Anedota de um Sábado à Noite

IMG_3842The answer my friend is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind.
— Bob Dylan, in Blowin’ in the Wind

 

Eu não entendo nada da cultura indiana, de budismo ou coisa do tipo, então essa história seria mais ou menos assim, com gente que, como eu, também não entende disso.

 

A menina viu na prateleira, no meio das massinhas de modelar, um kit de areia – areia de modelar! – e, ora, como sói acontecer com crianças ao verem algo diferente (ou mesmo igual), resolveu que era hora de ganhar alguma coisa, aquela coisa: “Pai, pai, pai, eu quero!”

O pai nunca tinha visto aquilo antes e achou curioso. Aqueles sentimentos de culpa comuns a todos os pais não tiveram que se esforçar muito para convencê-lo a comprar, ele estava mesmo curioso. Nem se lembrou das reportagens que já vira sobre esculturas na areia em praias, daquele famoso quadro de Anchieta escrevendo a oração à Virgem Maria na areia de Bertioga, nem mesmo dos castelos que nunca consegui fazer quando era pequeno (e que sempre viravam montanhas ao lado de um buraco.

Chegaram em casa com a sacola da loja. Casa é modo de falar, um estúdio, razoavelmente amplo, imóvel antigo ainda, de um tempo em que ainda não haviam conseguido otimizar a proporção espaço x morador a níveis economicamente contemporâneos. O dever vem antes: “Primeiro banho e jantar”.

Ela foi pro banho e ele, pai mal-mandado e mal-criado!, para a cozinha… cozinha também modo de falar, num estúdio, sem divisórias, cozinha é a quina onde ficam as coisas de cozinha, mas vá lá, foi para esse canto preparar o jantar. Que mal exemplo! Mexer na comida com a poeira da rua no corpo. Ele já chamou-a a atenção sobre isso, devia a menina também, chamar-lhe.

Ficou ali um tempo entretido com uns legumes para caramelar na manteiga, peixe grelhado e limonada.

Quando terminou e se virou para chamá-la – outro mal-exemplo, ia jantar antes do banho, ralha com ele, menina! – ela estava debruçada na mesa em frente à janela, dois pacotinhos de areia colorida rasgados, areia espalhada, um encarte cheio de desenhos nas mãos, os olhos quase encostados no encarte: “Acenda a luz e ponha os óculos para ler isso”. Viu a janela aberta e logo pensou na bagunça de areia pelo chão se ventasse. Imagina o transtorno se tiver que varrer o chão pela segunda vez no mês! Esticou o braço, todo torcido e debruçado sobre a mesa, e fechou o vidro.

O cabelo dela pingava um pouco, ele sempre precisava terminar de secá-lo quando ela saia do banho. Tocou-se do pior: “Você acaba de sair do banho e já está se sujando, sujando as mãos, o pijama, com areia? Lava as mãos, vem comer primeiro.” Nem teve tempo dela reagir, já pensou pior: “Escuta, não é melhor nós fazermos isso amanhã? É sábado. E agora é tarde, você já tomou banho, vai jantar…”

Se isso já não é argumento para uma mulher adulta, imagine para uma criança com brinquedo novo: “Ah!” Um ah nesse tom é muito mais argumentativo que qualquer lógica de pai desorganizado e estraga-festa. Por isso, mais o cansaço, a vontade de vê-la feliz… e ela sabia disso e, por isso mesmo, abusava, não desta vez, que estava coberta de razão, mas, quando queria, quando precisava, abusava deliberada e conscientemente… cedeu: “Dez minutos”, “Ah! Nem dá pra começar”, “Quinze”.

“Vamos fazer o leão? O lenhador? A princesa… Isto aqui, isto aqui, o que é? Eu quero.” Ela olhava uma seção do folheto com exemplos de esculturas de animais e personagens. O pai não disse isso abertamente, mas seria desastroso para ele. Imagina! Nem com lápis! Desde criança, nunca conseguiu desenhar coisa alguma zoo ou antropo que ficasse mórfica. O resultado era sempre dismórfico, total! Olhou as ferramentinhas que acompanhavam o kit. Eram de tamanho muito pouco ergonômico para um adulto. Percebeu que ia se desesperar. Mas precisava guiar ao invés de desencorajar. Até porque, gostava que ela, com treino, conseguisse ser melhor que ele e fazer o que ele nunca conseguiu.

Passou os olhos estrategicamente pelo folheto e, vendo uma seção abstrata sugeriu: “Que tal um desses?” Só aí olhou o título da seção: Mandalas. A menina não gostou de ser desprestigiada em sua busca pela fantasia do mundo das fábulas, mas quando ia dizer algo, o pai foi mais rápido: “Essas mandalas, você pode fazer como quiser, do jeito que quiser, que estarão certas.”

De bate e pronto, ela o testo: “Posso fazer tudo roxo?” Ele, cara-de-pau, não suportava mais roxo, tudo o que ela tinha, fazia ou queria era roxo: “Claro! Como você quiser”

O roxo não era um dos saquinhos que estavam rasgados sobre a mesa já. Havia ali o amarelo e um carnação, ocre dizia no saquinho. Pelo folheto, podia ser usado para imitar a pele: “Isso é se chama carnação, essa cor, cada uma que inventam! Sempre se chamou carnação.” Procurou o saquinho do roxo, abriu so um pedaço e amontoou. Amontoou também o amarelo e o carnação.

