Avestruz

O cara era meio esquisito, isso já se sabe. Não tinha uma alimentação muito saudável, enbora comesse pouco. Aliás, dizia, tudo bem comer pouco, mas comer bem. Manteiga, pão, muito café. Ainda assim, não era da gordura que se esperava que morreria, do coração, pressão ou diabete. Antes, esperava-se que a loucura o matasse, ou o fígado. Não devia ser deste mundo.

Fazia coisas que gente deste mundo não se espera que faça. O chápeu fora de moda e as costeletas volumosas, quase suiças, que nada tinham a ver com as roupas de liqüidação de supermercado. Muito menos essas com o local e a ocasião. Bom, é bem verdade, com ocasião nenhuma. As longas caminhadas na hora do almoço, sem destino, a volta ao quarteirão. Que seria algo normal, não fosse o quarteirão um grande condomínio cercado pelo muro alto cinza que não dava vista a nada. Coisas que dizia com frequência, sem sentido, pareciam tiradas de relatos clínicos tomados num hospício. E quanto mais loucas as coisas que dizia, mais entusiasmado é apaixonado parecia por elas. Tomavam-no por maluco, ou drogado.

Álcool, dizia beber muito. Uísque, vinho, conhaque. Mas nunca foi visto com o copo na mão. Assim como, embora muitas fossem suas escapadas a pretexto de fumar, também nunca foi visto com cigarro ou isqueiro. Drogas eram, então, a óbvia conclusão dos que não o tomavam por maluco. Mas esses eram poucos. A grande maioria realmente temia pelo dia em que seriam incomodados pelo rabecão do hospício à sua caça. Muitos, por isso, lhe tinham medo.

E quando digo medo por isso, vejam bem, não é pela possível maluquice. Mas pelos mesmos motivos que os levaram a julgá-lo louco. Ora, havemos de temer a alguém que não se comporta como os outros, que não age como nós mesmos faríamos, a quê então temeríamos? Pode haver coisa mais assombrosa do que conviver com alguém cujas reações não sejam previsíveis e comuns à nossa própria normalidade? Se xingo-te a mãe e me respondes com outra ofensa ou com um soco, tudo muito bem. Mas, se, por galhofa, te empurro ao descer uma escada, para rir de teu tombo ou do esforço em não se esborrachar e, em vez disso, o que vejo é outra galhofa, que mais parece um passo de balé, acompanhada por risada e um grito histérico a chamar a atenção de todos que mata a mim mesmo de vergonha por ser tomado por amigo de alguém assim maluco… o que pode ser mais assustador?

E protagonizar cenas assim inesperadas e assustadoras não lhe era incomum. Poderíamos mesmo dizer que era um inusitado costumaz. De que outra forma haveríamos de chamar alguém que, encontrando uma mariposa machucada, a recolhesse do chão com todo cuidado, com carinho mesmo, pode-se dizer, e a jogasse para morte certa junto a um ninho de sabiás? Tenho minhas suposiçoes sobre isso. Você, que lê, tem as suas. Ele, só ele sabe porque fez assim.

O dia fatal começou normal. Era sexta-feira, como todas as de todas as semanas. Chegou cedo, como chegava todas as sextas-feiras. Normalmente se atrasava ou chegava em cima da hora. Nas sextas-feiras, não. Algo elas tinha de diferente dos outros dias, embora sempre iguais umas às outras. Pegou um pão de queijo e um pingado na lanchonete e se sentou na guia da calçada, olhando a terra em torno das plantas. Digo olhando a terra, mas podiam ser formigas, folhas caídas, quem sabe? Talvez guardasse se as raízes de alguma planta tentassem crescer tortas para fora da terra. Que faria então? Enterraria-as de volta? Comia o pão de queijo com preguiça. Preguiça de mastigar, mas também sem pressa de lhe arrancar pedaços pequenos com os dedos. Talvez tivesse alguma constante dor de dentes, pois nunca se soube que mordesse e arrancasse com os própios dentes um pedaço do pão de queijo. No pingado, dava bicadas, mínimas também, até terminar de comer. Daí pegava o copo e terminava, a bebida provavelmente já gelada, em dois ou três goles grandes. Ainda olhava um pouco à volta, talvez para verificar se o mundo não havia mudado durante seu desjejum, e piscava os olhos várias vezes antes de se levantar e entrar. Levantava-se com a preguiça de quem acorda, mais devagar ainda do que comia. O movimento lento automaticamente espreguiçava e alongava os músculos de seu corpo como naquele desenho animado da flor no vídeo do Pink Floyd. Aquele em que a flor cresce, se estica e abre devagar antes de engolir algo. Ele, se era uma flor, engoliu antes.

