra sem precisão. Queixava-se de problemas que nós nem imaginávamos ter, queixava-se de problemas seus e tentava sair de lá com uma receita de injeção. Dizia ter dificuldade para engolir comprimidos. Eram as manias médicas da injeção e do Xarope São João. Talvez por isso tenha vivido tanto.

Tinham datas certas as injeções de cada remédio. O farmacêutico, em Osasco nós chamávamos o dono da farmácia de farmacêutico, ele tinha a agenda de injeções do bairro todo e ia em casa levar a medicação e aplicar. Perguntava das consultas, se tinha algo de novo, a família todo como estava. A cidade, vinte anos atrás, era muito menor do que é hoje. Os moradores não se mudavam com freqüência.

Houve uma vez em que ele teve problemas. Não sei, ou não me lembro, quais, não pôde vir. Veio, na noite seguinte, a enfermeira do posto de saúde, a pedido dele, aplicar as injeções de minha avó. Ela ficou preocupada com o atraso na injeção. A enfermeira disse que não havia problema, que como ela só podia ir à noite, depois do expediente, havia verificado as medicações de cada um antes para saber quais podiam atrasar ou não. A de minha avó podia atrasar um dia. Alguns podiam mais. Houve gente que ela não tve que atender no mesmo dia, sem atraso.

Na semana seguinte, o farmacêutico ainda estava com problemas, minha avó pediu para que minha madrinha a levasse à farmácia tomar a injeção. “Como assim? Olha sua idade. Subir a avenida?” Minha avó, por essa época, já passava dos oitenta e seis. Eu sei porque era a idade dela quando meu avô faleceu. Sem ele, ela pediu-me para passar as férias em sua casa, eu tinha onze anos, mas como ela morava ao lado da escola, quando as aulas recomeçaram, fui ficando. Fiquei até os vinte, quando ela morreu, com noventa e cinco.

Minha avó, mesmo com ainda mais idade, tinha força e inquietação para fazer o trabalho de casa. Começava de manhã cedo. Lavando os cabelos brancos, enormes, iam até as coxas. Lavavá-os na água gelada do tanque. O tanque de lavar roupa mesmo. Usava o sabão da roupa, às vezes umas gotas de azeite. Demorava para secá-los com a toalha. Era uma alquimia cosmética que eu não entendia, mas os cabelos ficavam lindos. Eu só via seus cabelos se, por engano ou insônia, acordasse muito cedo. No resto do dia, ela os deixava presos dentro do lenço. Sempre usava lenço na cabeça, camisa, xale, saia, saiote, socas. Eram as roupas típicas de sua terra. Eram roupas discretas, nada folclóricas. Passava despercebida numa cidade em que, na época, quase todas as famílias eram de imigrantes, italianos, portugueses, japoneses ou armênios.

Depois de lavar os cabelos, fazia o café. Limpava uma parte da casa. Preparava o almço. Almoçava diferente de nós. Só uma xícara de caldo do feijão e meia batata, que cozia nele. Portugueses gostam de batatas. Depois do almoço, lavava a cozinha toda. Quando fiquei adulto, meu primeiro apartamento era menor que sua cozinha. Cuidava das plantas, tinha um mundo de samambaias, chamava-as de rendas, outro mundo de antúrios e o roseiral da frente de casa. As rosas eram amarelas. Rosas amarelas são muito raras. De raiva da inveja que tinham de suas roseira, uma vez pegou a foice e cortou-as todas. O irmão, meu tio Porfírio, ajudou a plantar vermelhas no lugar. Hoje nem essas estão mais lá. No meio da tarde, dormia sentada na sala, vendo livros de figuras. Não sabia ler. Acordava para o banho e o chá. Não jantava. Tomava uma xícara de chá com meio pãozinho com manteiga. Rezava o terço, à moda de sua terra, Trás-os-Montes. Levava horas. Sentava-se junto à porta de meu quarto, vendo comigo uma novela. E ia para a cama, cedo, oito da noite, no máximo. No dia seguinte, acordava de madrugada cedo de novo.

Morávamos perto da farmácia, dois quarteirões, uns trezentos metros. Mas era muita ladeira. Por mais força que minha avô tivesse, ninguém lhe permitia mais fazer aquela subida.

Pediu que minha madrinha fosse a farmácia apressar o moço. A madrinha não podia ir tão já. Era quarta-feira. De quarta-feira, logo depois do almoço, tem a missa de Santo Antônio. Tinha de ir. Há de se ofertar pães, benzê-los para que nunca faltem. Na volta da missa, passaria na farmácia a cobrar a visita. A farmácia fica defronte à igreja. Mas para minha avó isso era muita demora. Eram duas horas de missa. Pareceu triste pelo adiamento da injeção. Parecia criança com natal atrasado.

