cansada

Estava muito cansada quando chegou em casa.

Tão cansada que nem tomar banho queria. Mas teve nojo quando imaginou ao sentar-se no sofá a sensação da roupa encharcada de suor na sua bunda contrastando com o sofá fresco.

Só entrou no banheiro, jogou a roupa no chão e sentou-se no box, encostada à parede contrária ao chuveiro, com a água fria lhe molhando. Banho de porca preguiçosa.

Lavou-se sentada no chão, sem sabonete nem xampu, para não ter de se enxaguar, já imaginando o estado do cabelo ensebado no dia seguinte.

Saiu do banho molhada. Sem secar-se. Ia pingando, escorrendo, pelo piso frio.

Na sala, sentou-se no chão da sala, emcostada à parede, para não enxarcar o sofá.

Podia dormir ali mesmo, cansada estava. Mas era caso seu escrever no diário antes de dormir. Todo dia lhe escrevia. Era religiosa nisso. Escrever nele o que lhe havia cansado no dia, era o único motivo de folga que tinha.

Alcançou com a mão a gaveta da mesa do telefone, mas parou ao sentir a mão úmida tocando o puxador e o braço escorrer gelado para o sovaco. Secou a mão e o colo numa almofada que estava próxima antes de abrir a gaveta e pegar o livro e o lápis. Gostava de lápis. Não é definitivo. Pode-se refazer o erro.

Pousou o caderno no colo e o lápis na primeira página em branco. Mas logo desanimou. Tinha de escrever o que lhe aconteceu hoje. Não lhe aconteceu nada. Isso era triste! Só estava cansada!

Crescer é assistir morrerem seus heróis.  😥

http://www.museuclubedaesquina.org.br/fernando-brant/

A Rose Among Thorns

A Rose Among ThornsFrom a simple prayer that began as a whisper in a quiet place, a dream can inspire the world, a voice echos far away.
The wind can take our thoughts from the wasteland where we walk into a pure land as heroes proudly stand like a rose among thorns.
From a simple act that began in the corner of an unlit place, a vision embraces the world, a million candles blaze. We rise above ourselves with a dignity somehow reach that Promised Land as heroes proudly stand like a rose that grows in spite of it all.
A simple rose among thorns.
In every lifetime we find a heart that lights a spark in the eyes of the weary who can lead me to a greater love. Show there’s good in us.

A letra em inglês foi adicionada, não sei por quem, para ser cantada pela Dulce Pontes. Eu conheci as duas versões separadas. Difícil saber de qual gosto mais.

Vaso no Café

Eu tenho saído cedo do trabalho. Bem mais cedo que o normal. Estou participando de um projeto no escritório de um fornecedor e, lá, eles só trabalham até as quatro.

Eu, de manhã, saio de casa no meu horário normal. Mas volto mais cedo do que se estivesse trabalhando no meu escritorio.

Pensei no esquema. Já tem algum tempo que as coisas andam tensas para meu lado, e cada dia mais tensas. Preciso relaxar. Os homens normais, uma ou duas vezes por mês, tradicionalmente no dia do pagamento, matam algumas horas no trabalho, estendem o almoço, para ir a um puteiro ou uma casa de massagem. Eu não entendo direito a diferença, nunca fui nem num nem noutro. Acho estranha a ideia, embora inveje, inveje muito, quem tem vontade e cara-de-pau suficientes para ir.

No meu bairro há muitas casas de massagem. Provavelmente ali e as cercanias do aeroporto sejam as duas principais regiões desse tipo de meretrício. O esquema? Estressado, não me custa parar numa delas no caminho para casa e relaxar lá um pouco.