Entrou. Subiu as escadas puxando-se pelo corrimão como se ele fosse o cipó do Tarzan. Sentou-se entre os colegas com cara de enfado e o olhar baixo direto para a mesa. Tornozelos cruzados embaixo da cadeira. Cotovelos apoiados na mesa. Tão igual quanto todos os dias de semana são iguais. De quando em quando passava a mão sobre parte da testa e sobre o olho. Espreguiçava as pálpebras e bocejava. Devia ser um exercício aumentar a tolerância ao fastio. Isso parecia acordá-lo por alguns segundos. Neles, olhos arregalados, olhava para a frente, depois corria as meninas dos olhos de lado a lado, via tudo à sua volta. Tomada essa consciência da existência do resto do mundo e de que continuava vivo nele, adormecia de novo a cabeça baixa, novamente mergulhado em prestar atenção à própria mesa.

Chamavam-no Avestruz. Tanto pelo pescoço e pernas compridos, coincidência apenas, quanto, e mais tanto, pela cabeça baixa concentrada no que fazia. Parecia que a tinha enfiada no buraco de um poço e que ali era capaz de passar horas procurando algo ao fundo.

Às onze, em ponto, podia-se dizer com certeza que eram onze em ponto, pois coincidiu com a sirene da telefônica — a sirene do prédio da companhia telefônica tocava breve a cada hora cheia, dia ou noite, exceto ao meio-dia, quando tocava longo — ele começou a se encolher na mesa com cara de quem está chupando algo muito azedo. Os olhos e a boca apertados. Os músculos se enrijecendo enquanto se encolhia, dobrando-se. A mesa virou recheio de sanduíche entre seu tronco e suas pernas. Levando os joelhos em direção à cabeça, chegou a tirar a mesa do chão, suspensa por eles. Isso sem ruído ou gemido nenhum. Aliás, foi como se tudo ao redor, de repente, silenciasse. Como quando se cai de cabeça no chão duro e a pancada, reverberando pela caixa craniana, abafa em susto e analgesia qualquer barulho. Fica só aquele zumbido metálico, bem fraco, perdido no fundo do labirinto do ouvido. Tudo se calou. Conforme reparavam e se tocavam do que acontecia, todos ficaram quietos, pararam e, boquiabertos, assistiram confusos, sem saber o que era realmente aquilo, ou o que fazer. Até que ele afrouxou as pernas, pendeu para frente, a mesa caiu para frente, e então ele pendeu para trás, a cadeira se desiquilibrou, como a balança a que lhe retiram a mercadoria ou o fiel, e caiu para trás. O barulho então, primeiro que se ouviu, foi de sua cabeça, batendo forte, pesada e dura, contra o piso.

Assustados, a maioria, só dois se chegaram para tentar ajudar. E nem conseguiam imaginar como. Não puderam com seu peso, o que era de se adminirar porque, embora acima do saudável, estava longe se ser grande a ponto de dois não lhe conseguirem levantar. Um terceiro ligou aos bombeiros, pedindo por socorro.

