Steppeulven (Itsi Bitsi)

2015 - Steppeulven Depois de ver 2 Nights Till Morning, eu estava impressionado ainda. Não queria ver nenhum filme triste. Não queria ficar triste. É engraçado, sempre achei que eu gostasse mais de comédia. A gente vai ao cinema para se distrair, esquecer os problemas, não para criar mais. Mas, cada vez mais, eu venho percebendo que os filmes dos quais mais gosto, e nos quais mais presto atenção, são os filmes tensos, principalmente os que me fazem chorar.

Este aqui eu já tinha escolhido cedo, quando cheguei ao shopping. Pareci ser a história de alguns hippies drogados que passavam a vida na putaria. Não parecia ser nem uma comédia rasgada, nem um drama pesado. Nem um, nem outro. Peguei um capuccino, daqueles bem grandões, e me sentei na segunda fila para assistir. Numa poltrona de canto, para não ter nenhum barulhento por perto me enchendo o saco.

The Freewheelin' (Bob Dylan)O filme começa estranho, drogas, abelhas, o cara que topa dividir a namorada com o outro (por medo de ficar sem ela e por teimosia das bobagens de hippie em que dizia acreditar). Tudo regado a Bob Dylan e algumas outras coisas do tipo. Principalmente Bob Dylan. Tem um disco dele que é tocado acho que quase inteiro, aos pedaços.

Só conforme as personagens vão crescendo, seu comportamento parece amadurecer e começa a fazer sentido. É o enredo também. E é já depois da metade, bem depois da metade, que eu percebi que é uma história real, por mais cheirada que seja, de um famoso rockeiro dinamarquês. O cara era poeta e resolve se meter com música, convida um amigo músico a formarem uma banda, ele como letrista, mas acaba se descobrindo um bom vocalista, para conseguir que seus poemas continuem chegando à mina de quem ele gosta.

Hip (Steppeulvene)Eu tenho medo de ter perdido alguma parte muito boa. Fiquei me segurando ao máximo, mas tive de sair no fim do filme para ir ao banheiro. Essas sessões emendadas, regados a café e cerveja, me matam. Voltei e terminei o filme em pé ao lado da porta e da menina que recolhe as papeletas com as notas.

A história, eu achei bonita, principalmente quando ele a ajuda à força e quando começa a cantar, cada dia mais desesperado por vê-la. Começo a perceber que, por mais que espere finais felizes, os frustrantes são os mais reais.

 

Dirk Ohm – Illusjonisten som forsvant

Dirk Ohm – O Desaparecimento do Ilusionista

It’s all about the mind.

O alemão Dirk Ohm, ilusionista, em viagem pelo interior da Noruega, desapareceu do hotel e nunca mais deu notícias. Dirk Ohm existiu de verdade e sumiu de verdade, em fevereiro de 2013.

Foi a partir daí que o roteiro deste filme foi feito. Claro que, como o sujeito sumiu sem deixar pista nenhuma, ninguém nem sabe se ele está morto, apesar do filme ser dedicado à sua memória. Não se sabe o que aconteceu. Ha muitas suposições. A história do filme não é então a que aconteceu de verdade. Nem o roteirista fez um documentário ou uma reconstituição do que se sabe antes do sumiço. Ele é uma fantasia criada sobre o desaparecimento, o inverso, o que se conhece da personalidade do ilusionista e sobre ele ser um ilusionista.

Eu sempre gostei de mágicos. Nem sei se posso chamá-lo de mágico. Não sou assim um iniciado do meio para me importar em saber a diferença entre mágicos, ilusionistas, escapistas, aqueles caras que só fazem truques com cartas e os outros. Para mim são todos mágicos. Podem se ofender à vontade. Para mim, vocês são todos mágicos. E acho que esse é um modo muito mais legal de se pensar.

Gosto muito de circo, só por causa do mágico. Aquelas coisas de malabaristas, equilibristas, trapezistas e animais amestrados, eu acho muito chatas. Ainda assim, não gostei quando o governo de São Paulo proibiu as apresentações de animais nos circos. Por causa disso, os circos começaram a rarear por aqui. E, com eles, rarearam também os mágicos.

Apesar de gostar, eu nunca quis aprender mágicas para ser um. Gosto de ver e imaginar os quadros que pintam. São ótimas personagens para histórias.

People think they like you when you’re gone.

Imagine um sujeito que não é nada de especial, mas te surpreende volta-e-meia, com algo que sai de sua orelha, que brota da mão, que encontra em meio a seus cabelos. O sujeito que parece saber o que você está pensando sem que você nem ao menos esteja pensando.

Ele chega do nada a uma lanchonete. Se senta, pede um milk-shake de cenoura e, diante da recusa do garçon, começa a aprontar. Vai até uma criança que está chorando e, com uma das mãos, recolhe o choro, embola, guarda no bolso. Com a outra mão, acende uma chama, um fogo-fátuo. Joga-a no bolso, de onde sai uma explosão luminosa. Enfia então a primeira mão de novo no bolso e tira de lá uma risada, para gargalhada da criança.

Depois, vai até um casal que está brigando. Passa o braço entre os dois e ali aparece um espelho. Dupla-face. Cada um, agora, vê só a si mesmo, refletido. Ele faz sinal para que se aproximem do espelho e, quando já estão achando chato verem só os reflexos, o espelho some e eles percebem que estão se enxergando um nos olhos do outro. A birra some e aparece em seus rostos sorriso constrangidos pelo flagrante de criancice da briga boba.

