Dor de Cabeça

Dor de cabeça. Isso sim me deixa jogado.
Dizem que homem é assim, faz muito fricote com qualquer doencinha besta.
Dor de cabeça não é doença. É um tormento que fica martelando fraquinho, aos poucos, o dia todo.
Parece besteira, mas é como ter alguém te enchendo o saco até conseguir te fazer perder a paciência.
E, depois que consegue, continua.

20140508-161311.jpg

Já nestes dias, ao contrário do outro post, o que eu gostava mesmo era de chegar em casa e ouvir um: “Fica aí, eu te pego um chá.”
Eu responderia: “Daqui a pouco. Você senta um pouquinho aqui pra eu encostar minha testa em você?”

Ah! O selinho!

 

Wallpapers do meu iPad

Nestes tempos, conhece-se muito da pessoa por aí:

20140508-005829.jpg

20140508-010007.jpg

 

 

Mas eu ainda não estou satisfeito com eles.

Estou pesquisando ou tentando fazer um ideal.

Minimalismo

Às vezes, paro pra pensar que não preciso de muito para viver: cama, cobertor, chuveiro, umas mudas de roupa, geladeira, notebook, uma janela.
Já para ser feliz preciso de muito: uma mão, um sorriso, um ombro, colo…

Teus Defeitos

“O amor é medido pelo quanto se está disposto a sacrificar por ele.”
Não, o amor é medido pelo quanto você conhece o outro, e ainda assim o ama.
Conhecer é conhecer defeitos. Quero conhecer todos os teus.
Se não forem eles, eu não te amo, pois não seria você.

Confiança

— Você é muito desconfiada.
— Eu? Desconfiada? Por que?
— Sim, você. Por exemplo, olha só quanto rodeio para falar as coisas, para concordar com algo, você pergunta tudo, parece detetive. Acha que vão te enganar.
— Eu não sou desconfiada, não.
— Claro que é.
— Eu confio em você.
— Vamos fazer uma brincadeira? Um pacto de sangue…
— Eu não vou tirar sangue.
— Estou brincando. Vamos fazer um pacto de confiança?
— Está bem. Eu confio em você, você confia em mim.
— Não, não é assim que funciona.
— Como funciona então?

Combinaram escrever em papel algo que não teriam coragem de contar e algo que não teriam coragem de perguntar, um ao outro.
Trocaram os papéis confiando de que ninguém os leria.
Não demorou muito para a conversa voltar.

— Escuta.
— O quê?
— Além de desconfiada eu sou curiosa…
— Eu sei, mas eu confio em você.
— Eu tive uma idéia. Em vez de testar a confiança em confiar um papel fechado. Podíamos confiar deixar ler o que está nele?
— Mas quem me garante que você não escreveu algo bobo e sem importância, já pensando em falar para abrirmos logo?
— Agora o desconfiado é você.
— E, se você ler algo que te magoe?
— Vai testar minha compreensão e minha humildade também.
— E se eu ler algo que me magoe?
— Vai testar minha sinceridade.
— Vai me testar também.
— Há as perguntas também…
— Não temos coragem de fazê-las.
— Mas ambos queremos as respostas.
— É uma troca então? Parece negócio.
— Que confiança maior do que deixarmos o outra saber o que está escrito ali?
— Mas ouviremos as respostas?
— O medo é de perguntar ou de ouvir a resposta?
— Talvez seja melhor testarmos logo. Se for o caso, melhor nós decepcionarmos logo.

Ambos só concordaram porque perceberam-se mutuamente apreensivos. E porque as frases da conversa pareciam trazer coragem e confiança. E também porque, se o outro não merecesse, bastava aí.

Abriram os papéis e sorrisos. Sentiram-se encabulados de desconfiar um do outro. Nos papéis, as coisas que diziam e as perguntas que faziam eram mais ou menos as mesmas.

Na verdade, eram o que já sabiam, sempre souberam.

Pas-de-Deux

Can you get it inside your head that from this one step forward there’s no turning back?
Can you get it inside your head I’m tired of dancing?
We’re finished dancing.

— Fish, A Gentleman’s Excuse Me

Wings Pas-deDeuxNunca fui de dançar. Experiência só tenho dos bailinhos de classe do primário, nem se fala mais em primário. Bee Gees, Jackson 5, Julio Iglesias, Manolo Otero. Não que gostássemos, éramos crianças, pegávamos os discos dos pais. Era o que tínhamos à disposição então. Nossos pais eram dos anos 70, da época da discoteca e daquelas músicas que eles se acostumaram a chamar de bolero. Uma vez um colega apareceu com disco dos Ramones, a professora censurou, trocou por Tim Maia.
Tantos dias iguais de aula! Esses bailinhos são lembranças que curiosamente marcaram, não pelo especial, mas pela farra que nos permitiam. As lembranças da dança improvisada são lembranças das meninas que estudavam comigo. Como se cada uma pudesse ser descrita pela impressão que causava ali. Óbvio que, convivência, diária, era ao contrário. A impressão que tínhamos delas durante a dança era contaminada pelo que já sabíamos.