A madrinha saiu para a missa e a avó se trancou no quarto.

Apareceu-me daí uns dez minutos: “Filho, – certo seria neto, mas tratava-me filho – você vem comigo aqui em cima?” Falou como se fôssemos colher erva cidreira ao fundo do quintal. Ela estava de xale diferente. Aquele eu nunca a vi usar em casa. Com os olhos procurei sua mão. Tinha o molho de chaves. Não precisava de chaves para ir ao quintal. Só trancávamos as portas para dormir e para sair de casa.

Fui sem objeção. Nem precisava mostrar que sabia onde íamos, achei que ela desistiria antes da esquina. A farmácia fica na avenida, subindo dois quarteirões, atravessando a rua, em frente à catedral. Morávamos numa travessa, segunda casa depois da esquina. Acho que, teimosa, ela nao desistiu tão cedo porque queria mostrar que ainda conseguia. Logo que descemos a escada de casa e trancou o portão, se encostou ao muro. Tinha a cara do teimoso que se arrependeu mas que não iria voltar. Andamos trinta metros, dobramos a esquina se apoiou de novo, olhou a ladeira. Acho que não se lembrava dela tão grande.

“Vamos.”” Foi nesse vamos tão natural, como se perguntasse se eu tinha disposição de a acompanhar, que eu percebi que a casa tinha caído. Me arrependi pensando em como chamaria a ambulância se precisasse. Não havia celulares ainda. Eu ri, ela também. Sabíamos que seria ainda pior se eu tentar convencê-la a voltar. Dei-lhe o braço como namorado e fomos. Ela parava a cada dez passos, tomava ar. Pensei que fosse pelo cansaço. Hoje sei que não era. Ela admirava a avenida que já há uns cinco anos não via. Mais ou menos depois dos oitenta anos, parou de sair de casa. Olhava as casas dos dois lados da rua, “Aqui é o Seu Renato?” Era. Nosso terreno dava fundos para o dele. Ele tinha um dálmata bonito que dormia na calçada. Sempre me atacava na volta da escola. Acompanhado de minha avó, o cachorro ficou quieto com cara de enfado. Mal me olhou, não deu bola. “Esta derrubaram”. Era a casa antiga de Seu Alberto, dono da venda. Eu não me lembro de tê-la visto. Seu Alberto, quando os filhos cresceram, se mudou para uma casa menor, vendeu essa para a construção de um edifício. A casa foi derrubada. Mas, nos fundos, ele tinha umas três casinhas só de quarto e cozinha, com inquilinos. A construtora, acho que até hoje, não conseguiu despeja-los. A avó olhava tudo e cumprimentava todos que via.

Mostrou cansaço depois de atravessar a rua, quando andamos os primeiros metros da subida da minha escola. Da escola só se via o muro alto, não havia o que olhar. Ela lembrou de se cansar. Descansou, fingiu que ia desmaiar. Achou que pensou mesmo que fosse. Largou meu braço, pediu o ombro. Subiu até a esquina sem parar e esse era o pior pedaço. Atravessamos pra a igreja velha, a antiga matriz, abandonada. Foi desativada logo que ela veio morar aqui. Não precisava, mas a prefeitura queria uma igreja nova, desenhada pelo Niemeyer. Essa igreja nova é a atual catedral. Fica ao lado, pegada, projetada para ser vista na subida do calçadão. Meu batizado foi uma das primeiras missas após a inauguração, contou-me. Olhou bem as duas igrejas.

Não havia o semáforo ainda. Mesmo com pouco movimento, ela andava devagar, com dificuldade , esperamos uns dois minutos sem conseguir começar a travessia. Ela teve idéia de acenar para um carro parar. A senhora que dirigia acenou de volta e parou segurando os outros carros. Atravessamos agradecendo.

O farmacêutico estranhou-a ali. Não repreendeu. Felicitou pela saúde e disposição naquela idade. Ela tomou a injeção conversando, sem expressão, pensava no que mais podia fazer nessa sua tarde livre. Se fosse uma caneta a lhe escrever no braço, ficaria brava. Ao invés disso, uma agulha furando o braço, parece que nem a notava.

Fomos à padaria. Eram duas, separadas pela borracharia e pelo sapateiro. De um ma delas, bem grande, na esquina, não gostávamos. Fomos à pequena, do João. Gostamos dele e do pão. Havia muito tempo que não via minha avô. Saiu do balcão pra abraçar e dar um beijo. Pediu-me licença para beijar “minha namorada”.

