Do Fundo do Baú

Subo um caminho pelas árvores, curto, uns 200 metros, talvez menos. Dali dava pra ver algumas trilhas bem estreitas, que eu não peguei porque iam para uma beirada com árvores e eu quero mesmo é ir para a parte de pedra, aberta, de onde se pode ver longe.

Em alguns pedaços de subida, pequena subida, o caminho de terra está moldado formando degraus, fica fácil subir. Não leva quinze minutos, tomando cuidado e olhando as plantas. Gostaria de ver uma onça por ali, havia de ser bonita. Sempre procuro, nunca encontro. Já ouvi rugido de onça. Escuta-se de longe. Dizem que alcança mais de quatro quilômetros. Acho que é assim que elas delimitam território. Aqui mesmo, já ouvi, mas muito longe.

Acaba o chão de terra, cheio de árvores, chega o primeiro pedaço de pedra, é como um terraço. Mais ou menos do tamanho de um terraço de um sobrado. Cercado, por um lado por uma pequena parede, de terra, com mais plantas. O acesso é feito, vindo de baixo, pelo caminho que eu subi e, seguindo mais para o alto, por outro caminho de terra, com mais árvores, essas menores, que eu já vou subir. Percebe-se que é um pedaço da pedra que aparece no meio do caminho de terra que eu subo. A beirada tem um parapeito de tubos para que as pessoas não cheguem perto da parte mais inclinada. Deve ser fácil escorregar depois dali. A queda, enorme. Estamos a mais de dois mil metros de altitude. Daqui até o vale devem ser mais de trezentos de altura. A vista mais no alto é aberta. Daqui ainda é meio estreita. Vêem-se ombros próximos da montanha que atrapalham a vista do vale é do resto da serra. Por entre eles, eu enxergo outra montanha, uns dez ou vinte quilômetros do ouro lado. É bonita. No alto dela, há um jardim bonito. Eu o conheço. Estive lá brincando já. É um jardim grande, aberto, com muita grama na parte alta, cheio de esculturas. Nas bordas, mais baixas, é cercado por árvores do bosque da montanha. Tem uma construção, um auditório, eu o conheço também, mas nunca entrei. Se eu tivesse zoom, tiraria uma foto bacana. A que tirei, de longe, vai precisar de legenda, porque não se distingue o jardim, longe.

Eu ouço um barulho, um grito ou gemido alto, um arfar muito alto. É um gemido alto de êxtase, violento, emocionado, expontâneo. Veio do ombro da montanha, onde acabam as filhas que eu não quis pegar. Alguém as pegou é chegou lá. Eu olho, há alguém, de moletom, pendurado numa corda bamba. Uma fita vermelha dessas que se prende em árvores para jogar o equilíbrio. Mas ali não estava presa em duas árvores sobre o chão do parque. Eu não via suas pontas, escondidas pela montanha e as árvores, na vista estreita. Via que ela se estendia sob o vale. O pedaço que eu via, uns dez metros de fita. Não dava pra saber sua extensão toda, onde começava nem onde terminava. O equilibrista, parece que caiu, desequilibrado, ficou pendurado por cordas de segurança. Engraçado que não dava para ver seu rosto, ter idéia da idade, da cor, mas via-se que estava cansado, o esforço para se equilibrar deve ser muito, a decepção de não conseguir também. Ficou pendurado sobre uma queda de centenas de metros. Olhou para frente, depois para a corda, fez um malabarismo — ele era magro, mas tinha que ser forte para fazer aquele malabarismo pendurado na corda — e se por novamente em pé na corda. Tentou de novo. Vi tentar mais duas vezes. Acho que não andou mais que dois metros. Tive inveja dele ali, andando numa corda no céu. Segui a subida quando ele começou a tentar mais uma vez.

Este outro trecho de subida de chão de terra logo se abre numa bifurcação em torno de algumas árvores. À esquerda, um caminho entre mato alto, queria ver o que está lá, do outro lado da montanha, mas não quero entrar no mato. À direita, mato mais baixo, mas a copa das árvores incomoda e é próximo à beirada. Vou pela esquerda, com pressa, são uns vinte metros. Quero chegar logo à pedra.

A pedra não é bem lisa, parece pedra de pia ou de amolar. Tem uns musgos. Isso aí molhado deve ser perigoso. Esse chão é muito rugoso, ondulado, não é confortável para andar, ainda mais a quando se está procurando a vista, sem olhar onde pisa. A vista, quanto mais se sobe, mais bonita é.