Sempre me lembro primeiro da chata. Era uma garota bonita, mas ignorante e mal-criada. Convencida e metida demais. Pisava nos pés dos meninos reclamando que eles não sabiam dançar. Cutucava, fazia cara feia. Como era bonita, sempre um se aventurava para, no final, passar raiva. Volta e meia, alguém a largava ou era largado na metade da música. Não era só dos bailinhos que reclamávamos dela. Todos a referiam por substantivos ruminantes. Não era difícil associar o animal à pessoa. Era assim em tudo, o ano todo. Se mudou de escola, de uma hora para outra. Quando veio se despedir, foi ignorada por todos, quase fantasma. Ganhou um “ciao” constrangedor. Dois meses depois encontrei-a na cidade. Grávida. Nessa época tínhamos uns treze anos. Quando percebeu-me, via-se que morria de vergonha. Não deveria ser nada de mais, já vi crianças grávidas antes, mas a vergonha dela, tão metida, foi-me de um delicioso sabor cruel.

Havia outra chata. Não tanto quanto a primeira, mas lembro-me da desfeita. A professora obrigava todos a dançarem com ela, ao menos uma vez cada um. Ela achava que discriminávamos a menina por ela ser negra. Não, não era o caso. Metade da periferia é negra. Essa menina era discriminada porque era chata mesmo. Tão chata que se achava no direito de recusar os convites dos meninos negros, que mesmo assim eram obrigados a convidá-la.

Tanto não era preconceito que havia outra menina, muito amiga de todos nós, negra também, super magricela. Esse não era o padrão de beleza da época. Mas ela era muito legal. Amiga, companhia agradável. A disputávamos. Às vezes com discussão. Era uma das preferidas. Podíamos dançar com ela, aquele arrasta-pé que chamávamos de dançar, e, ao mesmo tempo, conversar, rir, era diversão. Eu a revi já tínhamos uns dezoito anos, linda de morrer e legal como sempre. Fiquei tentado. Ah! se eu não namorasse ou não fosse menino direito! Mais alguns anos depois, nos encontramos de novo, já adultos, perto dos trinta. Estava já surrada da vida. Cedo perdeu a beleza de adolescente e o espírito de criança. Não se a reconhecia mais. Cansada, desiludida, entregue. Não merecia.

Tinha também a gata da classe. Menina linda. Aos onze anos já tinha rosto e corpo de quinze. Todos babavam. Ela fugia das festas de nossa classe e ia para as dos mais velhos. Ficávamos indignados, com raiva dela e deles. Mas ela também era muito legal. Logo passava a raiva. No dia seguinte já brincávamos juntos de novo. Parou de estudar, não lembro porquê. Encontrei-a, tínhamos uns vinte anos, num bairro desses tipo condomínio aberto. Ela esperava alguém no ponto de ônibus. Um ponto antes do final, não fazia sentido esperar ônibus ali. Ainda linda. Cara de sono. Roupas curtas, maquiagem carregada. Achei que denunciavam como ela ganhava a vida. Fiquei triste e ela, quando percebeu que me toquei, ficou também, claramente. Chamou-me para sair, passear, beber algo e conversar. Nunca foi normal uma mulher bonita, assim, e assim, do nada, me convidar para algo. Perdi o rebolado. Dei uma desculpa esfarrapada e peguei meu caminho. Arrependi-me, depois, gostava de conversar com ela.

Aquilo que fazíamos na escola, pequenos, não era propriamente dançar. Crianças de nove, dez anos, imitando o que viam na televisão. Imitando valsa ao som de bolero e funk  (funk de verdade, não pancadão, por favor). Era dar passinhos de dez centímetro abraçados. Um passo pra cada lado. Dançar, me contaram depois, era outra coisa.