A cena, em torno, era de curiosidade e medo. Curiosidade que se explica. Medo que, em outra situação, provocaria risos. Como se o infortúnio fosse contagioso. Os de trás erguiam a cabeça por cima dos outros, espreitando. Pareciam ter medo de que serem pegos olhando o colega caído lhes trouxesse algum mal.

Os bombeiros não demoraram, pareciam mesmo premeditar o ocorrido e já estarem por ali de prontidão. Vieram em dois, fortes, de camiseta vermelha com grossas jaquetas e calças de brim cáqui. Junto um médico, ou enfermeiro, novo, franzino, camiseta e jaleco brancos tradicionais, bolsa de couro que me lembrou a marmita de meu pai.

Ajoelhado, em um joelho apenas, o outro pé postado, ao lado do desfalecido, cumpriu o ritual que aprendeu na faculdade. Auscutou-lhe o peito em vários lugares, o abdôme. Sentiu-lhe o pulso. Iluminou os olhos, a orelha. Voltou ao peito, de novo com o estetoscópio, depois com a mão. Por fim com o ouvido, encostado ao peito do paciente.

Cara assustada. Pegou da mala um bisturi grande. mãos firmes as do médico, mas seus olhos tremiam. Rasgou-lhe a camiseta, à partir da quina do “V” da gola. Passou-lhe os dedos pelo peito procurando algo. Tomou pressa então, com dificuldade, forçou um corte perto do pescoço e foi descendo até quase a barriga. Nunca imaginei que fosse tão difícil cortar alguém. O médico também parecia nunca ter imaginado. Largou o bisturi de qualquer jeito no chão. Xingou. Deve ter percebido que fez besteira. Se precisasse do bisturi de novo, ele estaria contaminado. Com as mãos, protegidas por luvas ensangüentadas, lambuzou a bolsa de couro preto procurando algo. Pegou uma ferramenta grande que parecia uma furadeira. Testou no ar. Era uma serra elétrica.

Tateou o corte feio, sujo de vermelho e preto que fez no peito do paciente. Afundou ali um ou dois dedos de um jeito que me revoltou o estômago e, tenho certeza, teria revoltado também o dele, não fosse a adrenalina do susto, do medo e do medo de não conseguir. Ligou de novo a serra e serrou ossos ou outras coisas que eu nem imagino existirem ali. Demorou serrando. Testava tateando com os dedos por dentro do corte. serrava mais. Mexeu de novo na bolsa. Agora sujou-a com poeira e lascas que saíram do corte. Pegou uma espécie de morsa. Fixou-a no peito da vítima e girou uma chave, separando-lhe os dois lados do peito aberto. Serrou mais, separou mais. Tateou. Enfiou a mão, procurando algo. Com a mão direita dentro, usou a esquerda para forçar mais o peito a abrir. Ouvi algo se quebrar, deviam ser ossos, quando o rosto do médico se aliviou e, ato contínuo, algo apareceu se mexendo na abertura do peito.

Algo procurava passagem. O médico forçou mais uma vez a abertura com as duas mãos. Um guincho foi ouvido e o que tentava sair se soltou. O coração. Grande. Pulou para fora do peito e alçou vôo. Vermelho, tingindo-se de colorido ao procurar uma janela que lhe chegasse ao céu. Saiu por ela, batendo barulhento, como se batesse asas. E talvez as tivesse mesmo.

Coisas para eu fazer antes de morrer…

◽️ Acampar em casal numa barraca.

◽️ Sexo numa chuva forte (e quentinha).

◽️ Passar a noite conversando na areia da praia.

◽️ Passar a noite num chalé no alto de uma montanha e acordar cedo para ver o sol nascer tomando capuccino.

◽️ Andar muito, por dias, pode ser o Caminho de Santiago, o Caminho de Aparecida, atravessar a Sibéria, subir o Kilimanjaro, ou caminhar pelo fundo do mar até Angola, desde que eu ande muito sem ter de dar satisfação a ninguém.