Em pé, exploro, de um lado ao outro, chego perto da beirada, procuro a melhor vista. Todas são bonitas. Procuro o lugar de onde vejo mais vistas e me sento um pouco. Tiro as fotos de praxe. Fico acho que meia hora, pensando na vida. Consigo ver de novo o equilibrista e um pedaço maior de sua corda, uns vinte metros. Ainda assim, não é ela toda. Dá pra ver quase todo o vale, com uma cidade no meio, e a serra deste lado da montanha. Ao fundo, as montanhas longe, na ponta mais distante do vale. Entendo então a expressão “mar de montanhas”. São ondas em tons de verde, lindas. Queria levar isto para minha janela. Este pedaço de pedra para ser meu terraço.

Para a maioria das pessoas que vem aqui, isto é uma parte pequena, apressada do passeio. Aprendi a aproveitar. Não preciso correr para ver tudo e voltar pra casa com fotos de tudo, sem ter visto nada, mais cansado e estressado do que saí. Se não conseguir seguir o roteiro todo de uma vez, volto depois, noutro feriado, noutras férias. Vim aproveitar.

Depois de uma meia hora, resolvo subir mais, até a ponta. A pedra, para subir até la, já se inclina muito. Aqui não tem mais o beiral de tubos. Eu olho e vejo um terceiro trecho de terra, com uma árvore no meio. Dando a volta nela, o caminho é plano e seguro. Vou por la.

A árvore, faz as vezes de portão de castelo. Passando por ela, a terra acaba é a pedra da montanha estreita. Dá para ver os dois lados, os dois vales, os dois braços de serra atravessando os vales, o mar de montanhas, muito mais amplo, a montanha seguinte a esta, mais alta, de pedra também, íngreme, mas com muita vegetação no alto.

Eu não sei quanto tempo levei pra ver tudo. A natureza é como as pessoas. O gostoso é o tempo que dedicado a elas e deixá-las saber o que vemos de bom e o quanto gostamos delas. A gente não pode guardar pra si essas coisas. Não faz sentido isto ser tão bonito e não saber do brilho nos meus olhos quando estou aqui. Não faz sentido meus olhos não brilharem quando estou aqui. E não faz sentido eu não ficar aqui tempo suficiente para que cada curva de montanha saiba disso. O brilho no olho de quem vê a beleza, e não é só a beleza da vista, não é mais de quem olha, é da vista, e ela tem o direito de ficar com ele.

Agora sim, me sento, não muito perto da beirada. Quero me sentir no centro, onde vejo melhor. Rezo, de olhos abertos. Depois de olhos fechados. Descanso um pouco. Pego no bornal o pão, que ontem passei na igreja para benzer, o garrafa térmica e uma fruta. Abro a garrafa térmica, tem chá, ainda está bem quente. Quente demais para beber. Não faz mal, não tenho pressa. Quero ver o sol se por, devagarinho.

Como diria Xuxa: No Lindo Mundo da Imaginação

Tenta imaginar:

Você tem medo de escuro? Eu não gosto do claro, fico muito visível, exposto, não gosto. Vamos dizer que seja do escuro que você não goste. Imagine, tudo escuro. Você não enxerga nada, nada mesmo. Nem as próprias mãos. Não sabe se tem algo à frente.

Frio, ninguém gosta de frio quando está desagasalhado e sozinho. E imagine que você estava, além de no escuro total, no frio, desagasalhada e sozinha.

Em pé, cansada. Você, nesse escuro, não tem idéia de algo onde se escorar.

Imagina só por um instante.

Para completar, começa um barulho que você nunca ouviu antes, não sabe se é de bicho, de máquina, de arma.

Mas só imagina, com cuidado.

Por que aí, você sente um abraço, e ele traz junto um agasalho, e uma voz carinhosa que te diz: “Vem aqui comigo.” E você conhece a voz e gosta, e descansa seu corpo relaxado no abraço. A voz te traz também uma luz que te mostra que não há perigo, mas que é fraca o bastante para iluminar só vocês dois. Vocês ficam ali, iluminados, e o resto do mundo é como se nem existisse mais. Depois de descansar um pouco, vocês começam a andar e ele se lembra de dizer:

“A gente faz assim, quando um fizer errado, o outro dá um abraço, um carinho e a gente procura um jeito de fazer certo… sem vaidade, só calma, paciência e carinho…”

Bolhas de Sabão

009boris2Não consigo imaginar que no mundo haja alguém que não goste de bolinhas de sabão.
Hoje em dia há vários apetrechos, uns equipamentos complicados, para fazê-las. Alguns parecem raquetes, há pistolas eletro-mecânicas, varetas, varas, espadas, liqüidos especiais.
No meu tempo de criança, havia apenas detergente num copo com água e o canudinho que furtávamos de alguma lanchonete mais chique. Canudinhos eram muito preciosos então. Não era comum tê-los em casa, nem mesmo em lanchonetes. Quando não havia copos de vidro usava-se o próprio gargalo da garrafa.
Guardávamos os canudinhos usados por vários dias, até estragarem e não fazerem mais bolhas.
Para a alegria, bastava molhar um pouco uma das pontas na água com detergente, tirar e soprar com cuidado. Treinando um pouco, a bolha saia, sem cor, água não tem cor, mas refletia todas as cores do mundo à sua volta. Virava berlinde voador. 
Eram as bolhas de nosso mundo infantil voando.
Vários sopros não davam certo, tínhamos que tentar algumas vezes para conseguir uma bolha que não estourasse logo. Depois soprávamos e a seguíamos, até estourar no céu, na parede ou num nariz.
Sempre imaginei como seria o mundo visto por dentro delas, colorido, disforme, direito?
Havia de ser bonito.bubble_dream_fairy

