Deserto

O sujeito que vive num deserto desses bem extensos, o Saara, a Arábia, o Outback, por exemplos. Embaixo só areia. Em cima só sol. Ao redor um mormaço infernal. Ele precisa passar o dia todo enrolado num cobertor grosso para não queimar a pele toda e nem assas com o calor. De tão quente, o cobertor que usamos para não deixar o corpo perder calor, eles usam para não deixar ganhar. Sua vida é viajar parando de poço a poço, e são dias de um poço a outro, à procura de água.

Ele fica feliz de lhe acompanharem sua família, seus amigos, sua tribo (se é assim que chamam). Faz fogueira à noite para cozinhar e se aquecer. E o pior do deserto dizem que é isso, ele é muito quente de dia, mas muito frio à noite, de congelar o sangue nas veias. Em volta do fogo, come, canta, conversa, deve alguém tocar alguma coisa, olha para o céu mais perto que existe sobre a terra e se diz abençoado. Imagina a inveja que temos das estrelas que ele consegue ver tão nitidamente. Deve ser por isso que tantos desses países têm estrelas e luas em suas bandeiras.

Nós aqui, nossa imaginação, as notícias e algum preconceito nos levam a crer que esse deserto seja cercado de cidades miseráveis e em pé de guerra, isso quando não em guerra constante. Também o achamos privilegiado, abençoado mesmo, por estar no deserto e não nas cidades que o cercam.

Mas, e isso pode ser por limitação de meus conceitos ou pura arrogância minha, quando encontro uma flor bonita… Quando encontro uma rosa delicada e fresca, alegre, alheia ao que há de ruim no mundo… O que imagino é se ele, encontrando-a também, enxergaria a beleza que vejo nela e se consideraria, se seria tentado a isso, abandonar o deserto para descobrir como é, de perto, um jardim.