◽️ Chegar à África de navio.

◽️ Colher uma edelvais e voltar para casa correndo feliz dá-la de presente.

◽️ Ver a aurora-boreal.

◽️ Solar num concerto de contrabaixo.

◽️ Chegar ao fim do arco-íris.

Isso pra não falar em descer as cataratas num barril, né, Pica-Pau?

 

Quase um Ano

Eu, ultimamente, não estou muito inspirado para escrever.

Ando sem muitas idéias de histórias para contar e também com dificuldade de prestar muita atenção. Além disso, tenho me sentido muito cansado à noite. As madrugadas sempre foram meus horários preferidos.

As coisas que tenho escrito não yêm me agradado, muitas eu jogo fora ou num canto sem postar. No fim-de-semana, postei uma que estava em rascunho há algum tempo. Mas parece que escrevi sem prestar atenção. Ficou horrível.

Escrevi mais uma hoje que resolvi não postar. Escrevi com pressa e sei que não vou conseguir passar a limpo tranqüilo. E também, ao que me lembro dela, não vai agradar a ninguém. É só mais do mesmo. Talvez a vida seja mesmo só mais do mesmo. Especialmente as descrições do quotidiano me parecem, cada vez mais, mais do mesmo.

Acho que, por isso mesmo, comecei a escrever algumas coisas sobre os filmes que vi. Não deveriam ser histórias, mas coisa factual. O que achei, o que vi, do que gostei. Às vezes não resisto e coloco uma historinha. A grande maioria acaba me parecendo mais do mesmo também. Incrível quanta besteira vi que não mexeu comigo mais do que a esperança de que fosse algo bom.

Este fim-de-semana, consegui dar forma a uma idéia que vinha tendo e fui começá-la. Fiquei triste quando percebi que me esqueci de uma coisa muito importante. Muito importante! Imperdoável! Fucei meus emails, histórico do telefone, dos notebook, redes sociais. Não consegui encontrar. Fiquei chateado mesmo!

Corri no histórico deste blog, procurar nos primeiros posts, um ano atrás, para ver se me lembrava. Não me lembrei. Mas encontrei os posts. Diários. Algumas coisas bobinhas. Algumas coisas que não passavam de frases, de gracinhas mesmo. Mas, quase todo dia, um texto bem melhor do que as coisas que tenho escrito nos últimos meses.

Não sei se relaxei, se estou perdendo a mão, ou se cheguei no limite e as idéias acabaram. Não achei o que precisava, mas comparando o que achei, estou achando uma senhora porcaria as últimas coisas que tenho publicado.

Este não é meu primeiro blog. Já comecei vários outros que destruí por algum desgosto, algum ataque de amargura dos que me são costumazes. Nenhum chegou a um ano como este vai chegar. Eu fico chateado nos dias em que não escrevo. Mas escrever coisas de que não gosto, eu não quero.

Vou me esforçar para escrever, de novo, coisas de que eu goste. Espero que este seja o último post chateado. Vou me esforçar.

 

Começa outra semana. Na última, não escrevi.

Esta semana acho que eu não sai nenhuma noite para tomar café e escrever. Bastante coisa para fazer, acabei descuidando. Ler, então, muito menos. O trabalho está uma bagunça. E eu estou dorminhoco. Mas tive algum tempo sim. Só não usei neste blog aqui.

Comecei a montar outro, de trás pra diante, dos filmes que assisti e do que me lembro e das anotações que fiz em cada um.

Engracado que da maioria desses filmes eu já me esqueci. Os poucos me lembro, poucos em relação a quantos assisti, não foram necessariamente os melhores, mas, quase sempre, os que me fizeram chorar.

Hoje já é domingo, é a primeira vez que consigo me sentar no café e escrever mais ou menos tranqüilo. Mais ou menos porque só tenho alguns minutos. Não dá nem tempo para procurar assunto.