Minha adolescência, fim dos anos oitenta, começo dos noventa, foi no tempo das danceterias. Eram lugares para patys e boys (acho que foi nessa época que esses expressões apareceram) que iam “nos panos” para salões de festa no centro da cidade. Os tais panos eram as roupas de marca que faziam a paty pensar que o boy tinha onde cair morto. Nunca tentei ser boy, nem ir às dances. Hoje suspeito que tenha priorizado errado minha vida. É só suspeita, não posso sentir falta do que não vi. As músicas da época, o pessoal chamava de dance, e eu odiava. Gostava de rock, como meu irmão, baterista de punk. Talvez eu tivesse me aventurado a dançar se gostasse da música da época. Ou da música da próxima época. Nos anos noventa, o dance deu lugar ao sertanejo, que eu também não gostei. As danceterias acabaram sem que eu as conhecesse.
Voltou, depois, algo parecido. Meus amigos chamam de balada. Não tenho mais paciência pra isso. Depois de velho não. Não me arrependo de não ter freqüentado mas reconhece que é uma experiência a menos, não posso opinar sobre isso.

34b2df566cdf31b386f32a6fb59356e5Ainda assim, gostava de tentar algo do tipo. Do tipo dançar. Sozinho, não quero passar vergonha. Ou melhor, em casal, se é para dançar, que seja direito, em casal. Mas sozinhos. Uma coisa é me expor para quem eu gosto. Outra é passar vergonha. Num quarto, ou sala reservada. Tem que ser alguém que me deixe à vontade, afinal, nunca fiz isso antes. É sempre estranho ouvir alguém falar assim sobre algo que, normalmente todos já fizeram. Soa a mentira. E certamente serei tomado por mentiroso, até começar. Como é que se começa? Mão? pé? Encosta o rosto? Pode olhar? Encosta? Quanto?
Não sei, tenho impressão de que logo me sentiria um caso perdido e aproveitaria para parar a dança. Usaria, então, a música como trilha para outra coisa…
Haveria de ter paciência para me ensinar.

 

;)

Às vezes somos surpreendidos por coisas que não são de se surpreender.
São surpresas agradáveis as de que falo.
Quando encostei o carro e olhei a hora, fiquei chateado, demorei mais que o normal dirigindo. Era tarde já.
Eu nem dei “ciao”, e hoje que nem tive tempo de escrever nada.
Logo hoje que estou precisando de ois e, menos, de ciaos.
Tinha um texto onde só faltavam duas ou três linhas, podia fazer isso depois, restavam ainda uns minutinhos pra procurar sinal e dar um “oi, ciao”. Porcaria de operadora. Mas, quando consegui o sinal, fiquei feliz em dobro.
Já tinha um oi lindo me esperando.

20140506-195141.jpg

Corujas

fantasy night moon fantasy art the sun owls digital art 1683x1050 wallpaper_www.wallpaperhi.com_75

É dia, manhãzinha. Acaba de aparecer a primeira luz do sol.
Ainda estamos acordando, indo pro banho e para o café da manhã.
Mas agora mesmo, em algum lugar da mata, e não apenas um lugar de uma única mata, tenho certeza, duas corujas acabam de chegar a seu ninho, depois de uma noite de trabalho e se encostam uma a outra. Encostam os corpos, esfregam os bicos.
Não precisam do calor uma da outra para se aquecerem. O sol já vem trazendo luz e calor. Se chegam porque precisam esquentar algo mais antes de dormirem escondidas, esperando a próxima noite.

Anyway

Morrer acordado deve ser medonho! Quero morrer dormindo.
Aquela cena do mocinho se despedindo do amor de sua vida, a mão perdendo força, os olhos se fecham junto com o último suspiro, serenos, uma morte emocionante e digna. Isso não existe. A morte é sempre medonha. Quero que a minha me pegue inconsciente. De preferência dopado, gozando alegres sonhos de paraíso.

Sem homenagens. Quem não me homenageou em vida, não o faça na morte. Morto é surdo. Aqueles discursos sem sentido ao lado do caixão, da cova, do forno. Guardem para suas orações, se elas forem sinceras. Senão, nem apareçam. Por isso, o padre apenas faz uma oração em silêncio. Com o seu silêncio, respeita o meu.
O caixão sóbrio, modelo básico. Acho que essa é minha última frescura, post morten já. Sem flores, coroas, faixas. Sem bandeiras. Morro de medo de morrer no exterior e me cobrirem com a bandeira do Brasil. Que simbologia! Ferrado em verde-amarelo mesmo após a morte.
Se bem que a bandeira do clube eu aceitaria com muito gosto. Ele e os irmãos, foram as únicas coisas que me acompanharam a vida toda. Essa bandeira, por cima do caixão, como me abraçando, assim como o clube, mais que distração, me abraçou a vida toda, especialmente nos momentos difíceis.

