2008, Dia de Semana, Parque

Trabalhei à noite, até umas três, por isso dormi de manhã, tirei o dia de folga.
Quando acordei, pelas dez e pouco, várias ligações perdidas, alguns SMSs. O pessoal do trabalho é muito cara-de-pau! Ninguém pra perguntar se estava tudo bem. O SMS mesmo dizia tudo: “A que hora você vai chegar?” Não vou nem chegar, nem responder.
Quem trabalha mais do que o dobro do que devia num dia, no dia seguinte, o mínimo que se espera é que descanse. Falta de consideração tem limite.
Sono também tem limite, o meu se espalhou. O metal da janela estava quente já do sol, incomodava. O desaforo do SMS mais ainda.
Café na padaria. Depois, o que fazer? Eu tinha o que fazer, banco, conserto da porta, cabos pra passar. E não iria fazer nada disso, me trancar em casa sozinho o dia inteiro… Queria companhia, todo mundo que eu conheço estava trabalhando.
Peguei um livro e fui ler no parque.
Tem um parque mais ou menos perto de casa, não gosto muito, é descampado, o trecho arborizado é pequeno, mas o caminho é por dentro do bairro, não pego trânsito para chegar. Para mim, não gosto de dirigir, isso é uma grande vantagem.
Lá tem um bom pedaço de concreto liso, acho que foi projetado para serem quadras esportivas, a ciclovia também, plana, lisinha, perfeita, caminhos muito bons para patinar.
O estacionamento é muito bom. Do estacionamento até o parque é uma rampa bem longa e inclinada, murada, sem vista. Eu abri meu livro e já fui lendo, andando devagar.
Terminada a rampa, tem uma construção, um prédio baixo inacabado, você precisa dar a volta pra chegar à área pública do parque em si.
Dada essa volta, abaixei o livro, são uns quatro playgrounds, quadras, passeios. Não havia muita gente. Dia de semana. Nos fins-de-semana, ali é uma multidão, diversão boa, de graça, estacionamento, espaço para namorar, lanchonete, a área de eventos.
Com o pessoal que estava ali naquele dia, eu não tinha nada a ver. Adolescentes jogando basquete, aprendendo acrobacias de patins, skate. Outros jogados pelo chão, em rodas, uniforme de escola e mochilas, mais jogadas ainda, denunciavam a aula cabulada. Aposentados passeando sozinhos ou se exercitando em pequenos grupos unissex. Meia duzia de donas de casa, de corpos bem feitos, correndo enquanto acreditavam que os filhos estivessem na escola.
Uns pensamentos me deixam triste. Olho para o chão, vejo bem a qualidade do piso, dos vários tipos de piso do parque, está seco. Ainda vou cruzar boa parte do parque para chegar às árvores. Quando cansar de ler, vou patinar um pouco.
Aquele livro, na verdade, nem me dá muita vontade de o ler. É que já comecei, preciso terminá-lo. E ele serve para eu não olhar muito para aquelas pessoas estranhas. Estranhas para mim, e eu para elas. O livro só tem palavras, palavras eu conheço, não nos estranhamos.
Também não consigo evitar pensar que o tempo livre é raro, se quiser terminar esse livro, tenho que aproveitar.
É com o livro na mão esquerda, a dois palmos do rosto, que eu caminho bem devagar, não tenho pressa, para os bancos, nas árvores, no lado do parque onde não tem estacionamento.
Me disperso bastante. Toda hora, procuro. Procuro uma flor, um pássaro, a bicicleta que passou, quem está aqui, quem vai ali, o quê que passou por lá.
No primeiro banco, mas esse eu não queria, havia um casal. Namorando, provavelmente. Sentados de frente um para o outro, cada um com uma perna para cada lado do banco. Vê-se pelas roupas, e pelas caras, que não são boyzinhos, classe média, nem mais que média, como a maioria dos outros adultos que costumam freqüentar este parque. A esta hora, supõe-se que estivessem no trabalho. Parque ainda é um lugar quase democrático, que as pessoas ainda não conseguiram estragar, embora as daqui do bairro tentassem, não há ingressos, sócios ou restrição de freqüência. Esse casal, imagino que trabalham em horário alternativo ou estejam desempregados.
