Gosto das personagens com defeitos. Especialmente das protagonistas. O defeito a torna verossímil. Gosto também, da mesma forma, das alegrias e tragédias incompletas. Dos raios de sol que teimam em se enfiar pelas brechas da trama da cortina do palco e da sombra que se acomoda no canto, junto à coxia. Mas eu só fala-o besteiras… Por que sonhar com um mundo imperfeito?
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2014 in review
Parece-me que foi um bom ano para minhas aventuras blogueiras.
Esta encarnação do blog me agradou e distraiu bastante, embora a atividade em dezembro tenha sido pouca.
— Muito agradecido. Tin tin.
The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2014 annual report for this blog.
Here’s an excerpt:
A San Francisco cable car holds 60 people. This blog was viewed about 2,100 times in 2014. If it were a cable car, it would take about 35 trips to carry that many people.
Escrito nas Estrelas
rascunho (apeteceu-me)
O poeta não merece assim tanto crédito pelas coisas bonitas que diz. Merece-o por dizer o que vê assim como vê. Se inventasse as coisas bonitas apenas para dizê-las, para impressionar, para agradar, não passaria de um mentiroso… como tantos outros. Se as vê bonitas, e abençoado seja por isso, seu escrito é também bonito e agrada pela beleza. Mas, se o que percebe é feio, o que podemos lhe pedir além da sinceridade de contar esse feio? Ou de se calar? Que se cale e leia uma poesia bonita. Talvez para isso sirvam…
Railway Man
Ue o Muite Arukou
Este texto não é meu. É uma música japonesa que eu tenho ouvido algumas vezes nos últimos meses. Ela já foi gravada várias vezes em inglês com uma letra que não tem nada a ver com o original.
Desta vez, encontrei a letra dela em romanji é uma tradução para inglês que parece ser confiável.
A letra e a tradução, eu peguei do site:
http://www.learn-japanese.info/ueomuite.html
Ue o Muite Arukou (I Look Up as I Walk)
Ue o muite arukou (I look up as I walk)
Namida ga kobore nai you ni (So that the tears won’t fall)
Omoidasu haru no hi (Remembering those those spring days)
Hitoribotchi no yoru (But I am all alone tonight)
Ue o muite arukou (I look up as I walk)
Nijinda hoshi o kazoete (Counting the stars with tearful eyes)
Omoidasu natsu no hi (Remembering those summer days)
Hitoribotchi no yoru (But I am all alone tonight)
Shiawase wa kumo no ue ni (Happiness lies beyond the clouds)
Shiawase wa sora no ue ni (Happiness lies up above the sky)
Ue o muite arukou (I look up as I walk)
Namida ga kobore nai you ni (So that the tears won’t fall)
Nakinagara aruku (Though the tears well up as I walk)
Hitoribotchi no yoru (For tonight I’m all alone tonight)
Omoidasu aki no hi (Remembering those autumn days)
Hitoribotchi no yoru (But I am all alone tonight)
Kanashimi wa hoshi no kage ni (Sadness lies in the shadow of the stars)
Kanashimi wa tsuki no kage ni (Sadness lurks in the shadow of the moon)
Ue o muite arukou (I look up as I walk)
Namida ga kobore nai you ni (So that the tears won’t fall)
Nakinagara aruku (Though the tears well up as I walk)
Hitoribotchi no yoru (For tonight I’m all alone)
Diálogo Impromptu II
— O que você quer comigo?
— Eu gosto muito de você.
— Quer dizer que quer namorar?
— Não.
— O quê então?
— A gente tem de pensar no que quer? Não pode só gostar e fazer o que der na telha?
Café com Empadinha
Eu sou daqueles que gostam de tomar café da manhã na padaria todos os dias. Podem me dizer que engorda, mas não consigo passar sem dois pãezinhos com manteiga ao acordar. São o sinal para meu corpo de que o dia começou e ele pode finalmente acordar.
Não gosto de acordar cedo (nem de dormir cedo, é verdade). Acordar cedo, para mim, é acordar antes das dez. Se a hora do relógio tiver só um dígito, isso para mim é cedo. Mas durante a semana, trabalho, sou obrigado a acordar de madrugada, ente seis e seis e meia. Acho isso uma aberração criada por nossa cultura nos tempos em que não havia luz elétrica e tínhamos de usar cada segundo de sol. Cento e tantos anos e ainda não nos livramos dessa aberração de costume!