FDS

Li, agora de manhã, as coisas que escrevi nos últimos dias.
Tive umas idéias legais, o começo de cada texto ficou bom, mas não gostei da conclusão de nenhum. Me dão impressão de relaxo.
Isso e também os erros de digitação.
Fiquei chateado comigo.
Sensação de cuidar mal do jardim.

01:00

Vejo o relógio, é tarde, mas não queria dormir.
Hoje, ao invés de sonhar, queria sumir, pra sempre.
Fugir pra onde ninguém me conhecesse.
Não quero dormir sem escrever algo.
Preciso.
Às vezes ajuda, às vezes piora, mas preciso. Eu quero, muito.
É um pedaço de mim que eu deixo voar, livre, pra ser feliz.

Complexo de Édipo (e de Jocasta, e de Laio)

O complexo de Édipo não foi ter se apaixonado pela própria mãe. Isso foi coisa do coração, ajudada pelo destino, nisso ninguém manda. Desconhecendo ser ela sua mãe, não podemos condená-los pelo incesto que não sabiam. O assassinato do pai já são outros quinhentos, Édipo não precisava conhecê-lo para saber que é errado matar alguém.

Mesmo assim, o embate com o pai e o casamento com a mãe, eventos fortuitos pela forma como o mito nos é contado, não representam um comportamento deles que possa ser extrapolado.

O verdadeiro complexo de Édipo, e não só dele, também de Jocasta e Laio, foi achar que basta virar as costas ao destino.

Não sei se continuo acreditando no mesmo que antes. Que o destino, ou o que eu chamo de destino funcione do mesmo jeito. Ainda acredito que tudo caminha para que coisas boas aconteçam. Que pode haver alguma conspiração, não sei de quem, mas para que as coisas corretas aconteçam. Ainda carito, sobretudo, que algumas coincidências são muito estranhas e oportunas para serem só coincidências. Nisso ainda acredito, e tenho que acreditar. Seria estranho certas coisas acontecerem sem propósito, acabarem num caminho sem saída.

Destino não se combate, é inútil. Há de deixar seguir, como um rio para o mar. Não adianta remar de volta. Mas não se pode ficar passivo. Se o rio nos leva para o mar, vamos remar para o mar. Ele, o mar, pode ser lindo! Ou não, ainda não o conhecemos. Se por ventura, a gente se engana, ou o destino se engana, e não é isso que tem de acontecer, se não é para o mar que corre o rio, ele mesmo, o destino, a correnteza, vai ajudar a chegar no lugar certo, seja ele qual fôr. Damos uma mãozinha, para que fique o mais certo possível.

Com o remo nas mãos, não fugimos, não há ré. Pegamos a melhor bifurcação, evitamos as pedra, mantemos o equilíbrio. Ainda assim há perigo, há a gravidade, os obstáculos, pedras, galhos, saltos, e a correnteza. Mas há o remo, escolhemos, dentro do possível, o caminho até lá, tentamos evitar os golpes. Esses talvez sejam evitáveis.

O destino talvez seja inevitável, talvez não, mas ainda acredito que haja algo que teima em nos mostrar o caminho certo, conspirará para que coisas boas apareçam no horizonte. Elas aparecem.

Não nós esqueçamos de remar, para elas.

Vazio

Chegou do trabalho. O apartamento vazio. Vazio é modo de falar, havia os móveis, mas nenhum barulho, nenhum movimento, além dos dela. Esse vazio a deprimia ultimamente, logo que, ainda do lado de fora, colocava a chave na fechadura. Nem precisava pegar a maçaneta e abrir a porta. Saber o nada que havia lá dentro já lhe pintava o mundo todo de azul e cinza. Ela que odiava azul! O apartamento era todo descorado em papel de parede de tons de madeira clara, piso de madeira mais escura, móveis pretos, estofados vermelhos, algum detalhe branco, vasos pretos altos com plantas em dois cantos, próximos à janela, para tomarem sol. Não havia azul, nem amarelo. Amarelo por coincidência, nunca notou se gostava ou não. Apenas não achou onde amarelo ficasse bem. Tudo nessa cor lhe parecia feio. Talvez não gostasse. Já azul e cinza, era consciente, não gostava de jeito nenhum, em nenhum tom. Ao decorar o apartamento, sabia disso, nada de azul ou cinza. Lhe deprimiam, lembravam algo que ela queria esquecer.