Procurei na internet, a ideia ainda me parece bem estranha, de repente, o site de alguma delas me ensinasse como funciona. Imagino: você entra, pede o cardápio (vem impresso ou há uma espécie de balcão?), pergunta sobre as especificações e capacidades de cada uma, talvez explique o serviço e peça orçamento (seria preço fechado?). A manutenção desse tipo de estabelecimento deve ser ilagal (senão, porque chamariam de casa de massagem?). Provavelmente, o sujeito tem de usar meias palavras, eufemismos, algum código secreto? Por exemplo, massagem oral. Meus amigos me zoariam muito se lessem sobr essa procupação. Lembri-me de que ia passar por Pinheiros. Lá há vários forrós com cara de esconderem puteiros, muitos sobrados sobre bar que distribuem panfletos sugerindo serem isso mesmo. A aparência externa desses lugares é horrível. Não consigo imaginar um homem saudável se habilitando a comer uma mulher na sobreloja de um bar onde eu não teia coragem de pedir uma garrafa de água mineral. E olha que não sou particularmente fresco com isso. Mas Pinheiros, se têm desses lugares zoados, talvez tenha alguma coisa boa também.

Pela Internet, achei uma casa ou clínica, como queiram, que, pelo site, parece boa. Há fotos do lugar, parece limpo e arrumado, e das massagistas, também pareciam. Liguei para pedir informações. Eu devia ter feito uma entrevista com a telefonista, perguntado detalhes, pedido para falar com o departamento de vendas, com marketing, com a enfermaria, perguntado se sobre treinamento para acessar os serviços da casa. Mas só perguntei o horário e confirmei o endereço que estava no site. No caminho para casa, não tive de me desviar mais do que cinqüenta metros para passar em frente, numa rua movimentada, um sobrado roxo com janelas escondidas atrás de treliças de madeira. Três vagas na frente, ocupadas por uma moto com baú e um jeep mal estacionado. Como alguém tem coragem de estacionar na porta de um lugar desses? A porta está aberta. Logo depois dela há um que ra-sol. O que faltava seria o sujeito ficar na calçada tocando campainha e esperando lhe atenderem a porta. Ainda assim, não consigo me imaginar entrando por aquela porta, lá dentro deve parecer aqueles balcões de recepção de salão de beleza, cumprimentar a recepcionista e falar… ainda não imaginava o quê.

Dei meia volta no quarteirão e voltei um pouco, até uma livraria minha conhecida, para estacionar. Deixei o carro, pus a mochila nas costas, entrei e fui ao banheiro para dissimular (dissimular de mim mesmo, pois ninguém me prestava atenção) e, também para dissimukar, andei um pouco para o lado contrário ao do estabekecimento que pesquisei. Era um pedaço mais comercial e mais popular do bairro. Ainda há por ali alguns puteiros (falo dos que reconheci como tal, pelos neons ou pelos porteiros de roupa da Dorinho’s. Passou-me pela cabeça que talvez dê para classificar esses lugares pela roupa do porteiro. Afinal, deve haver muita diferença entre um lugar onde o porteiro fique na calçada, encostado à parede de camiseta, outro onde o porteiro tenha uma cadeira, também na calçada, de camisa aberta, um teceiro de porteiro sentado à porta, do lado de dentro, antes do quebra-luz (esses lugares gostam de quebra-luz), de camisa pólo, um quarto, com o segurança em pé, embaixo do batente, de camisa e, finalmente, o quinto, dois porteiros-seguranças (leões-de-chácara?) de paletó, do lado de dentro da porta. Pensei que talvez por ali encontrasse algo mais discreto ou convidativo (já sabia que era uma hipótese pouco provável).

Óbvio que não encontrei. Vi só uns lugares de aparência externa muito esquisita. Pela má conservação da fachada, entrada e exterior dos estabelecimentos (e dos porteiros também), fiquei imaginando o desleixo (com higiene mesmo) das garotas que trabalham lá. Achei que precisavam exigir que seus patrões buscassem apoio de marketing. Na porta de um, um porteiro me deu um santinho, que peguei por reflexo. A textura do papel ou da impressão era estranha. Pareceu-me ensabado, morri de nojo. Abri a mão para deixá-lo cair no chão.

