Le Sanglier

conchinhaEra uma vez um sábio chinês que um dia sonhou que era uma borboleta, voando nos campos, pousando nas flores, vivendo assim um lindo sonho…
Até que um dia acordou e, pro resto da vida, uma dúvida lhe acompanhou:
Se ele era um sábio chinês que sonhou que era uma borboleta, ou se era uma borboleta sonhando que era um sábio chinês…
— Raul Seixas, O Conto do Sábio Chinês

 

A parte que mais gosto deve ser este beijo que começa carinhoso, com olhares já conhecidos e, depois de vários minutos, se torna um atiçar e explorar.

Não que eu despreze o que vem depois. O despir-te bem devagar, te beijando cada pedacinho de corpo descoberto. Sempre me detenho bem em teu pescoço, nos ombros, adoro. Depois no colo.

Gosto de, cada vez, tentar descobrir um lugar novo, um arrepio, que você goste e eu ainda não conheça. Parar minha boca onde você mais gosta e ficar assim por horas, como se estivesse ainda te beijando, e estou. Estou te beijando ainda. Ainda este é o mesmo beijo que começamos na boca e continua enquanto continuar assim este acelerado no coração e esta necessidade de teu calor junto ao me rosto. Te sentir tremer até achar que você não agüenta mais, que a tua câimbra já é mais mais forte do quê te agrada e que já começa a te incomodar.

De virar-me de novo para teu rosto então, e agora não só beijo, mas também beijo. Tuas pernas em borboleta em torno de mim. Nosso abraço, ora bem apertado, ora procurando um jeito de apertar mais. Minhas mãos por vezes escorregam em tua transpiração. Fico feliz, me envaideço por você transpirar comigo. Quero sentir isso mais. Me torço, me estico, quero que fiquemos cada vez mais juntos, grudados. Fico aflito achando que não seja possível. Quando você me puxa para si, percebo que sou querido e procuro teu rosto também mais próximo do meu. Com cuidado para minha barba mal-feita não te machucar.

Sinto os teus espasmos e quando o meu chega, lamento ele não se atrasar mais. Cansado, mas já não quero mudar de posição. Está tão quentinho, tão gostoso! Fico assim, curtindo meu estremecer e teu olhar, até achar que você percebe que peso. Procuro, então, tentando demonstrar o máximo de carinho para que você não pense que enfastiei-me, escorregar para suas costas. Te agarro a cintura para que saiba que ainda te quero. Logo depois, não tarda, percebo que é mais gostoso abraçar com minhas mãos em teu ventre e teu seio. Não por esses lugares nos excitarem, mas porque meu peito e minha barriga se encostam melhor a tuas costas, minha virilha a teu quadril, minhas pernas às tuas. Também tomo cuidado de ajeitar-te o cabelo, preciso ver teu rosto, sempre. Minhas mãos procuram as tuas. Você sabe que quero que você me ajude a te encontrar e a descobrir mais a cada dia o que você gosta. E é mais ou menos assim que te sinto tremer de novo. E também é mais ou menos assim que me entorpeço em você de novo. Perco o sentido, a razão, é como se pensasse não com a consciência, mas com a pele. Com cada pedaço de mim que te toca. É como se pensasse mais conquanto maior o contato e a pressão. Não sei quanto tempo passamos assim, mas, quando paramos, é como acordar de um sonho gostoso e percebo que o torpor de nos termos foi, para mim, o mesmo de quando percebo que estou no mais agradável sonho e me deixo ficar ali, saboreando o descanso, o aconchego e tudo de bom que há a sentir. Me emociono, não sei se é certo homem se emocionar nessas horas, mas me emociono feliz porque sei que você não me julgaria mal por isso.

Você está suada, o suor com teu perfume fica gostoso demais. Você tentaria se levantar para tomar banho, mas sabe que não quero desgrudar de você. Principalmente agora, de jeito nenhum. Fico ali, abracado por trás. Me esforço pra ver teu rosto. Será que está com aquele sorriso lindo que eu gosto tanto? Está. Parece-me até que sempre está. Pouso o rosto em teu ombro como criança espiando de trás da porta. O sorriso esta aí, mas os olhos estão fechados, é sono? Descansa. Descansa, então.
Te cheiro de novo e, com a mão, te aperto para mim. Um ventinho me incomoda as costas, as minhas também estão suadas, e muito. Acho que você deve estar com frio. Puxo o lençol, até teu peito, parece tomara-que-caia. Acho que você gosta de eu lhe cobrir: tua boca se abre e agora o sorriso te mostra os dentes.

Ali juntos, tão juntos, com esse lençol leve, quem não prestasse atenção talvez não percebesse que somos dois. Parecemos um pacote, embrulhados, um casulo. E fecho os olhos para descansar também. Também sorrindo, porque imagino que possamos acordar uma única e linda borboleta.

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