Assim que entrou, antes mesmo, passando pela porta, já queria sair. O primeiro impulso foi de largar a mochila pesada do notebook e sair. Mas achou que precisava de uma bolsa. Mulher pode trabalhar sem bolsa. Mas à noite, passeando, fica esquisita. Estar sem bolsa, não parece coisa de mulher, não parece feminino. Pegaria uma bolsa, a bolsa, tinha uma só que costumava usar, e outra, velha, demodè, de reserva. Tinha de passar algumas coisas da mochila para ela. O resto, coisas que carrega quando sai, para o caso de algo rolar, já estavam lá, sempre estão.

As roupas do trabalho não são muito femininas. Discretas demais. Ela não gosta de se passar por indecente, ou mesmo chamar atenção, especialmente para seu corpo. Não se sente segura com ele, mesmo quando se sabe desejada. Na adolescência, odiáva-o, tinha vergonha. Hoje não sente vergonha. Mesmo assim, não se sente à vontade. Vestida, depois de várias tentativas, de pôr e tirar algumas peças, sempre acaba achando algo com que se ache atraente. Porém, se mais pele do que devia estar coberta aparece, sente-se ansiosa, com medo de que reparem em algum defeito que ela nem sabe se tem. Não usa de decotes, nada curto ou justo. Mesmo assim, as roupas do trabalho, terninho e calça pretos, a camisa branca, sapatos baixos, lembram-lhe roupa de homem. Não quer sair assim. Vai se trocar, por uma roupa mais de menina.

Mas precisa tomar banho. Pensar em trocar de roupa lembrou-lhe que está suada, nem se percebe. Aliás, vai sair à noite, não pode ir sem tomar banho e se perfumar, escovar os dentes, por uma roupa cheirosa, maquiagem discreta. Além que se aproxime pode sentir o cheiro da transpiração do dia ou de sabe-se lá que cheiro mais o corpo arruma pelo dia.

Entra no banho, não muito quente. Não sabe porque a maioria das mulheres gosta de banho tão quente. O dela é um pouco mais quente que seu corpo. Não é só morno. Isso é quente, mas não é estúpido. Não faz sentido sair do banho vermelha e suando do calor do chuveiro.

Debaixo da água, a tentação de se tocar é grande. Imagina coisas. Mãos, boca, braços, um peito. Não gosta de ser penetrada, gosta todavia dos braços e mãos que a envolvem para isso e da boca que a beija. Mas para ela, se perguntarem, diria que prefere isso tudo sentada no colo, sem penetração. Não precisa dela, não lhe dá prazer e, depois de gozarem assim, os homens parecem perder o interesse pelo resto, o resto que é o que ela gosta. Mas do que gosta mesmo é de uma boca em si. Aceitaria de bom agrado um homem impotente que usasse bem a boca. Um que gostasse disso como ela. A maioria não gosta, finge gostar e faz por obrigação. São os mesmos que lhe cobram as coisas que ela não gosta. Toca-se com uma mão, imagina lábios e língua lentos mas famintos, como ela gosta. Uma boca assim é difícil de encontrar. Involuntariamente, fecha os olhos e faz com a própria boca como gostaria que a boca imaginária, sua mão fizesse. Percebe e não se importa, a brincadeira é boa. Pega o cotovelo com a outra mão e aperta os braços de encontro ao próprio corpo. Abraça a própria barriga assim. Pensa que não precisa disso agora, vai sair ainda. Não precisa sair excitada, não precisa gozar antes. Se a noite fracassar toda, pode ver isso depois. Termina o banho.

Tinha fome mas não ia comer nada. Comer na rua é mais caro, a comida nem sempre agrada. Mas comer algo num café é sempre algo a mais a se fazer. Sai sem planos, hoje é um dia chato, começo de semana. Comer algo pode ser parte do plano. Comer distrai. Que não seja muito, que seja num lugar mais agradável que o apartamento. Ainda assim, não tinha plano. Precisava de mais para fazer, para não vagar simplesmente.

A roupa foi fácil de escolher, não era de arriscar. Pegou um conjunto, jeans, camiseta básica rosa. Não faz frio, gosta de usar roupa de frio. Tênis e acessórios combinando. Esses são mais difíceis de escolher. Deveriam ser só detalhes. Mas o importante são os detalhes. O perfume, sempre o mesmo. Ela adora. Cheira o braço com ele, gostaria de cheirar o próprio pescoço. Tem certeza de que, quem chegar assim perto, e senti-lo em sua pele, ele mais o cheiro o toque da pele, a achará irresistível. Se cheirando, ela se acha.