A bagunça na avenida já passou, hoje foi tarde de protestos. A bagunça nas varandas também. Meu chá veio aguado. A dor de cabeça está passando, o torcicolo também. Parece que vai ficar só uma dorzinha no ouvido, que deve ter sido a origem de tudo.

Comprei um livro “1001 Movies to See Before You Die”. Nao venço mais em listar os filmes que assisti nos últimos meses para escrever sobre eles. Alguma coisa até já escrevi, mas bem cru. Isso foi o que mais me tomou tempo estas madrugadas. E este livro já é pra uma ideia de jerico que estou tendo para o blog onde vou colecionar meus comentários sobre eles.

Consegui baixar o filme que não acabei de ver no cinema. Ia ver ontem, mas estava doendo muito. Não ia prestar atenção. Acho que vou ver hoje.

Tive uma ideia meio mal acabada, um esboço de idéia, há uns dias atrás. Agora vendo este livro, pensando nos filmes e nas anotações que fiz, essa ideia começa a tomar forma. Vou ter com o que me distrair nas próximas duas ou três semanas.

 

unfamous last words

Eu estava triste por nada em especial. Não é preciso motivo especial para estar triste. Acho que todo mundo com consciência ficaria assim sempre se sempre pensasse na vida. Se pensar bem, os momentos bons são tão poucos no meio de tanta merda e marasmo que parece ingênuo e mesmo simplório dizer-se feliz. Eu não penso na vida. Já passei disso. Invejo os bobos-alegres que pensam nela menos ainda e se dizem felizes. Mas estou divagando em filosofias que não domino. Não me deêm ouvidos.

A história, como aconteceu, é que eu estava triste.

Acordei assim. Continuou assim ao me despedir da namorada no saguão do metrô. Ela ia pegar o metrô, eu o ônibus. Não ajudou ela, na descida escada rolante para o saguão da estação, virar-se de costas para mim. Foi a primeira vez que me lembro de pegarmos uma escada rolante sem nos beijarmos. Foi também a primeira escada rolante desde que moramos junto. Ao fim da escada, só disse tchau e correu como o resto das pessoas, desconhecidas para mim, que corriam para chegar o mais rápido possível ao trabalho. Ela passou a catraca e foi embora, sem o romance da despedida dos tempos em que não sabia que me veria em casa à noite. Quando a despedida, por curta que fosse, era uma despedida.

Peguei o ônibus um ponto antes do metrô, para evitar a confusão de tanta gente se espremendo para subir. Coloquei os fones para ouvir música, abri um livro. No ponto do metrô, olhei a ver o tamanho da fila que eu havia conseguido evitar. Fila, não, confusão. Brasileiro não faz fila, se acotovela e acha trouxa quem tenta ter educação. No ponto seguinte, uma amiga do trabalho subiu.

É uma garota muito bonita. Nós damos muito bem, talvez porque eu seja o único que conversa com ela sem dar em cima. Tirei os fones e deixei que ela se sentasse onde eu estava. Fiquei em pé a seu lado. E ela, sentada, puxando uma conversa para a qual eu, sinceramente, não tinha paciência. Ela se divertia contando como infernizava o namorado, principalmente por ser friorenta, veio de Resende para São Paulo por isso, e ele calorento e ela se recusar a dormir, mesmo no verão, sem seu cobertor elétrico. Pensei que essas coisas nem existissem de verdade. Vi alguns só em desenhos animados muito antigos.

Mandei um SMS para a namorada. Para tentarmos passear na saída do trabalho, só andar conversando e beijando, e jantar um pedaço de torta, como fazíamos até duas semana atrás, antes de ela se mudar lá para casa.