Uma coisa que aqui em São Paulo eu não vejo, mas vi muito numa época em que morei no Rio, é as pessoas lambuzarem a colherinha do café na manteiga do pão antes de mexê-lo. Eu acho nojento!
Mas aqui vejo outras coisas. Por exemplo, sete horas da madrugada, sentado no balcão da padaria, segurando com sono o pãozinho, preguiça até de pedir o que quero (ainda bem que o pessoal da padaria já me conhece há uns dez anos e me serve sem eu precisar pedir), ao menos uma vez por semana, sou pego pelo cheiro de tempero doce e carne moída de alguém comendo esfirra.
Não entra na minha cabeça que alguém coma esfirra no café da manhã. Às vezes, o sujeito bebe refrigerante e eu imagino que tenha trabalhado à noite e esteja fazendo um lanche antes de ir para casa descansar. Mas quando é alguém que toma café com leite junto com a esfirra? Não entendo. Só posso teorizar. Deve ser banguela, não consegue mastigar o pão, quer algo quente, pede a esfirra. Mesmo assim, as teorias me parecem sempre elaboradas demais.
Se eu não precisasse nunca acordar cedo, não teria a curiosidade sobe o segredo de quem faz essa escolha para o desjejum. Nos fins-de-semana, normalmente, não preciso. Tomo café quase meio-dia e, aí, qualquer coisa que veja me parece normal. Quase qualquer.
Tem aquele salgado, a empadinha, já gostei daquilo. É uma mini-torta de massa podre (olha o nome!) com recheio de mingau de palmito. Massa-podre nada mais é que um monte de farinha e sal moldados com gordura vegetal hidrogenada. Eu falo disso com nojo, mas antes de ter consciência de do quê é feito, gostava muito. Opa, como gostava! Hoje não consigo mais comer. A consciência me entala o salgado na garganta na hora de engolir.
As empadas daqui da padaria são muito famosas. Hoje, sentada ao meu lado no balcão, uma mulher, bonita por sinal, pediu um café e uma empadinha. Estou aqui pensando, se fica bom, por que ninguém nunca tentou adicionar café à massa? Essa foi novidade.
Eu tive de me virar um pouco no banco para não vê-la comer. Engraçado, acho que a idade está me deixando fresco. Só de imaginar o gosto que ela sentia, minha boca secou e eu não consegui mais engolir. Tive de começar a escrever isto, para me distrair e conseguir terminar o café depois de ela ir embora.
É engraçada essa história de gostos…
Caderno de Anotações
Eu tenho um caderno, pequeno, de capa preta de papelão fino flexível, as folhas não são alvejadas, sem pautas, mais ou menos do tamanho de minha carteira. Cabe no bolso da calça ou do agasalho. Algumas pessoas talvez o chamassem de caderneta.
Eu o carrego comigo para quase qualquer lugar, junto com um toco de lápis que peguei numa loja de móveis, desses lápis que deixam num totem na entrada para a gente rascunhar à disposição de cada móvel. Quando ouço ou vejo alguma situação interessante, uma frase de efeito, pedaço de letra de música, que valha a pena anotar para escrever algo depois, se não posso anotar no telefone ou no tablet, anoto nele.
Essas anotações, são quase todas feitas no escuro, no cinema ou teatro, com o lápis em letra totalmente torta. De vez em quando, sento num café, pego o caderno, o lápis (tenho uma borracha encaixada na ponta cega dele) e uma caneta e vou apagando os garranchos e passando a limpo com a caneta. Aproveito para procurar na internet se o que anotei é realmente o que ouvi, de onde veio, de quem é. Anoto e deixo ali, esperando.
Esperando um dia em que mexa nas páginas mais antigas e, fora do contexto original, veja se aquelas anotação continuam fazendo sentido para mim, se não foram interesses passageiros. Esperando que o tempo me faça ver ali algo bom ou mais do mesmo.
Faço também desenhos, esquemas, uns racunhos com bolinhas, flechas e muito rabisco. São coisas que eu nem deveria chamar de desenhos. Me ajudam a lembrar das coisas, onde estavam, como. Coisas que não cabem em fotos. Fotos são mais difíceis de achar depois.
Já tive outros desses cadernos antes. Quando ficam cheios, filtro o que lá está, passo para o computador em notas, fotos. Muita coisa vira rascunho para meu blog. Depois jogo fora o caderno e ponho outro em uso.