E comecei a andar de volta, na direção da livraria, para lavar a mão e ir à outra casa, a que pesquisei na Intenet. Lavei a mão no lavabo do café da livraria e tomei o caminho, pela rua de trás. Imaginei se não chegaria suado da caminhada. Talvez isso fosse besteira, cinco ou seis quarteirões só, sem sol nenhum, ameaçava chover. Imagino que quase ninguém se preocupe com isso, mas pensei se não seria falta de consideração e, mais do que isso, de respeito mesmo, com a garota que me atendesse.

Pensei em como a escolheria. Não tem como rolar clima. Como dá pra pegar alguém sem rolar clima? Eu ia broxar. Não era medo de que acontecesse. Era só a constatação de que aquilo não me excitava o suficiente. Pensei então no que faria com ela. Logo de cara me lembrei de beijar. Não pode beijar? Gosto de beijar, muito, muito mesmo. É a melhor parte. E gosto não só de beijar. Tenho alguma fixação com minha boca. Me lembro de um comentário de um colega sobre chegar no trabalho com sapinho e todos já saberem o que ele fez na noite anterior. Também me lembrei de outro colega, putanheiro viciado e confesso, boca cheia de herpes. Estar com uma mulher e não poder beijar não adianta pra nada.

Como é possível chegar aos finalmentes sem colocar a boca em nada? Lembrei-me também de uma cena que vi à noite, passando por uma rua escura, tentando fugir do trânsito, na volta para casa. Um sujeito com os braços para fora do carro, bolinando, com uma mao na bunda e outra na frente, o que, provavelmente, era um travesti, em pé na calçada. O carro era uma casca de metal de onde saíam seus braços. Não se encostavam mais que isso. São situações muito diferentes, mas o distanciamento profissional esperado da massagista, me parece uma experiência tão distante quanto a do sujeito encasquetado no carro.

Procurei estruturar o eu faria. Diria a recepcionista para me trazer o menu, esperaria ser servido, prato posto, talher a mesa… não entrou na minha cabeca. Ainda assim, decidi insistir. Um dia teria de fazer algo assim. Mas, graças a Deus, começou a chover e tive uma boa desculpa para desistir da idéia.

A chuva foi bem desculpa mesmo. Tanto que voltei à livraria com pouca pressa, sentindo o começo de chuva cair. E me sentei no café, com raiva de ter desistido, e também um pouco envergonhado da chuva onde me escorei, ao olhá-la pelo vidro e ver que era menos que uma garoa. Talvez eu sempre comece tudo planejando já como desistir. Principalmente as coisas que me parecem erradas. Tenho inveja de quem consegue fazer merda. De quem consegue se vingar do mundo fazendo o que lhes ensinaram ser errado.

Chamei a garçonete e quando ela me perguntou o que queria, tive vergonha de ainda não ter pensado nisso. Para não parecer patético, falei a primeira coisa que me veio na cabeça. Pedi café e pão de queijo que eu não queria. Ainda assim, reparei que ela foi embora, sorrindo leve, simpática. Reparei em seu corpo, normal, mas bem feito. Acho bonito a mulher ter corpo normal. Mas também tive vergonha de reparar isso nela que estava ali para me servir café e não para aturar olhares de quem é travado demais até para pegar puta.

Resolvi tentar de novo amanhã. Peguei o celular para procurar outros lugares, outras clínicas, talvez algo mais adequado para dummies, beginners e sociopatas. Não achei, mas também não tive muita paciência de peocurar. As considerações eram as mesmas sobre todas. Mesmo sem tentar, sabia que não iria gostar. A garçonete trouxe meu café e pão de queijo e viu a tela do meu celular. Não dava para ler a letra miúda, mas dava para ver algumas fotos de peitos, bundas e penis enlargers de banners de propagandas ao redor dessas letras miúdas. Ela não me pareceu ficar sem graça, imagino quantos idiotas como eu vêm aqui, mas fiquei chateado. Me senti lhe faltando com o respeito.

