Senna

 

Eu me lembro de quando ele morreu.
Na época, era impossível não me sentir culpado. Acho que todos se sentiram. quem não, tenho certeza, deveria.
Acompanhei boa parte da carreira dele, já antes da F1. O que fascinava a todos era a sua agressividade irresponsável, inconseqüente, no melhor estilo Gilles Villeneuve (o maluco-mor), que aliás, como ele, também morreu na pista (em Zolder, 82).
O vídeo de seu acidente está no youtube, não vou descrever.
O corpo levou uns quatro dias para chegar a São Paulo, eu quis ir às homenagens, mas não podia, tinha alguma prova importante na faculdade. Ao menos poderia tentar ver um pouco, pois o caminho do cortejo incluía a avenida em frente à faculdade, no caminho do aeroporto à Assembléia. Mas chegando à faculdade de manhãzinha, antes das sete, descobri que não haveria mais prova, feriado nacional pelo luto.
Fiquei ali pela praça, em frente à faculdade esperando o cortejo, no início sozinho, depois espremido em meio à multidão. Alguns colegas de faculdade me encontraram e se juntaram ao aperto.
Devia ser entre nove e dez da manhã quando ele chegou, batedores, carros da polícia federal, cavalaria, caminhão dos bombeiros, a urna em cima coberta por uma bandeira.
As, pessoas civilizadamente se conservavam na calçada e aplaudiam, acenavam, choravam. O barulho era inevitável, mas o repeito e acato, notáveis.
Passou rápido. Foi instintivo correr atrás, mais algumas pessoas correram também.
E fui correndo, em direção ao centro da cidade, para depois seguir à Assembléia. Por bem treinado que eu fosse na época, não consegui agüentar por mais que dois ou três quilômetros o ritmo do caminhão vermelho, logo ele se distanciou. A multidão que corria junto se dispersava. Logo no primeiro túnel já não havia mais ninguém. Eu continuei correndo, já não pelo mesmo caminho que o cortejo, fui pelas calçadas, meio-fio, não sabia o caminho direito, percebi, dei várias voltas até chegar. Corri uns seis, oito, dez quilômetros, não sei, nunca conferi, acho que foi uma hora ou pouco mais.
Fiquei uns minutos olhando o prédio por fora. Muita gente chegou antes, nunca vi tamanha fila. Um homem de camisa amarela e paletó verde chorava sentado na guia como se tivesse perdido o próprio filho, não tinha coordenação para passar o lenço nos olhos ou no nariz, e se desesperava com isso.
“Está todo mundo arrasado!” Quem observou foi um dos meus colegas de faculdade. Quando se separaram de mim (ou eu deles) continuaram de metrô. Eu que fui a pé ainda cheguei um pouco antes.
Continuamos olhando. Tive vontade de conversar com o homem do paletó verde. Mas falar o quê? Olhamos por uma meia hora o prédio, a fila, os carros de figurões furando fila. O homem do paletó verde se levantou e foi em direção à fila, não conseguia andar mais que alguns passos por minutos, tamanho o nervosismo.
Eu e meus colegas então nos viramos e começamos a andar embora, pra casa, esse não era dia pras nossas farras de estudantes, mas não precisávamos pegar horas de fila pra entrar na estatística dos que passaram seus três segundos na frente da urna.
Do metrô, cada um seguiu seu caminho. Acho que foi a primeira vez que nos despedimos como adultos, sem brincadeiras bobas ou piadas infames.
Ao chegar em casa, recolhi todos os meus posteres da parede, dobrei e coloquei numa caixa. Ficaram ali guardados uns dez anos, até que minha mãe resolveu correr com ela para abrir espaço.
Acho que, depois disso, eu raras vezes acordei cedo num domingo.

 

Um comentário em “Senna

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