Cadernos são assim, vêm e vão.
Página sem data ou personagem certo
Depois de algum tempo bagunçando os horários de trabalhar e de dormir, a gente não sabe mais distingüir dia e noite, mesmo com as janelas abertas e as cortinas puxadas. O corpo, os olhos, a cabeça, começam a trabalhar em ciclos esquisitos, longos de várias horas. É como se ignorássemos o movimento do sol e da lua, eles são apenas aparentes mesmo, e trabalhássemos em nosso próprio ritmo. Mas esse ritmo não é o do resto do mundo e a adaptação é difícil e demorada.
Foi por isso que quando nosso herói acordou, já mais para o fim do que para o meio da tarde, estranhou muito o calor da tarde. Seus olhos estranharam ainda mais a forte claridade. Os lençóis, o travesseiro, estavam encharcados de suor. Sentiu-se imundo, com coceira, reflexo suor e da poeira que nele grudou enquanto dormia. Nem sabia mais que dia da semana era ou se tinha dormido um dia ou dois, ou mais. Mas sabia que já tinha passado bem mais do que a hora do almoço de hoje.
A cabeça chacoalhava bastante. Parecia enxaqueca, embora ele não pudesse imaginar motivo para isso. Coçou a parte da frente da perna, acho que se chama isso de canela, e notou que ela, diferente da panturrilha carnuda e da coxa gorda, é muito magra, ossuda. Não sabe porque, mais lhe pareceu que isso tinha a ver com coçar aí. Pareceu-lhe uma parte do corpo feita para ter coceira. As unhas deixaram a canela ardida. Ele passou a mão e sentiu o úmido do suor nos pêlos. Pensou que precisava tomar banho. Precisava mesmo. Imediatamente sentiu o cheiro da roupa de baixo que não trocava desde que adormeceu. “Melhor dormir pelado.” Foi só um pensamento.
A modorra cismava de não arredar pé. Pensou na água fria caindo na canela irritada, estava muito calor para banho quente, e que isso aliviaria a coceira. Pensou na limpeza que aliviaria a limpeza. Foi para o banho.
Do box, viu no espelho a barba feia. Saiu pingando pelo banheiro para pegar o rastelo da gilete. Aproveitou e voltou para o box também com a escova de dentes já lambuzada de pasta. Lambuzou a barba com condicionador. Esperou um tempo para ela amolecer. Enquanto isso, se deliciava com a água fria caindo nas costas e, depois, nas pernas. Fez a barba, escovou os dentes. Xingou-se de burro enquanto lavava os tocos de barba que lhe caíram e embaraçaram nos pelos do peito.
Quando se enxugou, achou a toalha quente e teve a impressão de, depois, estar mais suado do que quando acordou. Por isso, resolveu pegar uma roupa leve e sair.
Primeiro pensou em comer algo. Não estava com fome, mas sabia que devia. Já na rua, imediatamente ficou de saco cheio ao imaginar o restaurante, o garçon. Foi a uma lanchonete, mas não quis comer nada. Olhou os outros bebendo, já era hora de happy, e não quis um prato na sua frente, mesmo que fosse de sanduíche. Quis pedir uma cerveja, mas se lembrou da enxaqueca que já tinha passado, também do estômago vazio, e pediu um suco.
Prestou atenção nas conversas dos outros e sentiu inveja. Quando o copo chegou, teve raiva dele. Bebeu rápido, achou nutritivo e gelado, colocou o copo longe e pediu a cerveja. Essa bebeu devagar também prestando atenção às conversas dos outros.
Pediu a segunda, já se arrependendo, e bebeu-a sem vontade, mais devagar ainda. Olharam para ele e ele achou que, de tanto prestar atenção às conversas dos outros, incomodou e chamou a atenção para si. E isso o incomodou, muito. Constrangido, virou-se para dentro do balcão e terminou a cerveja, ainda bem devagar, olhando o que faziam os funcionários, o balconista, o chapeiro, e pensando no que podia fazer.
Pensou nas conversas que ouviu, nas pessoas que saíam para a noite, e para beber, e para dançar, e para fazer farra. Pensou também no fim disso tudo e viu que não tinha paciência para o ritual. Decidiu abrevia-lo, pagar. Pagou primeiro a conta da lanchonete. Depois desceu a rua.