Descemos no ponto de ônibus em frente ao trabalho, do outro lado da avenida. Só tínhamos de atravessar rápido porque o semáforo na dá tempo suficiente. Minha amiga, nos últimos metros da travessia, agarrou meu braço. Reflexo do medo de o semaforo abrir antes de conseguir chegar à calçada. Ela já fez isso de outras vezes e eu sei que o pessoal do trabalho que viu comentou sobre chegarmos juntos de braço dado. É besteira. Veêm um buraco de rato e imaginam um elefante saindo de lá. De qualquer modo, eu também não me sinto à vontade quando ela encosta em mim.

Trabalhamos em andares diferentes. Ela desceu no seu, eu no meu. O trabalho pela manhã é muito tranquilo. Escritório brasileiro de uma empresa americana. O escritório de Nova Iorque só abre na hora do almoço, México e Buenos Aires também (parece que os argentinos são bem dorminhocos).sem ninguém dos escritórios maiores com quem interagir, a manhã chega a ser chata: conferir se não houve nada errado durante a noite, responder e-mails, ler o jornal editado internamente pela empresa e procurar pela internet como está meu time.

Os colegas de sala me acham quieto, fazem piada. Uma delas é uma borracha que me acerta a nuca. Tinha um colega meu na escola que gostava de me provocar durante a aula me tacando pedaços de giz. Um dia, ele me pegou chateado com algo, catei um pedaço que caiu em cima de minha mesa e taquei nele com toda a força, para machucar mesmo. O giz passou ao lado do rosto dele e acertou, cinematograficamente, o copo de água da professora. Eu imagino a cena como vista por ela. Ela apenas me perguntou porque eu fiz aquilo e eu só pedi desculpas. Deve ter sido tão evidente para ela que havia algo errado, que o incidente não passou disso.

Me lembrei desse giz é desse copo porque taquei a borracha longe também, na direção de onde ela veio. Ela ricocheteou na parede e derrubou um porta-retratos na mesa do gerente. Ele não estava lá. Se estivesse, seria mesmo o primeiro de quem desconfiaria ter vindo a borracha. Desliguei minha estação sem cuidado e saí para tomar café. O garçon, tínhamos garcon na empresa, me ofereceu uma bebida (sim, podíamos beber no escritório, havia um bar no café). Não era o caso. Só quis café.

Outra colega veio me perguntar se eu tinha algum problema. Ela deve ter notado algo estranho, que eu não note. Digo que não tem nada e lhe faço um carinho. Nela posso fazer, a diferença de idade é grande (sou uns cinco anos mais velho), é evidente que não rola nada, mas fazer-lhe carinho mata minha vontade. Ela não gosta de café, pega um chá, olha a janela e diz que eu posso ficar sozinho, mas que lhe diga se houver algum problema.

O almoço é insuportável. Os colegas falando asneiras sobre carros e as mentiras das baladas do fim-de-semana. Dou uma desculpa esfarrapada de que preciso ir ao banco e me meto num bar para comer um lanche. Minha mina finalmente responde o SMS. Diz que vai voltar cansada pra passear e que torta não é jantar.

O trabalho à tarde é corrido. Telefone toca, ora em espanhol, ora em inglês. A empresa está consolidando os escritórios, ao menos um vai fechar, e o de São Paulo é o menor. À tarde inteira, cada ligação é uma discussão de alguém de um escritório tentando desqualificar o trabalho do outro. Eu não tenho porque me preocupar com isso. Já arrumei ouro emprego, na nova empresa de nosso ex-gerente. Começo na próxima semana. Mesmo assim me irrito muito com a forma infantil das pessoas brigarem entre si assim. É demais para minha cabeça.

Em determinado momento de uma ligação, me revolto com um colega brasileiro que mente descaradamente para criar dificuldade a outro colega argentino. Para não xingar, bato o telefone e saio. Bato também a porta do escritório atrás de mim. O segurança me olha sobressaltado mas não fala nada. Cenas parecidas são comuns ali.