Ela gostava de pagar-me sorvete. Não gostava de sorvete, mas tinha prazer em ver os netos tomarem. Escolhi um de chocolate, aquele com malte. Ela pediu pão. Não precisava, a madrinha sempre trás o pão depois da missa. Eu não disse isso. E ela pediu muito pão. Juntos comíamos quatro, ela pediu duas dúzias. João se admirou, ela disse que eram para os pobres. Tudo o que sobrava ela dizia que era para os pobres.

Fez-me sinal para acompanhá-la, já estava independente. Depois da subida, a calçada plana no alto da avenida era tranqüila. Passamos pela borracharia. Em frente ao sapateiro, na banca de jornal, cumprimentamos minha amiga que estava lá. A banca é do pai dela. “Essa é sua outra avó?” Ela sempre confundia minha madrinha com avó. Expliquei, de novo, que aquela sim é que era a minha avó de verdade. A avó teve calma, sempre tinha, de me esperar encerrar a conversa. Além de muito legal, aquela era talvez a menina mais bonita da escola. Depois dos tchaus, e de sairmos da vista da menina, enquanto esperávamos para atravessar a rua, minha avó passou-me a mão na cabeça e riu, o olho molhado. Percebeu que o neto já tinha idade para querer algo mais com a amiga. “Ela é bonita mesmo! É essa?” Respondi que não, crescer juntos inibe certos sentimentos, mas que era uma boa sugestão. Rimos, ela não deve ter acreditado.

Subiu a escada da igreja sem me avisar, nem pedir apoio. Deve ter pensado que era óbvio para mim que fizéssemos isso. Chegou à metade antes de eu começar. Na porta, pediu-me o braço de novo. Andamos a igreja toda até o altar, é longa, mais de cem metros. Pediu-me o pão. Colocou-o ao pé do altar. Benzeu-se de novo, pôs a mão à boca e acenou ao bispo. Conheceu-o menino. O pai era da terra dela. A madrinha rezava de olhos fechados, no fundo da igreja. Sentamo-nos no banco atrás dela. Minha avó vitoriosa. Pegamos quase metade da missa, inclusive a benção do pão. O bispo a citou ao final da missa. Só então a madrinha soube que estávamos lá. Não teve coragem de ficar brava.

Destino

Outro dia fui perguntado se acredito em destino.

Eu acho que se existir algum deus, alguma força que criou este mundo e nos criou ou pôs nele, não acho razoável ter-nos deixado ao, trocadilho infame, Deus-dará. Seria como termos um aquário, um viveiro, e não cuidarmos dos bichinhos, não brincarmos com eles.

Se, por outro lado, não existe esse ente, essa força, acho muito muita coincidência que equívocos e desencontros, com tanta freqüência, se juntem mais à frente do caminho, em encontros tão acertados. São acidentes, obstáculos, enganos. Devemos usá-los para evoluir.

Alguma coisa há, uma conspiração da natureza talvez, a vontade de um deus, a vontade conjunta das pessoas, desejo comum, percepção compartilhada, algo há. Não sei se isso é premeditado desde o começo dos tempos, para que possa ser chamado destino. Ou se é só coincidência. Eu prefiro não pensar muito nisso. Prefiro ficar feliz, aceitar, e colaborar para deixar rolar.

Lua e Sol

20140517-155438.jpg

Eu gosto muito, muito mesmo, tanto do sol quanto da lua.
Pra mim são um só, uma só. Uma amiga, companheira, bonita, agradável que, de dia, aquece e ilumina, de noite, guia, dá alento, reflete a luz do sol, sua própria.
De manhã cedo, bem cedo, toma café e sai resplandecente para trabalhar. Lá no alto. Seu trabalho é muito importante, vital. Ilumina e aquece, do bom dia à boa noite. Seu calor, tão gostoso, resiste na terra até o dia seguinte.
À noite, põe seu pijama, confortável e deita no céu, descansando.
Eu me deito também, longe, aqui embaixo, seu brilho por cobertor, com pena de dali não alcançá-la. Queria alcançá-la. Sonho bonito com ela. Por mim, passaria todas as noites fora de casa, ao relento, olhando-a. Assim, nem dormir precisaria para sonhar.

20140517-155351.jpg

Sonhos impróprios

Eu não devia falar isso, mas fiquei triste de saber que mais alguém sonha com você. Era de se esperar, não o culpo, você me parece mesmo ser um sonho de pessoa.
Eu também já tive sonhos impróprios com você.
Impróprio é um modo de falar. Seriam impróprios pra serem contados na TV em horário onde crianças e gente pudica pudessem assistir. Para mim, foram bons sonhos, antecipados.
Não foram sonhos adormecidos, inconscientes. Sonhei-os por querer, acordado, na minha imaginação, quieto no meu canto, cabeça no travesseiro ou no encosto do sofá, braços cruzados, abraçando a mim mesmo. E, nessa minha imaginação, vivo-os. Só na imaginação.
Alguns, contei-os aqui, para você. Talvez você não soubesse que estava neles. Isso não te contei.
Contar assim tudo do sonho é proibido. Nem dá pra explicar tudo. Queria ter um jeito de você os assistir, não como um filme, com os mesmos arrepios que emoções que eu senti.