Saiu. Continuava sem planos, além de matar a fome. As lojas, galerias, shopping, não ajudavam. No queria comprar nada. Andou. Vagou. Acabou vagando. Passou por uns três ou quatro lugares onde achou que podia comer algo. Mas tinha que aproveitar para arrumar algo para fazer, antes que tudo fechasse de vez. Andou.

Andou. Não encontrou nada. Andou, andou. Se cansou de andar e desistiu, já era muito tarde, comércio fechando. Pensou num dos lugares que viu, um café com cara de ponto de encontro, quis voltar e comer lá. No mínimo descansaria, teria algo para comer e gente para olhar. Andou, de volta ao café, andou.

Chegou lá, gostou do lugar mais do que imaginou quando passou. Iluminação fraca, agradável, paredes e descoração em madeira escura, madeiras diferentes, runcionários de preto com avental vermelho, mit. agente sentada conversando, muita gente sozinha, sem barulho, conversavam baixinho e algo na decoração abafava o som. Gostou e entrou.

O garçom perguntou se queria uma mesa, se esperava mais alguém, se tinha companhia, se preferia o balcão, um sofá, uma poltrona. Perguntou muito, sorrindo solicito. Ela simpatizou com ele. Aceitou uma mesa pequena, para dois, iria comer algo, seria mais confortável.

Olhou em torno. Achou curioso, não havia casais. Reparou nos grupos. As interações. Pediu um milk shake de café e uma fatia de bolo de fubá. Achou curioso, segundo o cardápio, o bolo ter queijo na receita. Continuou olhando todos. A cada um, grupo a grupo, mesa a mesa. Compreendeu então que o lugar era GLS, achou engraçado. Não tinha preconceitos, não era sua praia, mas não tinha preconceito, não se sentia incomodada. Era para ela um lugar como qualquer outro. Apenas se decepcionou, não encontraria nenhum homem com quem rolasse algo. Ainda assim poderia encontrar uma boa conversa, fazer um amigo.

Três garotas, duas num sofá, outra numa poltrona, conversavam e uma lhe olhou, depois voltou a conversar com as outras. Isso lhe incomodou. Parece que ela, intrusa, incomodava as três ou, ao menos, àquela que olhou. Invejou-as, eram bonitas, pareciam ter corpos bonitos.

Esperava, não tinha pressa. A mesma menina a olhou de novo. Se incomodou. Perguntou pelo banheiro. O garçom indicou, após o balcão, no fundo, ao lado da geladeira. Levantou-se e foi para o banheiro. A menina foi atrás. Ficou com medo. Quando chegaram ao banheiro, era individual, a menina a ficou olhando como se quisesse algo. Ela, desconcertada, não pensou em algo, entrou, apressada e atrapalhada, correu trancar a porta. Sentou-se na privada chorando, de calça, nem se lembrou de olhar se estava limpa. Demorou. Ninguém bateu à porta, mas ouvia barulho de fora que na sua imaginação eram de impaciência de todos no café. Era como se todos a esperassem pedindo satisfação de porque saiu de casa hoje à noite. Quis se acalmar. Pensando em porquê tinha saído, foi se acalmando aos poucos.

Percebeu que o vazio que sentia não era de um sexo de homem ou de mulher. Era de algo mais profundo e duradouro que qualquer sexo. Podia ser preenchido por qualquer um que lhe quisesse fazer feliz. Perdeu de vez seu preconceito. Abriu a porta ainda com lágrimas escorridas na bochecha.

A menina estava lá ainda, esperando encostada à parede. Talvez ela nem tivesse demorado. Já não tinha mais a cara de quem espera algo. Mas olhou-a, olharam-se, e quando os olhos se cruzaram, a cara voltou. Avançou e beijou-a, gostoso, como gosta, como quer. Demoraram mais no beijo que no banheiro. Ao desgrudarem os lábios, a menina virou-lhe as costas e entrou no banheiro sorrindo, nenhuma palavra, mais nenhum olhar ou expressão.

Ela percebeu que o vazio ainda estava lá, que ele também não tinha sexo nem preconceito. Era só vazio.

Prêmio

Não era nenhum concurso. Era uma redação normal, daquelas que fazíamos uma vez por semana. A professora disse que as notas da redação valeriam um prêmio.

Eu gostava de escrever, de ser elogiado pela professora. Escrevia o que queria sem me preocupar com a nota. Lembro de ter escrito coisas de que gostei, e de tirar zero por desagradar a professora.

As notas, queria-as suficientes, mais que suficientes. Mas não me preocupava se no final do ano meu boletim diria A ou C. Chegava no ponto em que tinha nota para passar, nem fazia mais as provas. Olhando meu boletim, dava a impressão de passar por pouco.