Pula o balcão. Tira da fruteira uma banana. Descasca-a e, dentro, há uma cenoura. Coloca-a na batedeira do milk-shake e liga. Pára um pouco para experimentar e faz careta. Vai até a criança que chorava. Olha sua orelha. Dela, puxa um talo de funcho. A criança tenta pegar. Ele quebra ao meio e lhe dá um pedaço. A criança experimenta, estranha o gosto forte e cospe rindo. Ele joga o outro pedaço na batedeira. Cinco segundos e está pronto. Arranca a touca da cabeça de um dos funcionários e joga tudo dentro. Alguém grita um palavrão. E de dentro da touca sai um coelho arrotando a cenoura e funcho.

Ele então se senta de novo. Pede, de novo, o milk-shake. E, enquanto todos o olham comentando “o que será que está acontecendo?”, ele já não está mais lá. Um barulho no balcão chama a atenção. Todos se viram.

É o coelho, todo lambuzado de amarelo, brincando com a bisnaga da mostarda.

Adorei este filme!

Love is the perfect illusion.

Dirk Ohm – Illusjonisten som forsvant (2015) – trailer

pensamentos ao léu #2537

Eu pego o caderno e o lápis correndo. Também correndo procuro, sem prestar muita atenção ao caminho, por um lugar para ficar sozinho. Não acho, nem tenho ideia. Dou umas duas voltas em torno de mim mesmo antes de paralisar pelo inútil do desespero.

Aqui não tem o parapeito da minha janela. Há janelas sim, mas com grades. Aquelas grades para evitar de criança cair, mas que também impedem o adulto de se debruçar para fora e respirar ar fresco. Parecem frágeis demais essas grades para o peso de uma criança. Mas, para o nariz e os olhos de um adulto, intransponíveis.

Tampouco minhas árvores para subir onde os outros tenham medo e ignorar-lhes os pitos e ameaças. Árvores fazem muita falta. Gosto das pitangueiras. Mas para fugir do mundo as mexeriqueiras são as melhores. Quando dá sede, pega uma fruta, chupa o caldo. Dá pra passar o dia todo escondido na copa de uma.

Penso em fugir para o terraço, mas também não tenho um. Como seria bom fugir para o terraço! Sentar-me escondido no canto, longe da vista da janela para pensarem que sumi. Como quando eu era menor e subia na laje da garagem, onde ninguém tinha desculpa de aparecer de repente para encher o saco fingindo que estava só de passagem. Laje não é passagem, quem aparece lá não dá para esconder que foi só para encher o saco.

Percebi que o lápis estava sem ponta. Peguei o canivete na mochila – que agora não era hora de por-me a descobrir onde havia um apontador, esses apontadores vagabundos de hoje – e cheguei à cozinha para fazer-lhe ponta. Lasquei-lhe com força, sem jeito nenhum, como se fosse psicopata de filme a cortar fora os membros de alguém. Dei de cara dois talhos fortes. O primeiro arrancou ao lápis uma lasca comprida, que, desajeitado, enfiei-lhe a lâmina mito longe da ponta e ainda tive de fazer força demais. Saiu aquela tripa que era quase uma lombriga, expondo parte da grafite que devia ter ficado escondida. O segundo, tentei não pegar tão longe da ponta, peguei também errado, de atravessado, como se fosse cortar uma tora do lápis a machado. A lâmina espirrou, quebrou a grafite exposta, lascou a madeira e quase me pegou o dedo. Tive nos talhos seguintes mais cuidado. Não de medo de machucar-me, mas de ver que errando assim, demoraria mais a acabar e fugir dali. Para consertar os erros, desperdicei uns cinco centímetros do lápis. Mas ao acabar, ele estava com a ponta comprida, igual quando minha mãe apontava seus lápis de escrever em pano antes de costurar, feito ponta de lança de portão.

Eu fechei o canivete e o de volta na mochila. Por falta de onde me meter, fui ao banheiro pensar. Sentado na privada, diz o folclore urbano, é o melhor lugar para pensar. Abri o caderno no colo e não tive ideia de por onde começar. Alguns rascunhos e notas eu já tinha mas nada que eu quisesse mexer agora. Impaciente, não quero desperdiçar as notas que tenho para terminar porque não quero demorar. Quero desembuchar logo algo. Considero escrever alguma coisa simples, as casas de sempre. Estou de saco cheio das coisas de sempre.

Encosto o lápis no papel para forçar-me a começar algo. A ponta do grafite estão tão afiada que eu acho que vai se esfarelar quando a apartar de encontro ao papel. Sempre apertei com força lápis e caneta de encontro ao papel. As professoras me chamavam a atenção para isso. Demorava a escrever e cansava muito o pulso na escola. Ficava muito tempo com ele dolorido depois. Minhas canetas, era comum quebrarem antes de acabar a tinta. Os lápis estavam sempre de ponta cega precisando apontar.

Tenho um calombo no pulso, por sobe ele passa aquela veia onde procuramos a pulsação. Esse calombo é o que mais me doía na escola depois de escrever muito. Segurando o caderno com a esquerda e o lápis com a direita. Foi o calombo da esquerda que eu vi. Não era esse o que doía, eu escrevo com a outra mão. Olhei o da direita e depois voltei ao da esquerda. Pareciam iguais. Passei um dedo sobre ele, para sentir se parecia inchado, inflamado ou coisa assim. Burro eu, se escrevia com a outra mão, este também não podia ter tal problema. Senti-o macio, como pelica, frágil.

Lembrei-me da ponta do lápis, bem afiada encostada de novo no caderno e de tantas vezes que tentei sentir-me o pulso. E das poucas em que consegui. E foi quando encontrei algo para pôr no papel. Levantei o lápis, segurei-o como pincel. Com o polegar ao seu largo fazendo força, nem precisei de muita, enfiei-lhe a ponta na veia do pulso.

Sentindo a pressão cair, a cabeça leve, tonteei, acho que para desmaiar, enquanto algumas gotas de sangue pingavam no papel.