Rosto

Ele nunca antes havia deixado ninguém por a mão no seu rosto. A avô punha. Morou dez anos com ela. Não era opção, mas também era diferente. ela, quando não tinha boa coisa para contar, em vez de falar, pegava-lhe seu rosto entre as mãos, tentava apertar com força, nunca conseguia. As mãos tremiam, ela fazia cara de choro e esperava que ele entendesse o que acontecia. Foi assim quando o avô e o irmão morreram, foi assim também quando ela percebeu que não viveria o suficiente para vê-lo terminar a faculdade.

Ele é muito tímido. A avó ele deixava fazer, porque era tímido demais para decepciona-la. Não deixou mais ninguém, nunca mais. Não sabia porque. Incomodava. Talvez sentir-se na mão de outra pessoa, à sua mercê, entregue ou dominado. Talvez lhe parecesse isso e, por isso, lhe incomodasse.

Houve duas exceções, duas vezes só. Um primo, homossexual não assumido. Ele sabia. O primo por duas vezes se emocionou. Uma de alegria, casamento da sobrinha. Outra de tristeza, funeral da irmã. Nas duas, chorando, segurou-lhe o rosto, deu-lhe três tapas firmes na bochecha, um beijo na bochecha estapeada e agradeceu pela companhia. Ele não se incomodou com isso. Não se sentiu mal, era só um demonstração de amizade e de satisfação. Quando o primo morreu, chorou. Gostava de ter-lhe feito companhia uma última vez e retribuir-lhe, rindo os dois, ao menos um dos tapas no rosto.

É algo estranho. Não tinha vergonha de pedir colo, de se mostrar frágil, de chorar. Mas, mesmo nos momentos de maior intimidade, nunca deixou uma mulher fazer-lhe carinho no rosto. Desviava-o, olhava para o lado, para cima, fingia procurar algo no chão.

Uma noite, antes de dormir, com a nuca enterrada no travesseiro, olhando o teto, pensando nas coisas que lhe tiravam o sono, chorou. Abraçou o travessei como se fosse o colo da mãe. Engoliu o choro, totalmente em silêncio. Esse lhe doeu até sair, em silêncio pelos olhos. Pela boca não sairia nada.

Tentou pensar em algo bom, que o acalmasse. Conseguiu. Logo se lembrou de alguém. Pensou em abraçar-lhe, mas não queria se mexer. Uma das bochechas estava virada para cima, desencostada do travesseiro. Imaginou uma mão cobrindo-a. Quando notou que isso não lhe incomodaria, quis sentir um afago, a mão inteira aberta, alisando-lhe o rosto. O coração se apertou. Queria participar, retribuir o carinho imaginário. É difícil imaginar o que fazer numa situação inédita. Achou que a abraçaria, com os rostos colados, tentando sorrir. Mas não sabia se assim ela conseguiria continuar com a mão em seu rosto.

No word available, no adequate emot

Tem coisas que a gente quer escrever para as quais não há palavras.
Para responder sim ou não, por exemplo, como deixar a pessoa saber que você ficou sem graça, feliz, ou envergonhado com a resposta? Não é cousa que se escreva. “Sim. E tenho vergonha de falar que sim.” Ou “Não. E fiquei bravo pra falar não.”
Eu posso fazer um texto imenso explicando como pensei, que cara fiz antes e depois de responder, como me senti. Mas isso também não é coisa que se faça durante uma conversa, num recado, em uma linha.
Alguém inventou umas coisas muito legais chamadas emoticons, eu chamo de emots. Em vez de explicar, mostro que sorri :), que corei :$, que chorei :’), que estou brincando ;), que quero ser carinhoso (k). Quase sempre, isso basta.
Mas ainda assim, há situações complicadas, como, por exemplo, responder “sim” ou “não”. Como se a vida real fosse assim binária. Talvez nem enunciável ela seja.
Se me perguntar algo que eu devo responder “sim” ou “não”, minha resposta, para ser correta pode ter de mostrar que ela me deixa triste, mas que fiquei feliz, por achar que você me entendeu, e também encabulado, por te deixar saber aquilo. Não há palavras prontas para isso. Posso montar essa frase, cheia de verbos e oposições. Quando terminar de responder e pontuar com ela, talvez já tenha muito mais frases explicativas para juntar. Também não há emot. Se combiná-los, combino também outros sentidos que não são corretos.
Às vezes, fugir à resposta é o melhor jeito de deixá-la clara.