Lembro da sexta série. Em setembro, eu já tinha notas para passar, a professora, maldita seja, para mostrar poder, me deixou de recuperação. Não gostou do tema de minha última redação do ano. Escrito algo de ruim sobre o Partido de fé dela… Teimoso, fiz outra redação sobe o mesmo tema e o conselho da escola a fez me aprovar. Eu não ligava para notas, mas procurava não precisar ligar para elas. Os outros professores reconheciam isso e não a deixaram continuar a demonstração de prepotência.

De prêmios e de me expor também não gostava. Mas aquilo que a professora propôs não era uma competição por prêmios. Nem era mais a sexta série. Acho que era a sétima. A professora era já outra. Aquilo era para mim uma competição pela admiração da professora que eu estimava muito. Em todas as aulas de redação, ela perdia uns cinco ou dez minutos sentada ao meu lado. Puxava uma cadeira e lia o que eu estava escrevendo. Corrigia a gramática a pronto. Às vezes, eu não queria lhe aceder às correções. Porque, às vezes, o correto não é o melhor. Ela dizia que teria que me baixar a nota por isso, mas que gostava que eu fizesse a meu jeito. Eu me sentia artista. Era um respeito que não podia haver nas aulas de outros professores.

A redação, dessa vez, redigi-a com muito mais cuidado que o habitual. Quando percebi que ela não viria à minha mesa, como eu já havia me acostumado, li, reli, apaguei e refiz vários pedaços, várias vezes. Espremi a letra, criei novas linhas, para que coubessem as idéias que me vinham atrasadas. Passei à limpo, e o limpo ficou sujo porque também o corrigia.

Deve ter dado uma página e meia. Na época, eu não escrevia coisas longas. Preguiça de escrever à mão. Escrevo devagar, aperto muito o lápis, dói-me logo a mão e o pulso. Essa página e meia era uma das maiores que eu já tinha escrito. Ficou grande de tanto revisitá-la.

Ao fim da aula, a professora não passou nas mesas como sempre, recolhendo as redações, lendo a minha — a minha mesa era a primeira, junto à porta — enquanto andava recolhendo as dos outros.

Levamos nossas folhas para uma pilha em sua mesa. Uma pilha comum, impessoal. Senti-me tratado igual aos outros, isso não feriu meu orgulho, mas fez falta a distinção. Percebi que a professora queria rir do suspense, quando deixei a minha folha na pilha. Intrigado, voltei à minha mesa e tagarelei até a próxima aula, o próximo professor.

Na aula seguinte, ela trouxe as redações corrigidas. Entregou algumas, chamando os alunos pelos nome, sem citar notas, deviam ser as mais baixas, e eram, pelos alunos que as receberam sabíamos que eram. Eles não ligavam. Se divertiam em tirar notas baixas. Como a maior parte da escola, achavam divertido tirar notas baixas e mesmo assim serem aprovados. Não se pode reprovar um aluno, afeta a avaliação da escola.

Quando sobravam poucas a serem devolvidas, passou a entregá-las anunciando a nota: oito, oito e meio, nove. Tirei um nove. Acho que o único nove da sala. Não ouve nove e meio, mas três meninas tiraram dez. As três foram perfiladas à frente da classe, ganharam palmas e chocolate. Aplaudi muito, orgulho levemente decepcionado, mas grato por não ser eu ali à frente. Ri delas envergonhadas.

A bagunça se instalou, a professora não ligou. Deixou a barulheira e o falatório tomarem conta da sala. Aproveitou para chamar-me à sua mesa. Recebi um papel enrolado cheirando a álcool. Impossível não reconhecer o cheiro do papel mimeografado. Era uma oração. Enrolada. Dentro havia também um bombom grampeado, ouro branco, ela sabia que eu gosto, e algumas linhas a caneta vermelha. Alunos só usavam azul e preta, professores usavam vermelha, era a regra da época. As linhas escritas pela professora me davam parabéns por ter entregue a redação de que ela mais gostou e recomendavam que continuasse assim.

Ninguém notou essa pequena cerimônia, discreta. Notaram sim o abraço que lhe dei e o beijo que recebi no rosto, e esse depois me valeu várias gozações.

São coisas assim simples que fazem uma pessoa ser especial e deixar tanta saudade na vida de alguém.