Depois desse banco, há uma alameda, os seguintes ficam junto a um playground. Cheio de mães e babás com crianças. Sempre me olham como se eu fosse o homem do saco. Não gosto dali. Há outros bancos.
Eu sei mais ou menos onde estão os outros bancos todos. Ando lendo e escolhendo. Alguns não quero por ficarem em lugares sem vista, ou não terem sombra, ou estarem sujos. Percebo que, depois de rejeitar os primeiros cinco bancos, tornei-me muito crítico com os seguintes e os rejeitarei todos também. Essa ranzinzice me decepciona. Me decepciono comigo. Não vou me sentar. Continuo lendo enquanto ando devagar, galhos das árvores passam sobre minha cabeça, às vezes tenho que desviar ou me abaixar.
Continuo disperso. Alguns atletas, parecem ser profissionais. Mais adolescentes matando aula. Crianças, da favela, se não fossem não andariam sozinhas ali, é longe para quem vem a pé, as avenidas são largas e muito movimentadas, caminho perigoso para crianças. Mas quem vive em favela aprende a se cuidar sozinho logo cedo.
A lanchonete, uma delas, a melhorzinha. Talvez depois eu coma um lanche. Não quero gastar, nem é pela economia, a gente acaba se pegando em comprar coisas, pelo prazer de parar e comprar e não porque precise. Eu já comi meu pão-com-manteiga tarde e não vou já almoçar, ainda mais essas porcarias de lanchonete. Se aqui tivesse café, eu não resistiria. Coxinha, sanduíche de lingüiça, hamburguer industrializado, a isso eu resisto fácil. Inclusive, meu corpo agradece, perdi a linha de novo. Estou muito gordo. Não vou comer a tranqueira, aproveito o passeio como se deve, como se deveria. No meio da tarde, vou embora e como algo decente.
Adolescentes namoram sentados ou deitados na grama. Espertos, ficam mais para perto dos arbustos do que da trilha. Que delícia! Saudades desse tempo que eu não aproveitei. Eu estudava muito. Menino feio, inteligente. Caí na conversa dos adultos. Me disseram que eu teria muito tempo pra aproveitar a vida. Que adolescência e juventude eram para se preparar, estudar, ralar, dar muito duro, por que assim, com esforço e educação, eu teria futuro, emprego… Realmente um bom trabalho eu tenho, e me julgo bem competente nele. O tal futuro, espero que, algum dia, eu o tenha, o que tenho hoje é um presente insosso de adulto medíocre.
No parque, os caminhos possíveis não parecem muitos. São longos, com poucos cruzamentos, poucas opções. Você escolhe um caminho e o segue, longe. Quinhentos metros, um quilômetro, dois, demora a chegar num cruzamento onde possa trocar de caminho.
Dispersando, o livro acabou por ser uma companhia particularmente agradável. Andei o parque todo, alguns caminhos mais de uma vez. Quando acabou eu estava onde conseguia ver aquele casal do primeiro banco. Abraçados agora, lado-a-lado. Ela com a cabeça encostada no ombro dele. Ainda conversavam.
O livro já é um peso morto. Meus patins estão no porta-malas, sempre estão.
Atravesso a área descampada, de cimento, para o estacionamento, até o carro, sem pressa, mas já não é mais aquele passinho curto de formiga.