Bill

Eu tenho um amigo, nós os chamamos de Bill. Esse não é seu nome. É um apelido que ele mesmo se deu. Ou, melhor, o pai lhe deu e ele, por raiva do pai, o adotou para o resto da vida. A história é engraçada, para nós. Para ele foi constrangedora, na hora. Hoje, todos rimos muito disso.

Foi num de seus aniversários. O pai se atrasou, ligavam, ele não atendia. O bolo atrasou mais de hora e meia esperando por ele. O velho, quando chegou, estava completamente bêbado, fedendo a perfume de prostitutas. A esposa passou-lhe uma descompostura por se esquecer do aniversário do filho. Ele disse que não se esqueceu, que se lembrou “do aniversário do… do… do… do menino.” Além do atraso, da vergonha que fez a família passar, de tão bêbado, se esqueceu do nome do filho. “Como pode? Vocês têm o mesmo nome!” Nosso amigo foi, então, rebatizado: “Não me esqueci nem do aniversário, nem do nome do… do… Bill.” Ninguém sabe de onde ele tirou o nome. O aniversário acabou em separação. O filho abandonou o nome do pai e passou a, sarcasticamente, se apresentar como Bill. Não atendia se o chamássemos pelo nome. Para nós, sabemos, nos lembramos, de que um dia teve outro nome, às vezes é difícil nos lembrarmos de qual, era apenas o Bill.

O conheci no trabalho. Contratei-o para o lugar de outro amigo meu que saiu da empresa. A mãe é uma figura. Quando me conheceu disse ao filho que aquele menino que trabalhava com ele parecia simpático. “Menino? É meu gerente, mãe!” Rimos muito. Bons tempos, eu ainda tinha cara de menino e ele, coitado, tinha medo que eu me ofendesse com a observação da mãe. Ele é muito formal: roupas, cerimônias, modo de falar. Se apega a essas coisas que não combinam com alguém que usa o apelido como nome. Destoava do resto da equipe. Mas nós dávamos todos muito bem. Em meus dias ruins, ficava até altíssimas horas consolando minhas mágoas. Tinha jeito, poderia ser padre, conselheiro ou assistente social de sucesso. Quando saiu da empresa, não resisti a uma última zoeira corporativa com o amigo, mandei-lhe um buquê enorme de rosas vermelhas, entregues na calçada da Paulista. Mais vermelho ficou ele.

Saíamos muito em happy hour. Eu gosto de vinho. Ele, mais novo, era etílico. Gostava de destilados. Ficava bêbado muito antes de mim. Não entendo beber destilados puros. O gosto não é bom e têm muito álcool. Só servem para embebedar e deixar mal.

Houve um happy, estávamos em uns oito, só homens, numa mesa de calçada. Boa coisa não podia vir dali. Onde só tem homem, fala-se muita besteira. Coisas sérias também, mas muita besteira. Se bebem, então é só besteira.

Dois solteiros choravam as pitangas e nós, fiéis amigos, queríamos encontrar-lhes um par. Não que eles quisessem ajuda, simplesmente não tinham a opção de recusá-la. As outras mesas não ajudavam, quase só homens. As poucas mulheres estavam acompanhadas.

Tarde já, a mesa ao nosso lado desocupou. Duas garotas se sentaram. Não as achei bonitas, eram duas loiras muito magricelas, dessas com cara de modelo. Não gosto de mulher assim, me desculpem. Meus amigos riem de mim, dizem que gosto de gorda. Gosto de mulher com corpo de mulher saudável, não de vareta de pipa.

Eram duas. Nossos desiludidos eram dois. Estávamos bebendo. Bastou. Começou a zoeira. “Vamos lá, chama elas. Chama lá, Bill.” Um dos solteiros queixosos era o Bill. “Vão lá. Vocês estão a fim. Chamam elas. Vão lá, Bill.” Tímido, todo formal, e os dois, era dele que mais enchíamos o saco. Ele morria de vergonha, mas quanto mais pesado pegávamos, mais dava risada. Chorava de tanto rir, com a boca escancarada. Cada vez que pedia para pararmos, falávamos uma pior e ele tinha um acesso mais violento de riso.

Elas pediram a conta mais ou menos junto de nós. Enquanto a conta não chega, os homens costumam ir, um por um ao banheiro para evitar incômodos no caminho de volta. Ele aproveitou e foi escondido à mesa delas: “Eu queria pedir desculpa em nome de todos nós. A gente bebeu muito, sabe como é.” Eles, danadas da vida com a zoeira, acho que pegamos pesado mesmo, devemos ter falado muito alto. Foi tão divertido! Elas demoraram pra se acalmar, e olha que ele tem o dom das palavras. Quando por fim se acalmaram, confessaram terem simpatizado com ele, trocaram telefones, e nós perdoaram a todos. Quase todos porque “aquele tal de Bill é um idiota!”