Tomei meu café, duplo, pois o tamanho normal é pequeno demais, e comi o pão de queijo, muito rápido. Eu queria enrolar, mas não consegui, tudo couve na minha boca e desceu pela garganta em uns quatro bocados esganados. Engoli sem sentir gosto. O pão de queijo estava gelado. O café me deixou o estômado ardido. Olhei de novo o telefone. Procurando o que fazer. Não tinha o que fazer e não queria desperdiçar as horas de ócio que consegui à tarde indo para cas. Por isso, amanhã, eu precisava voltar àquele lugar que vi na Internet, levaria uma garota para cima (ou mais certamente ela me levaria) e a veria me olhar com olhos profissionais de quem cumpre o dever. Não teria o que conversar com ela além de futilidades. Lembro de um lugar inde trabalhei e o restaurante onde almoçávamos dia sim, dia não. A comida era horrível, mas meus colegas gostavam de lá para ficar de papo furado com as garçonetes. Como eu odiava aquelas conversas cheia se futilidade! “Hoje eu vou na balada tal, amanhã na outra. Vou comprar sapatos mais baixos porque…” E meus colegas fingindo prestar atenção. Eu só teria tempo de conversar futilidades com a garota da clínica. E não a conheceria para contar-lhe ou ouvir-lhe segredos, nem para ter o que lhe admirar. Provavelmente, me irritaria e iria embora antes do final, para procurar onde tomar um café como este. Comecei a ficar com vontade de chorar. Olhei pro lado. não conhecia ninguém. Normalmente escrevo quando estou assim. Nem disso tinha vontade. A vontade que foi aumentando foi a de chorar e eu nem sabia que estava triste. A garçonete notou isso ou que meu café acabou e me perguntou se eu queria mais. Sem prestar atenção, repeti o pedido, logo me arrependi, ia engordar e o pão de queijo gelado nem valia a pena.

FlorEnquanto ela foi buscar, olhei para a mesa. Reflexo de quem se descobre encabulado. Só então doarei, de rabo de olho, so entao, reparei um vasinho de flor na mesa. Desses que floriculturas online colocam espalham por aí para servirem de propaganda. Eu gosto de flores e olhei essa. Era linda. Parecia pintada com capricho com lapis de cor. Linda! Vi no vaso a etiqueta do site onde eu gosto de comprar flores. Às vezes passeio por ele só para ver os arranjos disponíveis e imaginar uma situação adequada para presentear com cada um. Aquele vaso não era um arranjo. Só um tubinho de água clara com uma única flor. E ela era linda. Toquei as pétalas macias, bem de leve para não machucar. Eu queria dar para alguém uma flor igual àquela. Eu queria contar que a tinha visto e achado linda. Não se entra em clínicas de massagem com uma flor na mão. Disso tenho certeza. Olhei em volta. Não conhecia ninguém. Não tinha pra quem dá-la ou falar dela.

Tirei uma foto e peguei o notebook pra escrever, o rascunho disto, conseguir.

Avestruz

O cara era meio esquisito, isso já se sabe. Não tinha uma alimentação muito saudável, enbora comesse pouco. Aliás, dizia, tudo bem comer pouco, mas comer bem. Manteiga, pão, muito café. Ainda assim, não era da gordura que se esperava que morreria, do coração, pressão ou diabete. Antes, esperava-se que a loucura o matasse, ou o fígado. Não devia ser deste mundo.

Fazia coisas que gente deste mundo não se espera que faça. O chápeu fora de moda e as costeletas volumosas, quase suiças, que nada tinham a ver com as roupas de liqüidação de supermercado. Muito menos essas com o local e a ocasião. Bom, é bem verdade, com ocasião nenhuma. As longas caminhadas na hora do almoço, sem destino, a volta ao quarteirão. Que seria algo normal, não fosse o quarteirão um grande condomínio cercado pelo muro alto cinza que não dava vista a nada. Coisas que dizia com frequência, sem sentido, pareciam tiradas de relatos clínicos tomados num hospício. E quanto mais loucas as coisas que dizia, mais entusiasmado é apaixonado parecia por elas. Tomavam-no por maluco, ou drogado.