Zíper

 

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Acordei pela hora do almoço. À noite bebi muito, muito mesmo. Bem mais que o usual, que já é muito. As vezes as pessoas bebem para esquecer o que lhes deixa triste. Há os que bebem por costume, sem razão, ou talvez estejam constantemente tristes. Eu tenho o costume de beber meu uísque antes de dormir. Não em casa, sozinho. Quem bebe sozinho é alcoólatra. Bebo no clube, com os amigos. Clube é como chamamos o bar. Bar mesmo, não boteco. É o bar de um hotel perto de casa. Passo lá umas quatro vezes por semana, quando não tenho nada melhor para fazer. Às vezes passo também depois de fazer algo melhor. Outras vezes não passo, e não me faz falta. Lá, vão os tios, nós tios, que não têm com quem jogar vídeo-game à noite, ver novela, irmão cinema, essas coisas inúteis a que nós acostumamos por conveniência. Ao invés disso, vamos ao bar, ficamos sentados, em poltronas isoladas, por horas, com o copo na mão, olhando quem passa. Às vezes até conversamos, mas o assunto tem de ser muito bom e oportuno. O copo nunca pode chegar à metade. Corre-se o risco do garçom enchê-lo de novo. Ali não é lugar para se ficar bêbado. Um copo só, e beber sempre menos da metade. Quem vai ali beber, não vai para beber. Vai para ficar ali e olhar, em vez de ficar em casa, e não te o que olhar.

Ontem fiz algo diferente. Não sei se foi a bebida só ou algo mais forte, ou só algo diferente. Talvez tenham me dado algo. Alguma daquelas coisas que eu nunca quis experimentar. Talvez eu tenha pedido alguma dessas coisas ou feito alguma outra coisa. Dormi muito. Ou melhor, dormi até tarde. Não me lembro de quando me deitei. Podem ter sido só cinco, vinte minutos de sono e agora não me lembro. Não me lembro de nada depois de ter entrado pela porta giratória do hotel.

Lembro de ter ido para o hotel angustiado, eu sei bem com o quê. Não podia ter companhia para desabafar, não podia. Só podia contar a meus pensamentos e, mesmo assim, só quando já tivesse me preparado com algumas bicadas de uísque. As pessoas que iam e vinham, o faziam a calhar. Eram os parceiros imaginários ideais, desconhecidos, para a conversa que eu fantasiaria em minha cabeça, sentado ali, fazendo cara de homem maduro que não precisa de ninguém e a ninguém deve nada.

Lembro de fazer força para que a porta começasse a girar. Ela é pesada, é preciso esforço para anular a inércia, mas depois disso ela roda fácil, sozinha e pesada por um tempo. Para pará-la antes sim, é que se precisa de esforço de novo. Quando ela começou a girar, fui por ela, desequilibrado, mas em pé, andando. Desequilibrar-se é conseqüência do empurrão, todos que a empurram se desequilibram, mas a própria mão apoiada nela, empurrando, os apóia e sustenta para que não caiam. Isso não era novidade para mim. Novidade foi, ao ir pela porta, sentir-me como que abraçado por ela. Como se dentro dela existisse algo que me envolvesse. Algo que me levasse a outro mundo. O furacão da Dorothy talvez. Talvez aquele furacão que a levou do Kansas para Oz fosse o de uma porta-giratória rolando. Uma porta como a do hotel. Talvez o bar do hotel seja um castelo de Oz. Onde estaria a estrada e os tijolos amarelos?

Depois se estar na porta-giratória, vem o esquecimento. Total. Fui pela porta, à noite, e acordei, na hora do almoço. Como se fosse um filme editado, sem nada entre as duas cenas, além do subentendido. O que pode estar subentendido nisso? Acho que só quem realmente conhece minha história pode saber. Pelo jeito, eu mesmo não conheço. Não encontro nada entre essas linhas. Esqueci-me. De tudo. É de coisas ruins que nos esquecemos? Ou das constrangedoras e das traumáticas? Acho mais útil que se esqueçam as constrangedoras. Elas o são mesmo a cada vez que nos lembramos delas. Traumas e coisas ruins nos fazem crescer. Talvez mais as coisas ruins do que os traumas. É questão de como nós lembramos, de como pensamos nisso, de como falamos, e para quem. Talvez, sobretudo, de quem temos para conversar.

Agora que acordei, este pedaço de minha memória que falta, não me faz falta. Intriga-me, é curioso, mas não me faz a mínima falta. Pelo contrário. Embora saiba que dormi muito, que suspeite ter sido, ou ter-me, dopado, sinto-me, e isso é involuntário, sinto-me muito bem. Leve, realizado,livre. Algum peso tirei de cima de mim. Qual peso? Não me lembro, mas não serei eu a me punir por não saber o motivo de meu bem-estar. Aproveito-o. Aproveitarei-o, por quanto durar. Que seja eterno, que só melhore.

Tenho os olhos abertos já há alguns minutos, pensando nisso. Só agora me dou conta, este quarto não é o meu. Não. Não estou noutra casa. Estou em casa, em meu quarto, em minha cama. Mas este meu quarto e está minha cama não são os meus. E mesmo assim, sei que são os meus.