Bill concordou: “Eu entendo, ele é um idiota mesmo. Anotaram meu telefone? Não se esqueçam, eu sou o Fernando.”

Risca

Happy hour com o chefe nem sempre é algo agradável, em geral não é. Eu não tenho esse problema. Meu chefe é meu amigo. O cara é estrangeiro, não conhece tanta gente por aqui. São Paulo é uma cidade complicada para fazer e manter amizades depois de uma certa idade. As distâncias são longas, a locomoção é difícil. A gente acaba fazendo amizade só com os colegas de trabalho. É complicado. Se você não para muito tempo na mesma empresa, como é o costume em nossa área, acaba tendo poucos amigos. Poucos mesmo.

Depois do trabalho, costumamos beber alguma coisa, ao menos duas vezes por semana. Além de alguns assuntos de trabalho mesmo, há assuntos sobre os quais não podemos conversar dentro da empresa, durante o dia, na frente de qualquer um, política corporativa, relacionamento com colegas, também conversamos muito sobre experiencias, a vida de imigrante, a de filho de imigrantes, as impressões que tinhamos de pessoas que conhecemos, situações, conselhos, reprimendas. É um jeito relaxado de desestressar e ainda conseguir uma opinião diferente vinda de uma pessoa próxima que, às vezes, observou a situação sobre a qual conversamos.

Numa das epocas em que trabalhamos juntos. Na primeira empresa em que trabalhamos juntos. Íamos às vezes a um lugar que chamávamos de Risca-a-Faca. Era um bar que destoava dos outros ao redor da empresa. Num bairro chique, com cafés, bares, casas noturnas e restaurantes que imitavam os de Nova Iorque e Paris, como se costuma dizer, o Risca – esse apelido não é carinhoso, é só um modo de economizar sílabas e facilitar a pronúncia – é diferente. É um daqueles botecos típicos de periferia, com mesas e cadeiras baratas de plástico, toalha descartáveis de papel, azulejos velhos, funcionários de uniformes comuns, aqueles comprados em lojas de varejo, guardanapo vagabundo, comida e cerveja populares. Ele explora um público que não chega a ser de pobre, mas é gente que não freqüenta lugares chiques, ou não só. Nós íamos a qualquer lugar, nos outros, naquele. O que importava era poder espairecer. Naquele noite, fomos lá.

Não me lembro qua era o dia da semana, devia ser uma terça ou quarta-feira, pois tinha pouca gente. Acho que só nós dois. Nos sentamos na frente, numa mesa bem em frente à entrada. E havia também um pessoal de uniforme branco em mesas juntadas, entre a nossa e a parede. Ali junto há um complexo hospitalar, faculdade de medicina, deviam ser de lá. Mulheres, umas oito ou dez, em torno dos vinte, vinte-e-pouquinhos anos. Não me lembro de mais alguém estar por ali.

Também não me lembro do que falávamos. Provavelmente, na nossa mesa, havia lingüiça e pão. Quem gosta de lingüiça é ele, vejam bem, eu gosto de pão. Adoro pão. Devia haver também cerveja – aquela bebida fermentada de milho que vendem por aqui falando que é  cerveja. Eu não gosto. Gosto de vinho e de cerveja de verdade, de malte, não de milho. Mas é o que vendem ali e eu estava ali pela conversa, não pela bebida.

Meu amigo, eu o chamo de jefe, é chefe em espanhol, tem minha altura e ele consegue se maior que eu. Maior que eu digo é mais gordo, muito mais, e espaçoso. Ele fala com os braços. Dizem que os italianos falam com as mãos. Ele não é italiano, ele não fala só com as mãos, mas com o braço todo. Ele abre os braços abraçando o mundo, aponta, se vira, chacoalha, olha, bate asas. Tudo isso com movimentos lentos de gordo alegre, é divertido. Dizem que todo gordo é alegre. Isso é mentira, mas quem disse pela primeira vez, talvez o conhecesse. Esses movimentos são de quem está descontraído e distraído, não pensa no acidente que pode causar. Às vezes prega um susto: esbarra na mesa, ou mesmo, sem querer, empurra, acerta alguém. Nunca machuca, dificil causar um acidente sério. Apesar de forte, eufemismo pra gordo, ele não usa força nesses gestos.

Os esbarrões, e eventuais bofetadas e trombadas, acabam tendo sua função social. Às vezes brinco com ele, digo que é espaçoso de propósito para esbarrar nos outros e começar uma conversa fiada pelo pedido desculpas. Ele nega. Eu acredito. Não é nada proposital. Mas, quando acontece e convém, ele aproveita.