A Boat to the MoonOs irmãos, é estranho, já enterramos um, há muito tempo, era o mais velho. Eu já conheço essa sensação. Agora sou eu. Eles logo vão superar, mas, quando um irmão se vai, um pedaço nosso vai junto. Percebemos que podemos viver plenamente sem esse pedaço, mas sempre lhe notamos a falta.

As crianças, já crescidas. O pai já não pode mais cuidar delas. Deixo-as com pena, mas as criei para isso. Não queria mesmo é que passassem por este transtorno que deve ser enterrar o pai, arrumar papelada, cartório, fisco. Brasileiro não se tem o direito de ser feliz. Nestas horas, percebemos, nem o de ser triste em paz, no seu canto.

A ex nem precisava estar aqui. Não veio por minha causa. Veio para se sentir bem consigo mesma. Fingir que se importou e fez o possível. Oportunidade teve.

A esposa, junto do caixão. Não falo dela por último por desfeita. É porque me acostumei a ela como se fosse parte de mim. E aqui ao meu lado, far away, so close. Não a quero chorando. De uma coisa me arrependo. Tentei muito, mas acho que nunca consegui que ela soubesse o quanto é importante pra mim e toda a felicidade que me trouxe. Triste mesmo, agora, é não poder mais tocá-la, não conseguir fazer-lhe carinho, um beijo apaixonado, falar algumas coisas em seu ouvido. Nem sinto o selinho que recebo. Ela não chora. A cara é de quem se lembra de coisas boas, com saudade. Não podia ser mais perfeita! Por ela eu temo. Temo não ter-lhe retribuído, te-lhe tomado tempo. Será que acertei? Que ela tem mesmo boas lembranças. Tantas quanto eu tenho? Espero que ainda seja muito feliz! Cada dia mais! Ela merece!

Os amigos, dois ou três estão presentes. Amigos mesmo, não tive muitos mais que esses. Os outros, também poucos, sabem que não faço questão que venham e se recordam de mim noutro lugar agora. Colegas não quero por aqui, não é circo, não sou atração.

O caixão fica ali aberto apenas o mínimo que a lei exige. Ao fechá-lo, cada um se lembra de alguma música que eu gosto. Ouvirei-as em memória por quanto durar a vida eterna.
Ser enterrado, queimado, reciclado ou usado em laboratório, não me faz diferença agora. Façam como quiserem ou, para me deixar mais feliz, como lhes cause menos transtorno.

Agora só quero descansar em paz, sozinho, com as boas lembranças.

Boat to the Moon

 

Primeiro Vôo

 

Minha admiração por pássaros, morcegos, insetos voadores, não é antiga. Eu já era adulto crescido quando comecei a reparar nesses bichos e a me embevecer com sua capacidade de bater asas e alçar vôo, sua coragem de confiar nesse vôo, sem nada que lhes apoie além do próprio esforço. O vôo é, acima de tudo, um desafio do animal desamparado à natureza toda.

Toda admiração tem um fundo de inveja que, mais cedo ou mais tarde, se torna consciente. A minha se tornou. Invejo o bicho que, sem saber porquê, teve coragem de saltar do ninho, de braços abertos, como talvez tenha visto outro fazer, sem saber se conseguiria, mas tendo certeza.

Em sonho, uma vez, uma única, ganhei asas. Eu não sou pássaro. Não tive o instinto ou a coragem de saltar para o mundo. Acovardado, chorei e me segurei ao que pude, evitando até o último minuto descobrir se minhas asas funcionavam, se eram de verdade, se as sabia usar.

Quando deixei o chão, não foi num salto heróico, de braços abertos. Foi expulso, hostilizado, atirado violentamente contra minha vontade.

Voar? Consegui. Depois de muito esforço e desespero para não me esborrachar. Daí, logo meu vôo se tornou uma disparada livre, arrebatadora. Voei rápido, muito rápido. Da altura nem sei. Não prestei atenção. Só queria saber da velocidade e da sensação de me sustentar sozinho, sem ajuda de nada ou de ninguém.

Voei, voei. Voei.

Voei sem olhar, até tocar algo. Uma espécie de teia. De aranha? Teria de ser uma aranha absolutamente gigante!

Não era de aranha. Não era grudenta. Era como uma rede de linha, de barbante, corda. Como as usadas para pescar. Eu era um pássaro em alguma espécie de arapuca?

Imediatamente senti-me arrastar para a sombra. Onde estava? Quem me arrastou, para onde?

Nessa sombra, não a da noite, era como a sombra de um teto, senti ser pousado, a rede comigo dentro, em algo. Logo algo me esmagou. Uma pancada? O quê? Quem? Por que? Não tive tempo para essas perguntas. Logo morri. Sem respostas. E nem me faria diferença tê-las.