Álcool, dizia beber muito. Uísque, vinho, conhaque. Mas nunca foi visto com o copo na mão. Assim como, embora muitas fossem suas escapadas a pretexto de fumar, também nunca foi visto com cigarro ou isqueiro. Drogas eram, então, a óbvia conclusão dos que não o tomavam por maluco. Mas esses eram poucos. A grande maioria realmente temia pelo dia em que seriam incomodados pelo rabecão do hospício à sua caça. Muitos, por isso, lhe tinham medo.

E quando digo medo por isso, vejam bem, não é pela possível maluquice. Mas pelos mesmos motivos que os levaram a julgá-lo louco. Ora, havemos de temer a alguém que não se comporta como os outros, que não age como nós mesmos faríamos, a quê então temeríamos? Pode haver coisa mais assombrosa do que conviver com alguém cujas reações não sejam previsíveis e comuns à nossa própria normalidade? Se xingo-te a mãe e me respondes com outra ofensa ou com um soco, tudo muito bem. Mas, se, por galhofa, te empurro ao descer uma escada, para rir de teu tombo ou do esforço em não se esborrachar e, em vez disso, o que vejo é outra galhofa, que mais parece um passo de balé, acompanhada por risada e um grito histérico a chamar a atenção de todos que mata a mim mesmo de vergonha por ser tomado por amigo de alguém assim maluco… o que pode ser mais assustador?

E protagonizar cenas assim inesperadas e assustadoras não lhe era incomum. Poderíamos mesmo dizer que era um inusitado costumaz. De que outra forma haveríamos de chamar alguém que, encontrando uma mariposa machucada, a recolhesse do chão com todo cuidado, com carinho mesmo, pode-se dizer, e a jogasse para morte certa junto a um ninho de sabiás? Tenho minhas suposiçoes sobre isso. Você, que lê, tem as suas. Ele, só ele sabe porque fez assim.

O dia fatal começou normal. Era sexta-feira, como todas as de todas as semanas. Chegou cedo, como chegava todas as sextas-feiras. Normalmente se atrasava ou chegava em cima da hora. Nas sextas-feiras, não. Algo elas tinha de diferente dos outros dias, embora sempre iguais umas às outras. Pegou um pão de queijo e um pingado na lanchonete e se sentou na guia da calçada, olhando a terra em torno das plantas. Digo olhando a terra, mas podiam ser formigas, folhas caídas, quem sabe? Talvez guardasse se as raízes de alguma planta tentassem crescer tortas para fora da terra. Que faria então? Enterraria-as de volta? Comia o pão de queijo com preguiça. Preguiça de mastigar, mas também sem pressa de lhe arrancar pedaços pequenos com os dedos. Talvez tivesse alguma constante dor de dentes, pois nunca se soube que mordesse e arrancasse com os própios dentes um pedaço do pão de queijo. No pingado, dava bicadas, mínimas também, até terminar de comer. Daí pegava o copo e terminava, a bebida provavelmente já gelada, em dois ou três goles grandes. Ainda olhava um pouco à volta, talvez para verificar se o mundo não havia mudado durante seu desjejum, e piscava os olhos várias vezes antes de se levantar e entrar. Levantava-se com a preguiça de quem acorda, mais devagar ainda do que comia. O movimento lento automaticamente espreguiçava e alongava os músculos de seu corpo como naquele desenho animado da flor no vídeo do Pink Floyd. Aquele em que a flor cresce, se estica e abre devagar antes de engolir algo. Ele, se era uma flor, engoliu antes.