Depois de ter passado raiva no trabalho durante o dia, e as coisas que aconteciam naquela empresa nos faziam mesmo passar raiva, mais duas cervejas e luz fraca do lugar, os reflexos ficam ruins. E o juizo também. Meu amigo, numa hora em que abriu os braços, quase deu um tapa com as costas da mão no rosto de uma das meninas da mesa ao lado. Se ela usasse peruca, ele a teria deixado careca. Foi engracado, mas embaraçoso até para os outros. Seus dedos se enrolaram no brinco de argola dela. Ficou muito sem graça, pediu muitas vezes desculpas. Ela, assustada, as outras rindo, aceitou as desculpas rápido, acho que para acabar logo o assunto e dispersar a atenção indesejada que tinha. Normalizada a situação, o brinco no lugar, a orelha saudável, íntegra, elas se voltaram à propria mesa, nós à nossa. O jefe se auto-penitenciava. Ainda a incomodou mais uma vez, sentia-se culpado pelo perigo e por tê-la visto envergonhada. As desculpas eram sinceras. e o embaraço dela também.

Depois disso, uma das outras meninas, uma gordinha bonita, de cabelo comprido liso e tiara, conversou algo com ela, apontando ele e dando risada. Deve ter feito a piada óbvia. A menina não gostou. A gordinha riu gostoso, um riso simpático. As outras em volta riram também, não tão gostoso, mas riram até mais alto que ela. A menina do brinco ficou envergonhada demais. Eu, descuidado, ri. A gordinha nos olhou séria. Acho que eu, curioso com a situação, olhei demais e ela se incomodou. Tinha o direito. Fui no banheiro. Precisava já, mas aproveitei para ir naquele momento para fugir do carão.

Saindo do banheiro, ainda sóbrio, dei de frente com a menina de branco, a do brinco, a vítima. Ela desviou de mim, sem me olhar, não sei se por vergonha ou bebida. Olhava fixo pra algum ponto na porta do banheiro feminino e foi pra lá. Eu fui pra mesa. Sentei-me. A mesa delas já não tinha tanta gente. Se, no começo, eram umas dez, agora sobraram quatro. As outras estavam na porta, esperando a que foi no banheiro. Quando ela passou, mais um pedido de desculpas. Foi engraçada a expressão dele, como se fosse sua última esperança de redenção. Ela não achou graça, encabulada. A maioria das amigas também não. Eu achei. A gordinha e outra das meninas sentadas também. A gordinha deu risada de eu não conseguir segurar minha risada. Os dois ficaram sem jeito. Ela foi embora junto com as outras que, impacientes, lhe apressavam da calçada.

Não sei se é a cerveja, a lingüiça, a cebola da lingüiça, gosto muito de cebola, ou o sono, mas a luz fraca, parece que enfraquece mais quando o tempo passa. Parece que, ao entrarmos, está bem branquinha e que, depois de entrarmos, ir amarelando e diminuindo com o tempo acessa, igual a uma vela que se consome. No Risca quase vazio, a conversa das meninas, ora barulhenta, ora cochichada, incomodava um pouco. A nossa também devia incomodá-las. Incomodava porque, com pouco barulho e volta, dá para distingüir várias palavras, parece que quando alguém chama é a nós que chama, as risadas chamam a atenção. A gordinha de tiara era quem mais falava. Parecia ser algum tipo de líder ou dominante do grupo. Ou era apenas quem tinha mais novidades para contar. Estava quase de frente pra mim e eu pra ela. Eu não queria reparar, nem nela, nem no que ela falava. Mas reflexo de quem bebe na luz fraca é ruim. De tempos em tempos, ela dizia algo e dava risada. Ria gostoso, como riu na hora do acidente com a amiga. Isso chama a atenção, aos menos os olhos. A gente olha, parece-me natural que olhe. Eu olho. Uma risada súbita, eu olhava, ela me olhava e logo parava de rir. Eu não queria incomodar.

Depois de mais um tempo de conversa… a conversa estava boa aquele dia. não falei sobre a conversa, mas estava boa demais, sempre é. A cerveja era ruim, o pão velho, mas a conversa boa. Fui no banheiro de novo. Cheguei de volta à mesa com meu amigo pedindo desculpas à gordinha pelo incidente com a outra menina. Ela sorria simpática, tentando parecer simpática. Ele, bêbado, não percebeu, mas ela estava incomodada. Pedir desculpas duas vezes pra pessoa certa chama a atenção, mas é compreensível. Pedir a terceira, por tabela, eu não sei, mas acho que incomoda. Ela procurou aparentar simpatia com ele, mas quando ele não estava olhando direto no rosto dela, ela me olhou, umas duas vezes de rabo de olho, séria, brava. Pensei que nós dois íamos ouvir alguma coisa. E não seria agradável.