Largo o livro sobre o banco, tiro os tênis e as meias. As que visto são bem mais altas e grossas. A camiseta, troco por outra de algodão bem grosso, visto uma blusa de moletom e, por cima de tudo, o blusão de hockey do Colorado, vermelho. Não. Não quero vermelho hoje. O de Edmonton é azul, bem azul, azul marinho. Melhor. Cor fria, vai combinar melhor com esta tarde quente. O blusão foi presente de um amigo que mora no Canadá, ele se revoltou por eu ter pedido para me trazer um blusão de um time americano
(embora fosse de um goleiro canadense). Ele viu por bem me trazer o que eu pedi e, de presente, também o do time de sua cidade.
Os outros vão estranhar, eu vestido com tanta roupa, num dia quente. Não é nenhum sol de rachar, mas estamos no começo de outubro, já está quente.
Dane-se o que vão pensar, tombo de patim é violento. Machuca braço, ombro, quadril, joelho. Dane-se o joelho, não vou pôr calça. Precisa entrar no carro pra trocar a calça. Prefiro ficar com a bermuda, é bem comprida, feita de jeans grosso, quase lona.
Luvas eu uso, de couro, dedos cortados pela metade, igual luva de goleiro de salão. Machucado na palma da mão é o mais comum nos tombos bestas, e incomodam depois no trabalho.
Joelheira, cotoveleira, capacete, isso tudo me recuso a usar. Recomendo, mas acho ridículos. Tenho o direito de, se cair, me machucar todo mas com dignidade. No tombo, o que mais dói mesmo, são os outros olhando e vindo acudir como se você tivesse se aleijado. Esse é meu medo. Não do tombo mesmo. De chamar atenção. De resto, muito agasalho, pouco equipamento.
IPod ligado. Fones que prendem com laço em torno da orelha são a parte principal. Preciso de música, toda hora. Acidente fatal mesmo são os fones caírem logo na melhor parte da musica.
Os patins, levo na mão enquanto subo o morrinho gramado. É melhor do que patinar subindo aquela longa rampa de cimento. Chego na pista de ciclismo, é ali que eu mais gosto de patinar. No espaço normal da patinação, têm muitos adolescentes e adultos ainda jovens. Não quero me misturar com eles. Não é preconceito, só não são a companhia que eu queria agora.
Calço os patins sentado na beirada do caminho, bunda na grama. Estão meio apertados. Calço 44/45, é difícil conseguir patins nacionais do meu tamanho. Estes são 43. Na verdade, apertam bem. Eu deixo o cadarço frouxo, a meia é bem fofa. Ainda assim os dedos entortam. Preciso comprar patins importados, é mais fácil achar meu número. Por enquanto, estes valem o sacrifício.
Alguns passos, testo as rodinhas. Não uso sempre, tenho que me acostumar com a altura antes de sair feito um velho retardado.
O caminho que faço, é sempre mais ou menos o mesmo. Vou percorrer o parque todo, quatro, cinco, dez vezes, pela ciclovia e pela calçada. A área de patinação mesmo, eu deixo para os moleques que gostam de fazer acrobacias, prefiro só passear. Até escurecer e não enxergar mais o caminho.
Esqueço que eu ia sair para comer algo. Eu como depois, à noite. Ou noutro dia. Posso comer a qualquer hora, para patinar, não tenho muita oportunidade.
No começo, tenho cuidado. Na segunda volta já estou a vontade e patino, não com velocidade, tenho medo de machucar alguém, mas já descuidado, sem prestar mais atenção no chão, no beirada da pista, no desnível entre a pista e a calçada, ou no degrau para o bebedouro perto do banheiro.
Nessa tarde, foram acho que dois tombos. Doeram só no dia seguinte.
Rodei, rodei e rodei o parque por horas que me pareceram minutos, até ser expulso pelos guardas, no escuro, com os portões fechando.
No estacionamento, junto ao carro, tirei o blusão, e o moletom. A camiseta suada logo gelou. Percebi que a noite já seria fria.

4 comentários em “2008, Dia de Semana, Parque

  1. Despretensiosamente desenhou um futuro no presente… Se não percebeu deveria ter percebido… Ou não mesmo… A graça está exatamente nisso

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