No caminho, passou por um caixa eletrônico e sacou dinheiro. Em certos lugares, não é salutar usar cartão. Já havia passado pela porta de um estabelecimento, onde não quis entrar, quando se lembrou de comprar preservativos. Voltou alguns metros, à farmácia, e comprou a embalagem com três. Nem precisava de tantos, pensou, mas, pensando melhor, não havia nada para fazer depois, além de trabalhar, melhor demorar o máximo.
Procurava um que lhe aconselharam, só se lembrava do nome e o nome de que lembrava não achou em nenhum neon. Mas também não tinha presença de espírito suficiente para encarar os neons o suficiente para, se fosse, o caso, corrigir a lembrança. Deixou passar meia dúzia de até desistir do que procurava e se decidir por um. Colaborou em muito ele estar na frente desse um, razoavelmente discreto e sem porteiro, quando sentiu-se encabulado de andar por ali.
Passou o quebra-luz e um sujeito grande, com jeito de leão-de-chácara, lhe deu as boas-vindas e desejou boa noite. Respondeu polido, vitória inevitável sobre a timidez.
O escuro, as luzes brancas eram poucas, as outras, vermelhas ou negras, fracas, estranhas, não iluminavam nada. O escuro mal iluminado o fez sentir-se exposto, mais do que se estivesse nu. Pensou em si mesmo nu e sentiu o próprio pau mole. Teve vontade de urinar. Foi ao banheiro com nojo, achando que estaria imundo. Surpreendeu-se com a limpeza. Apenas teve de ficar de pés bem separados junto ao mictório para não pisar no pouco de urina que havia no chão. Ainda assim, por via das dúvidas, usou um pedaço de papel toalha para abrir a torneira sem tocá-la.
Na saída, parou à porta do banheiro, ainda do lado de dentro da porta, e olhou o salão. Não viu nada de mais, mesmo assim não se sentiu à vontade com o assédio dos clientes às garotas, com o modo com que as assediavam e com o modo como elas os incentivavam a isso e provocavam. Encontrou um lugar que lhe pareceu discreto, no canto mais à direita do balcão, perto da entrada, que agora era saída, escondido pela chopeira, embora com visão para o barman.
Sentou-se e aceitou o chope que o barman lhe ofereceu, os dois primeiros estão na consumação mínima. Bebeu um gole que não quis descer. Já tinha a barriga cheia pelos outros dois, mesmo já tendo urinado. Ficou com medo de vomitar e pensou em se arrepender de ter entrado ali. Não sabia como se portar, só não queria chamar a atenção. Olhou por cima do bar, do outro lado, bêbados dançavam quase sozinhos. Algumas garotas, indo e vindo, passavam pelo meio da pista, apenas passavam, dançando. Ele achou que elas dançavam para fazer pouco dos bêbados e achou tudo ridículo. Foi quando uma o abordou, pedindo uma bebida.
Isso ele já sabia, das conversas de bar, é parte do contrato. Ela pede para que ele lhe pague a bebida. Se ele paga, ela, na maioria das vezes, nem encosta no copo, significa que está interessado em seus serviços. Pode então perguntar pelo preço.
Ela escolheu a bebida e ele se esqueceu de perguntar pelo preço. A quebra de protocolo a incomodou. Para não perder o negócio, bebericou e explicou. Ali todas cobram o mesmo, exceto se ele quiser atrás, aí depende de a garota olhar o tamanho e avaliar por quanto vale a pena. O quarto é pago à parte. São granas separadas, a dela é dela, a do quarto é a da casa.
Ele se surpreendeu com o preço. Com o que tinha sacado, ela cabia em seu bolso quase dez vezes. Ainda assim, ele teve medo de algo escrito em letras miúdas nesse contrato. Tinha de tomar cuidado, isso significava não beber muito, para não chutar o balde.
Ela brincava, com as pontas dos dedos, com o copo quase intocado. Não entendeu direito o que ele quis dizer com “OK”, mas assumiu o que lhe convinha. Desprezou o copo, agarrou-lhe o pulso e o puxou, sem sedução ou romance nenhum, para uma escada que ele ainda nem havia notado, para o andar de cima. Ele, bobo, teve de voltar para pegar a comanda, com uma marca redonda, molhada, do fundo do copo de chope, que ia esquecer.
No corredor quase completamente escuro do andar de cima, um leão-de-chácara pediu-lhe a comanda, anotou nele o nome com o qual a garota tinha se apresentado e deu a ela uma chave que tirou do bolso, aparentemente sorteada.