Entrou. Subiu as escadas puxando-se pelo corrimão como se ele fosse o cipó do Tarzan. Sentou-se entre os colegas com cara de enfado e o olhar baixo direto para a mesa. Tornozelos cruzados embaixo da cadeira. Cotovelos apoiados na mesa. Tão igual quanto todos os dias de semana são iguais. De quando em quando passava a mão sobre parte da testa e sobre o olho. Espreguiçava as pálpebras e bocejava. Devia ser um exercício aumentar a tolerância ao fastio. Isso parecia acordá-lo por alguns segundos. Neles, olhos arregalados, olhava para a frente, depois corria as meninas dos olhos de lado a lado, via tudo à sua volta. Tomada essa consciência da existência do resto do mundo e de que continuava vivo nele, adormecia de novo a cabeça baixa, novamente mergulhado em prestar atenção à própria mesa.

Chamavam-no Avestruz. Tanto pelo pescoço e pernas compridos, coincidência apenas, quanto, e mais tanto, pela cabeça baixa concentrada no que fazia. Parecia que a tinha enfiada no buraco de um poço e que ali era capaz de passar horas procurando algo ao fundo.

Às onze, em ponto, podia-se dizer com certeza que eram onze em ponto, pois coincidiu com a sirene da telefônica — a sirene do prédio da companhia telefônica tocava breve a cada hora cheia, dia ou noite, exceto ao meio-dia, quando tocava longo — ele começou a se encolher na mesa com cara de quem está chupando algo muito azedo. Os olhos e a boca apertados. Os músculos se enrijecendo enquanto se encolhia, dobrando-se. A mesa virou recheio de sanduíche entre seu tronco e suas pernas. Levando os joelhos em direção à cabeça, chegou a tirar a mesa do chão, suspensa por eles. Isso sem ruído ou gemido nenhum. Aliás, foi como se tudo ao redor, de repente, silenciasse. Como quando se cai de cabeça no chão duro e a pancada, reverberando pela caixa craniana, abafa em susto e analgesia qualquer barulho. Fica só aquele zumbido metálico, bem fraco, perdido no fundo do labirinto do ouvido. Tudo se calou. Conforme reparavam e se tocavam do que acontecia, todos ficaram quietos, pararam e, boquiabertos, assistiram confusos, sem saber o que era realmente aquilo, ou o que fazer. Até que ele afrouxou as pernas, pendeu para frente, a mesa caiu para frente, e então ele pendeu para trás, a cadeira se desiquilibrou, como a balança a que lhe retiram a mercadoria ou o fiel, e caiu para trás. O barulho então, primeiro que se ouviu, foi de sua cabeça, batendo forte, pesada e dura, contra o piso.

Assustados, a maioria, só dois se chegaram para tentar ajudar. E nem conseguiam imaginar como. Não puderam com seu peso, o que era de se adminirar porque, embora acima do saudável, estava longe se ser grande a ponto de dois não lhe conseguirem levantar. Um terceiro ligou aos bombeiros, pedindo por socorro.

A cena, em torno, era de curiosidade e medo. Curiosidade que se explica. Medo que, em outra situação, provocaria risos. Como se o infortúnio fosse contagioso. Os de trás erguiam a cabeça por cima dos outros, espreitando. Pareciam ter medo de que serem pegos olhando o colega caído lhes trouxesse algum mal.

Os bombeiros não demoraram, pareciam mesmo premeditar o ocorrido e já estarem por ali de prontidão. Vieram em dois, fortes, de camiseta vermelha com grossas jaquetas e calças de brim cáqui. Junto um médico, ou enfermeiro, novo, franzino, camiseta e jaleco brancos tradicionais, bolsa de couro que me lembrou a marmita de meu pai.

Ajoelhado, em um joelho apenas, o outro pé postado, ao lado do desfalecido, cumpriu o ritual que aprendeu na faculdade. Auscutou-lhe o peito em vários lugares, o abdôme. Sentiu-lhe o pulso. Iluminou os olhos, a orelha. Voltou ao peito, de novo com o estetoscópio, depois com a mão. Por fim com o ouvido, encostado ao peito do paciente.