Há-de me perdoar a confusão que talvez lhe cause, ou lhe tente, mas imagine como é partimos também, ter a consciência de algo, mas não conhecê-lo. E suspeitar, saber, que o ignorado que aconteceu é o motivo. A confusão que causo é a confusão em que estou. Espero causar também o bem estar que sinto.

A cama em que deito, a roupa de cama, a decoração do quarto, não se parecem com nada em que me deitaria. Mas me deitei e são meus, eu sei, não sei como. Sei também que há no banheiro alguém com quem nao me deitaria, mas deitei. Fiz na noite de ontem, coisas que nunca faria.

Levanto-me. Vou à janela. Esta é minha janela, mas não é a vista que tenho. Pelo contrário, muito melhor, é a vista que sempre quis ter. Quando comprei este apartamento, procurava algo à beira do lago, com vista para o lago, e para a serra ao fundo. Não encontrei. Não há nada assim por aqui. A cidade me cerca e cobre tudo. Não poderia encontrar. Mas cá está. A vista que sempre quis. O lago, a serra, lá embaixo o passeio, o pôr-do-sol ao meio dia. Lá está tudo, real e perfeito. Real. Perfeito. Como eu sempre quis. Passo minutos olhando, não acredito. Belisco-me. É real. Ou não sou eu real? É real.

O quarto, sei que é o meu. Não vejo o meu, nada está igual. Nada é como era, como o decorei, como o deixei. Mas é o meu. Reconheço-o. É como deveria ser. Tenho medo. É tudo muito diferente. Só pode ser armadilha. Se algo é muito perfeito, muito como quero, só pode ser armadilha.

Por um instante, acredito neste bem estar, aceito-o. E ponho meu destino nas mais do destino. O que quer que tenha acontecido. O que quer que aconteça. Estou gostando, não vou lutar contra. Por muito tempo lutei. Agora aceito e me entrego.

O chuveiro já está desligado. Logo confirmarei, diante de meus olhos, quem lá não deveria estar, mas está. Está, e estou eu muito feliz por isso. Ganhei o mundo. Ganhei meu mundo. Finalmente, meu mundo meu.

Ponho-me em frente à porta do banheiro, esperando, pronto para o abraço, quente ou frio, segundo a temperatura do banho. Ninguém mais manda em minha vida, não serei eu a mandar no banho de ninguém. Fico, aqui à porta do banheiro, esperando o abraço e o beijo. E tudo o mais, feliz. Leve.

Esta espera é um sonho. E é esperando assim que olho para o lado e encontro o espelho. Meu velho amigo espelho está lá, o mesmo. Nele, não estou eu. Estou, mas não sou mais eu. Reconheço-me, mas sou já outra pessoa. Alguém — eu? — despiu-me desta mentira que me fantasiava. Este não sou eu. Mas sou mais eu. Estou aqui. Finalmente.

Uma Pétala na Janela

Tenho saudades de ver minha borboleta à janela. Tenho descuidado das flores, sei bem. Borboletas gostam de cuidados. Há-de se ter muito cuidado com elas. E também com as flores que visitam. Essas fadinhas bonitas e delicadas que voam pelas flores não merecem menos que todo cuidado e carinho.

Ando triste de não a ver. Fico esperando-a, imaginando o que quero falar, contar. Não sei se tenho muito a lhe contar, de novidades. Mas quando a vejo, o assunto aparece, brota, como flores. Deve ser engraçado, mas bonito, para quem olha, ver um homenzarrão, tal ogro – o Shrek? — sorrir embevecido com o pouso de sua fada borboleta.

Descuido meu, a janela empenou e não a consertei a tempo. Julguei que ela não viria. A hora não era a habitual. Com a janela fechada, empenada, fiquei ali ao lado, acordado, pensando na saudade, mas sem ver o jardim, nem a janela. Pensava na música que não tinha coragem, mas que queria que ela me ouvisse cantar.

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Ela pousou, tarde da noite. A janela ainda empenada, eu não a vi. Soube depois, só no dia seguinte. Não sei se passou pelo jardim, mas veio mais perto, à minha janela, bateu. Eu, descuidado, não estava lá. Deixou-me uma pétala de rosa de uma cor linda, foi como um pequeno “Oi!” Quando a encontrei, arrancou-me de imediato um sorriso. Tinham que ver o sorriso carinhoso, e saudoso, de que fui capaz. Ela lembrou-se de mim. Eu nunca me esqueço dela.

Estou agora pensando se ela sabe com que felicidade eu soube da visita, como lamentei não tê-la recebido, e quanto carinho, sincero em meu coração, sua pétala, seu “Oi!”, iluminou.

Vou hoje dormir pensando nisso, ainda sorrindo… Dá-me vontade de plantar flores ainda toda a noite… E esperar se ela as vem olhar.