Saio rápido do prédio. Chego à rua com pressa. Lá, parece que me olham. Acho que percebem minha pressa. Começo a andar devagar, dissimulando, fingindo a calma que não tenho. Desço a rua ao lado com as mãos nos bolsos, olhando as vitrines. Na verdade, não as olho, só viro o corpo e os olhos em direção a eles, nem sei o que têm. Quero que pensem que é pra isso que estou andando. Passeando e vendo vitrines.

Escurece e estou no fim da rua. Já há puteiros abertos. Nunca entrei num, nunca precisei nem quis. Logo ao entrar já me arrependo. Não tenho o que fazer ali. Algumas garotas vêm se oferecer. Recuso envergonhado. Não sei porque entrei. Vejo o bar e me sento, peço uma bebida, outra, outra. Outra. Saio depois de algumas.

Me sento na calçada. Quando percebo tenho só um toco charuto na mão. Estou bebado que é difícil até de me sentar sem antes cair. O chão está imundo, mijo dos adolescentes baladeiros e merda de mendigo para todo lado. Fede. É de se admirar que eu perceba. Mas não percebo, só sei. E também só fico ali. Não choro, não porque homem não chore, mas porque o choro acabou. Não há mais o que ou de onde sair. Só fico ali jogado. E jogo a cabeça para trás procurando algo: ar, alívio  o choro que não tenho. Lamento não estar mais sentado no bar do puteiro. Mas o lamento só dura uns segundos até sentir que a barriga arde e dói de tanta bebida.

Lamento então nunca ter me interessado por drogas. Alguma delas haveria de ser-me útil agora. A cabeça pende e eu a jogo de novo para trás. Ela bate na parede e não dói. A caixa craniana vibra com a pancada. Deixo a cabeça pender mais duas vezes e a jogo para trás de novo, violento. Não sei de qual lado do rosto, mas sinto melado na bochecha. Passo a mão, é sangue. Demora para, passando a mão, eu perceber que vem da cabeça que eu abri batendo na parede. Minha pressão cai. Sinto vontade de desmaiar (é um alivio que sinto agora). Temo não ter sido alívio o sificiente e que só vou cair ou que, se realmente desmaiar, será um desmaio passageiro. Abaixo a cabeça bem no meio dos joelhos e jogo para trás de novo, com toda força, uma, duas, três vezes. Tenho pressa. Tenho de conseguir antes que algum filho da puta resolva me ajudar. Jogo a cabeça para trás de encontro à parede de novo, com a força que consigo. Vejo a calça lambuzada de sangue. Jogo mais a quarta e a quinta. Na sexta, estou já tão tonto que erro a parede e caio de lado. Não estou mais conseguindo ficar acordado. Ficaria em posição fetal se tivesse força para me enrolar. Meu corpo todo adormece. O nariz cheira sangue. Vejo só branco. Branco. Dizem que há uma luz. A luz. Eu preciso ver logo a luz…. Olhar pra ela. Antes que algum filho da puta apareça para me ajudar…

Já estou desde domingo organizando uma lista dos filmes que assisti nos últimos meses (já tinha perdido o costume de ir ao cinema) e as anotações que fiz sobre cada um. Finalmente acho que encontrei o jeito certo de organizar isso. Conforme fui desmocozando os ingressos de cinema da carteira, da bolso, de meio de caderno, bolso de calça, percebi que tenho ido muito mesmo ao cinema. Isso para não falar do meu histórico do Netflix. A lista, por ondem cronológica, os mais recentes em cima, me decepcionou. Os filmes de que mais gostei ficaram espalhados ali no meio de porcarias (e também de coisas boas que não tiveram significado nenhum para mim). Tenho de pensar em um modo de destacá-los.

De qualquer forma, depois dei uma olhada na minha lista de livros e me decepcionei. Estou lendo muito pouco. Saudades do tempo em que eu, dia sim, dia não, ia à biblioteca, pegava dois livros e os lia de cabo a rabo sentado na laje ou na janela do quarto.