Cara assustada. Pegou da mala um bisturi grande. mãos firmes as do médico, mas seus olhos tremiam. Rasgou-lhe a camiseta, à partir da quina do “V” da gola. Passou-lhe os dedos pelo peito procurando algo. Tomou pressa então, com dificuldade, forçou um corte perto do pescoço e foi descendo até quase a barriga. Nunca imaginei que fosse tão difícil cortar alguém. O médico também parecia nunca ter imaginado. Largou o bisturi de qualquer jeito no chão. Xingou. Deve ter percebido que fez besteira. Se precisasse do bisturi de novo, ele estaria contaminado. Com as mãos, protegidas por luvas ensangüentadas, lambuzou a bolsa de couro preto procurando algo. Pegou uma ferramenta grande que parecia uma furadeira. Testou no ar. Era uma serra elétrica.

Tateou o corte feio, sujo de vermelho e preto que fez no peito do paciente. Afundou ali um ou dois dedos de um jeito que me revoltou o estômago e, tenho certeza, teria revoltado também o dele, não fosse a adrenalina do susto, do medo e do medo de não conseguir. Ligou de novo a serra e serrou ossos ou outras coisas que eu nem imagino existirem ali. Demorou serrando. Testava tateando com os dedos por dentro do corte. serrava mais. Mexeu de novo na bolsa. Agora sujou-a com poeira e lascas que saíram do corte. Pegou uma espécie de morsa. Fixou-a no peito da vítima e girou uma chave, separando-lhe os dois lados do peito aberto. Serrou mais, separou mais. Tateou. Enfiou a mão, procurando algo. Com a mão direita dentro, usou a esquerda para forçar mais o peito a abrir. Ouvi algo se quebrar, deviam ser ossos, quando o rosto do médico se aliviou e, ato contínuo, algo apareceu se mexendo na abertura do peito.

Algo procurava passagem. O médico forçou mais uma vez a abertura com as duas mãos. Um guincho foi ouvido e o que tentava sair se soltou. O coração. Grande. Pulou para fora do peito e alçou vôo. Vermelho, tingindo-se de colorido ao procurar uma janela que lhe chegasse ao céu. Saiu por ela, batendo barulhento, como se batesse asas. E talvez as tivesse mesmo.

Coisas para eu fazer antes de morrer…

◽️ Acampar em casal numa barraca.

◽️ Sexo numa chuva forte (e quentinha).

◽️ Passar a noite conversando na areia da praia.

◽️ Passar a noite num chalé no alto de uma montanha e acordar cedo para ver o sol nascer tomando capuccino.

◽️ Andar muito, por dias, pode ser o Caminho de Santiago, o Caminho de Aparecida, atravessar a Sibéria, subir o Kilimanjaro, ou caminhar pelo fundo do mar até Angola, desde que eu ande muito sem ter de dar satisfação a ninguém.

◽️ Chegar à África de navio.

◽️ Colher uma edelvais e voltar para casa correndo feliz dá-la de presente.

◽️ Ver a aurora-boreal.

◽️ Solar num concerto de contrabaixo.

◽️ Chegar ao fim do arco-íris.

Isso pra não falar em descer as cataratas num barril, né, Pica-Pau?

 

Quase um Ano

Eu, ultimamente, não estou muito inspirado para escrever.

Ando sem muitas idéias de histórias para contar e também com dificuldade de prestar muita atenção. Além disso, tenho me sentido muito cansado à noite. As madrugadas sempre foram meus horários preferidos.

As coisas que tenho escrito não yêm me agradado, muitas eu jogo fora ou num canto sem postar. No fim-de-semana, postei uma que estava em rascunho há algum tempo. Mas parece que escrevi sem prestar atenção. Ficou horrível.