Ela até mudou de lugar no banco. Para estabelecer seu domínio sobre o roxo.

Até aí nenhum dos dois percebeu, mas os quinze minutos já tinham virado mais de quarenta.

O pai começou tentando mandar na brincadeira, pegou um pouquinho de areia e, com uma linha bem fininha, delimitou um círculo que seria o contorno da mandala. A menina precisava retomar as rédeas da brincadeira, apontou um dos exemplos do folheto: “Quero esta”, mas, curiosidade de criança quando viu o que o pai fazia: “Por que você está usando esse marrom pra isso?” Orgulho de pai sabichão ofendido: “É carnação, já disse que o nome é carnação!” A menina, com o saquinho da areia na mão: “Aqui está escrito oooocre, ocre.” Foi difícil de ler a palavra que nunca tinha visto. E mais ainda pro pai deixar de lado. Esquece como vão chamar, a cor da areia não vai mudar por isso: “Vamos chamar de caramelo?”, “Por que?” Tá bom, aí sim ele desistiu, melhor nem responder, deixa ela chamar como quiser: “Vai, pega tua areia, é roxo, né? Começa a desenhar, assim, olha.”

E começou ele a desenhar com cuidado, e, diga-se de passagem, sem habilidade usando a areia, para mostrar a ela como fazer. Justiça seja feita, ele mesmo descobriu que sua inabilidade não era tão grande como imaginava. E ela o imitou, e ele foi relaxando, e foi desenhando e mostrando. E ela foi, com seu roxo, floreando e pintando e desmoronando. Em momento, discutiam e brigavam como crianças, ora! um atrapalhava o outro: “Você cobriu de roxo neste sino que eu desenhei.” “Você desmontou aqui.” “Não, pelo amor de D’us, não espirra agora!”

O pai, quando sua vista cansou, piscou os olhos, estranhou a iluminação fraca que distorcia algumas cores, percebeu que precisava urinar, olhou o relógio, instintivo: “Já era pra estarmos dormindo há muito tempo! Nem jantamos!” Haviam se passado mais de três horas. Percebeu o cheiro do peixe frio, o cheiro deu-lhe uma volta no estômago, não dava mais para comer aquilo: “Eu nem tirei o peixe da frigideira!”

A menina, ainda brincando, nem ligava. Aliás, talvez não ligasse se olhasse ou ouvisse o pai, mas estava totalmente desligada. O pai, o pai falava sozinho: “Os legumes também estão cheirando a manteiga fria. Vamos comer torrada com requeijão? Não, tem limonada, não combina. Deixa ver.” Ela, se escutasse deixaria.

“É tarde, vamos comer sardinhas de lata?” Teve que cutucá-la: “Ei, escutou? Vamos comer sardinhas de lata.” “Ah.” E este Ah já foi diferente, estava já cansado. Ela deve também ter estranhado a luz e acordado para o próprio sono.

A seus turnos, foram ao banheiro, sentaram-se na poltrona, ela escolheu o canal, e pegaram o sanduíche que o pai preparou. Aquele sanduíche improvisado de pão de forma com maionese e uma sardinha e meia amassada no meio. Horrível, mas soube tão bem, acompanhado pela limonada, limonada sem açúcar, uma das idiossincrasias do pai.

Ele se distraiu com o programa que ela escolheu e, quando percebeu, ela já tinha dormido com a cabeça no seu braço. Preocupado, procurou se ela tinha comida na boca. Não tinha. Nem escovado os dentes tinha. Deixou-se ficar uns minutos com preguiça até que acordou, havia cochilado com a filha ali na poltrona.

Tomou coragem, levou-a para a cama, amaldiçoou a louça, o peixe frio (como peixe suja!), lavou o que tinha que lavar, jogou no lixo o que tinha que jogar, sentou-se na poltrona desperto, havia perdido o sono. Mas rápido dormiu.

Acordou com a claridade pelas janelas, havia se esquecido de fechar a cortina, todo torto, baba escorrendo já pelo pescoço, pescoço doendo. Ganhou um torcicolo. À mesa, perto da janela, a filha acordada também. “Porcaria de janela, que o sol ilumina tudo logo cedo!” Quem disse foi ele, ai dela se dissesse algo assim. E foi ele também que olhou o relógio seis e trita-e-pouco ou quarenta-e-pouco…  O lixo da cozinha fedia. Porcaria de peixe, o pai se esqueceu de levar o lixo para fora. “Filha, larga essa areia, volta pra cama, eu vou fechar a cortina.”

Por um instante seu coração, o do pai, ameaçou parar. Percebeu que a menina já tinha a mandala quase toda desfeita, estava juntando os montinhos das cores. “Filha, a gente nem tinha terminado ainda…” Foi interrompido.

Ora, ela tinha que mostrar quem é que manda: “Eu gostei de fazer ontem, pai, você não gostou?”, retórica. “Você não vai deixar montada um pouco?” Montada ele disse, como se fosse um quebra-cabeça. Pais, eles não entendem de brincadeira.

“Eu quero que a gente faça mais uma e a gente precisa do roxo. Vamos fazer qual agora?” Já pagava o panfleto. O coração do pai recuperou o ritmo de coração de pai: “Você escolhe qual, filha. Mas a gente faz depois da missa. Agora, volta pra cama que é madrugada ainda.”  “Oba! Beijo, te amo!” Seguiu-se o barulhinho do beijo.

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