Show

Hoje eu estou com vontade de escrever uma história. Mas uma história sem começo nem fim. Só um trecho talvez, um capítulo, alguma página de algo maior e que, quem leia ali, fora de contexto, talvez não entenda e diga que “não tem história”.

Haveria de ter um casal, sempre há de ter um casal. Ele estaria um pouco triste. Ela não, mas acabaria ficando um pouco, por ele. Estariam conversando em pé. Onde poderiam conversar em pé por bastante tempo? Sei lá, talvez na fila para um show. Terça-feira tem um show que eu gostaria de assistir, mas não vou. Pode ser a fila para entrar no show. É interessante, um casal que tem em comum o gosto musical. Estão na fila e conversam.

É noite, a fila é do lado de fora, rodeando o galpão que é a casa de espetáculos. Estão perto do começo da fila, junto à parede, caiada por fora. A parede tem umas pequenas saliências, provavelmente são as colunas. Ela está encostada na quina de uma para melhor se proteger da aragem e de uma umidade já se condensa. Não usa agasalho. Lá dentro estará muito quente e não faz sentido segurar agasalho enquanto pula e canta junto com a banda. Ele, também sem agasalho, também encostado ao muro. Apoiado, muito perto dela. Os ombros estão encostados, os rostos quase se tocam, de modo que podem conversar a sério, baixinho, sem que nem mesmo os que estão mais próximos na fila os possam ouvir.

Nesse ponto, ela, para tentar lhe distrair, reclama do frio e lhe passa a mão pelo braço, para ilustrar quanto frio sua pele sente. Ele sorri amarelo e ela lhe arruma com carinho o cabelo despenteado que invade a área em frente ao rosto. Demora nisso enquanto ele fala algo, baixinho.

Seria então que os olhos dela se entristeceriam e ele imediatamente se arrependeria do que disse. Pedir-lhe-ia desculpas com palavras que eu não teria escutado. E fecharia os olhos.

Com a mão lhe que mexia nos cabelos, ela seguraria sua cabeça. Ele seguraria o braço dela sentindo-o gelado pela sereno e teria vontade de chorar por não o tê-lo aquecido ainda. Deslizaria a mão para trás dela, tentando abraçá-la, seus rosto se tocam. Não era sua intenção, mas em vez de alcançar-lhe com a mão as costas, tocá-a o lado do corpo, entre o colo e a cintura, ao mesmo tempo em que ela, com a outra mão, o abraça e descansa o rosto no seu.

Ambos falam baixinho algumas coisas que ainda não são conseqüência disso. Enquanto as falam, ele percebe a diferença de centímetros na posição que sua mão alcançou e a intima diferença que isso acarreta. E percebe que ela não evitou, pelo contrário, achou mesmo que ela se aconchegou mais à vontade quando se viu segura por suas mãos quase pela cintura.

Ele não teve coragem de abrir os olhos. Os dela, não vemos para saber como estavam. Mas sabemos que sentiram nos rostos um o calor da respiração do outro e que ele passou-lhe a mão para as costas. Como se a puxasse para si, soltou o corpo e deixou-se encostar todo nela. Sentiu, pelo calor da respiração,  que os cantos de seus lábios se tocariam.

Ele evitaria isso. Não porque não quisesse, mas porque tinha uma coisa mais importante a fazer antes. Ele evita que os lábios se toquem, encostando os seus na orelha dela: “Eu quero fica com você. Bem junto. Eu quero ficar bem junto de você tudo que a gente conseguir.”

Ela mexeria um pouco o rosto para lhe falar algo ao ouvido também, sem ainda sabe o quê. Mas isso ao mesmo tempo em que ele voltava os lábios da orelha. E percebendo os narizes se encostando, desistiu de falar.

Antes de se beijarem, vacilariam um pouco, tentando se abraçar melhor, sem fazer força, sentirem juntos e imaginar o que mais viria depois. Do beijo mesmo, não se lembrariam mais tarde. Lembrariam-se do que sentiram e dos porquês.