Escrevi mais uma hoje que resolvi não postar. Escrevi com pressa e sei que não vou conseguir passar a limpo tranqüilo. E também, ao que me lembro dela, não vai agradar a ninguém. É só mais do mesmo. Talvez a vida seja mesmo só mais do mesmo. Especialmente as descrições do quotidiano me parecem, cada vez mais, mais do mesmo.

Acho que, por isso mesmo, comecei a escrever algumas coisas sobre os filmes que vi. Não deveriam ser histórias, mas coisa factual. O que achei, o que vi, do que gostei. Às vezes não resisto e coloco uma historinha. A grande maioria acaba me parecendo mais do mesmo também. Incrível quanta besteira vi que não mexeu comigo mais do que a esperança de que fosse algo bom.

Este fim-de-semana, consegui dar forma a uma idéia que vinha tendo e fui começá-la. Fiquei triste quando percebi que me esqueci de uma coisa muito importante. Muito importante! Imperdoável! Fucei meus emails, histórico do telefone, dos notebook, redes sociais. Não consegui encontrar. Fiquei chateado mesmo!

Corri no histórico deste blog, procurar nos primeiros posts, um ano atrás, para ver se me lembrava. Não me lembrei. Mas encontrei os posts. Diários. Algumas coisas bobinhas. Algumas coisas que não passavam de frases, de gracinhas mesmo. Mas, quase todo dia, um texto bem melhor do que as coisas que tenho escrito nos últimos meses.

Não sei se relaxei, se estou perdendo a mão, ou se cheguei no limite e as idéias acabaram. Não achei o que precisava, mas comparando o que achei, estou achando uma senhora porcaria as últimas coisas que tenho publicado.

Este não é meu primeiro blog. Já comecei vários outros que destruí por algum desgosto, algum ataque de amargura dos que me são costumazes. Nenhum chegou a um ano como este vai chegar. Eu fico chateado nos dias em que não escrevo. Mas escrever coisas de que não gosto, eu não quero.

Vou me esforçar para escrever, de novo, coisas de que eu goste. Espero que este seja o último post chateado. Vou me esforçar.

 

Começa outra semana. Na última, não escrevi.

Esta semana acho que eu não sai nenhuma noite para tomar café e escrever. Bastante coisa para fazer, acabei descuidando. Ler, então, muito menos. O trabalho está uma bagunça. E eu estou dorminhoco. Mas tive algum tempo sim. Só não usei neste blog aqui.

Comecei a montar outro, de trás pra diante, dos filmes que assisti e do que me lembro e das anotações que fiz em cada um.

Engracado que da maioria desses filmes eu já me esqueci. Os poucos me lembro, poucos em relação a quantos assisti, não foram necessariamente os melhores, mas, quase sempre, os que me fizeram chorar.

Hoje já é domingo, é a primeira vez que consigo me sentar no café e escrever mais ou menos tranqüilo. Mais ou menos porque só tenho alguns minutos. Não dá nem tempo para procurar assunto.

A bagunça na avenida já passou, hoje foi tarde de protestos. A bagunça nas varandas também. Meu chá veio aguado. A dor de cabeça está passando, o torcicolo também. Parece que vai ficar só uma dorzinha no ouvido, que deve ter sido a origem de tudo.

Comprei um livro “1001 Movies to See Before You Die”. Nao venço mais em listar os filmes que assisti nos últimos meses para escrever sobre eles. Alguma coisa até já escrevi, mas bem cru. Isso foi o que mais me tomou tempo estas madrugadas. E este livro já é pra uma ideia de jerico que estou tendo para o blog onde vou colecionar meus comentários sobre eles.

Consegui baixar o filme que não acabei de ver no cinema. Ia ver ontem, mas estava doendo muito. Não ia prestar atenção. Acho que vou ver hoje.

Tive uma ideia meio mal acabada, um esboço de idéia, há uns dias atrás. Agora vendo este livro, pensando nos filmes e nas anotações que fiz, essa ideia começa a tomar forma. Vou ter com o que me distrair nas próximas duas ou três semanas.