Ele saiu para o banheiro também. Fiquei sozinho na mesa, com o copo cheio, gelado. Não devia estar cheio. Mania que ele tem de pedir para trocar meu copo por outro cheio. Como não gosto dessa cerveja, bebo devagar. Quando passa o garçom, ele se incomoda e pede para trocar meu copo, com cerveja fria pela metade, por outro cheio de cerveja gelada.  A rua já estava bastante escura. Ninguém passando. Ninguém na minha mesa para conversar. Eu devia estar com cara de mamão pois as meninas falavam de mim. Ou de nós dois. A gordinha falava com as outras me olhando de rabo-de-olho como se me apontasse pra elas. Aquela coisa que fazemos sem querer pra conferir se alguém percebe que virou assunto. Não sei se corei, mas fiquei sem jeito. Sempre fico, sem nem precisar que me apontem. Não gosto de chamar atenção e acho que ali não chamamos de uma forma muito positiva. Mais duas garotas foram embora. Ficaram a gordinha bonita, a da tiara, e uma outra que parecia desanimada. Talvez desanimada demais até para ir embora.

Meu amigo voltou. Na hora de sentar, espalhafatoso e desastrado como sempre, esbarrou a bunda na segunda menina, sem querer. Pediu desculpas, embaraçado. Achei que ia começar tudo de novo, mas a conversa puxada depois das desculpas me pareceu já ensaiada. Sentou-se. Torceu o corpo todo para falar com elas. Daquele jeito, ficaria com torcicolo. Perguntou se eram médicas. Eram enfermeiras, algumas. Enfermeiras de verdade disseram, não assistentes ou auxiliares. E alunas de enfermagem as outras. Ele perguntou os nomes. A gordinha fez uma cara de quem estava se divertindo em dar-lhe corda. Bebeu meio copo de cerveja e perguntou onde trabalhávamos. Ele se animou e respondeu. Se apresentou fazendo umas palhaçadas que, eu o conheço bem, ele faria mesmo que não tivesse bebido. Mas acho que ela assumiu que fossem coisa de bêbado, riu bastante. Joguei-me para trás na cadeira, aliviado, me divertindo também das palhaçadas, dessas e de outras que eu sabia que se seguiriam. Ele me apresentou também, com cerimônias, como se eu fosse seu filho. Ele é mais velho que eu mas não muito. Tive um irmão que, se fosse vivo, teria a mesma idade. Eu, me divertindo, cumprimentei com um aceno de cabeça e de copo: “Damas, muito prazer”. Ele me elogiou, por pouco tempo, mas bastante. Elogios sarcásticos, como costuma fazer comigo. Eu sempre rio. A gordinha riu sem acreditar no que ele era capaz de falar de mim.

A outra menina também se jogou para trás na cadeira. Estava oposta a mim. Ficou olhando a situação. A gordinha, com o decote lindo de encontro à mesa, dava corda e ria das bobagens do gringo, que até dançou um pouco para ilustrar, quando respondeu de onde era. Ele perguntou se ela tinha algum interesse em ser nossa cliente. Ele não é vendedor, estava para falar alguma besteira. Disse que, se ela tivesse, ele poderia ajudar com tudo. Ela nao tinha. Ninguém tem. Ri muito. Ele insistiu que, quando tivesse interesse ou curiosidade, poderia procurá-lo. Ela disse que faria, mas não perguntou como. Ele, quando se tocou, deu-lhe seu cartão: “Ligue quando quiser. Compre para você e para seu namorado. Você tem namorado?” Ela tinha. Ele não bebia com elas porque estava viajando a trabalho, viagem longa demais. Ela ficaria sozinha por todo esse tempo de outono e inverno. Ele fez uma piada, não foi grosseira, mas conseguiu deixá-la sem jeito. Eu só conseguia rir. Ela desviou o rosto pro meu lado, estava corada. Fiz uma cara solidária, a melhor que pude. Ele parou um pouco de falar. Ela olhou bem o cartão entre as mãos. Mordeu parte do lábio, ficou uns segundos pensativa e me perguntou: “E você, não tem cartão?” Eu não tinha. Ela ficou sem graça. Olhou de novo, pensativa, o cartão dele, com o rosto ainda mais vermelho do que já estava antes. Disse à outra pra irem ao balcão pagar, já era tarde.

Pagaram e se despediram. El Jefe me disse que ela faria um belo par comigo, dois gordinhos. Talvez fizesse, não a conheci. Mas avisou: “Ainda bem que você não tinha cartão, eu ia ficar muito bravo com você.”

Eu nem ri. Respondi aquilo porque não tinha mesmo. Ele ficou bravo no dia seguinte quando ela lhe ligou perguntando por mim.