Ela voltou a puxá-lo pelo pulso. Destrancou o quarto e entraram. Trancou por dentro e colocou a chave na bolsa. Colocou-a num criado mudo que ficava bem isolado da cama, no canto junto à janela fechada que tinha, por fora do vidro, um tapume que imitava uma foto de bairro chique.
Ele se sentou na cama, pensando em como agir. Ela já se virou tirando a camisa. “Quer mamar um pouco?” Chegou-lhe os peitos perto do rosto. Ele disse que não e a surpreendeu. Depois, ele achou bobo recusar assim e também achou bobo ela perguntar se ele queria. Na sua cabeça, o interesse nisso era dela. Mas reconheceu que peitos saírem da roupa e lhe serem colocados ao alcance do bafo assim tão fácil era algo muito mais intimidador do que excitante.
Ela se afastou um pouco, tirou o sutiã, ainda o tinha vestido, as sandálias, a saia e os brincos. Como ele ainda estava sentado na beira da cama, inativo, e para ela tempo é dinheiro, e ele pensou nisso mesmo, imaginou um taxímetro no púbis, ela, profissionalmente, feito uma enfermeira, se aproximou e começou a abrir-lhe o cinto e as calças. Fez o movimento de tirá-las, impaciente, antes que ele se levantasse. Elas não saíram facil. Teve de puxar umas quatro vezes, ele não ajudou muito, até conseguir chegar com elas às coxas.
Já sem muita paciência com o cliente que se revelava mais passivo do que o tímido que ela imaginava, ela partiu para o item seguinte do manual de procedimentos. Puxou-lhe as calças, até os pés, sem tirá-las, ajoelhou-se com os peito entre seus joelhos e procurou-lhe algo dentro da cueca. Antes de encontrar, já abaixava a cabeça para chupar. Não conseguiu. Ele estava curvado para a frente e sua barriga atrapalhava a cabeça dela a chegar perto o suficiente para a boca alcançar o insumo.
Ela levantou a cabeça e suspirou. É o máximo que uma puta desprezada pode fazer. Ia empurrá-lo para trás para que ele se deitasse. Não chegou a fazer. Ele a pegou pela cintura e a debruçou na beirada da cama enquanto se levantava. Com uma mão, pegou-lhe o fio-dental de dentro do rego e puxou para o lado. Com a outra, foi tirar o pau de dentro das cuecas. Mas teve vergonha quando sentiu-o bem menos que meia-bomba. Rapidamente achou curioso ele ter crescido, mas continuar mole. Ela, outra frase ensaiada do ritual, dita automática e mecanicamente, lhe disse que pusesse caminha, que ela não trabalha no pêlo.
Ele nem ouviu o que ela disse. Só escutou o tom e o ritmo da voz. Lembrou-lhe um caixa de banco chamando o próximo, dando bom dia e perguntando o que deseja, e que ela estava trabalhando.
Tirou a mão de dentro das cuecas. Subiu as calças, calado. Estava com a carteira na mão, contando o dinheiro, quando ela, que olhava para um quadro na parede, percebeu que fora dispensada do serviço. Se sentou, arrumou o fio-dental e ficou olhando-o contar.
Ele lhe deu o dinheiro, mais que o combinado, ela disse que o da casa devia ser pago só na saída. Mas era tudo para ela, gorjeta.
Ele foi para a porta, sair, enquanto ela contava de novo. Encontrou a porta trancada e teve de esperar. Ela separou dois montes. O da parte combinada, pôs na carteira dentro da bolsa. O da gorjeta, enrolado, no estojo dos óculos, também na bolsa. Ele esperando. Vestiu-se, retocou a maquiagem, com pressa, mas não tanta quanto ele. Destrancou a porta e deixou-o sair primeiro. Depois saiu e trancou. Chegando onde estava o leão-de-chácara, disse tchau esticando a bochecha que ele, com muito nojo, fingiu beijar.
Ela desceu correndo a escada. Ele desceu atrás, sem pressa. Encontrou o lugar no balcão, junto à porta, desocupado. Sentou-se, mas logo dispersou. Procurou cigarro no bolso e resolveu sair para fumar.
Pagou a conta e saiu. Ia fumar na calçada, mas não quis ficar parado ali. Acendeu o cigarro e foi andando de volta para casa. Ainda era cedo. Já tinha andado dois quarteirões quando percebeu que não tinha nem encostado ainda a boca no cigarro.

