Um Parágrafo Inevitável no Café

A lua hoje não estava em seu lugar habitual, sobre mim, em meu céu do café. Ao invés, vi-a pelo caminho. Logo que saí. Vi-a por entre galhos e folhas de uma árvores. Grande, ou melhor, próxima. Bem definida, brilhante, linda de morrer.nem a poluição urbana de fios, postes e aquelas lâmpadas amarelas feias, nem a poluição, foi capaz de lhe ofuscar. Sem nem procurar, era impossível não vê-la. Eu vim para cá. Ela para onde foi? Onde está? Mas cá, está de novo meu companheiro vento, fresco, frio mesmo. Estão meu chá, meu caderno, os balconistas que já me conhecem de nome e sabem meus gostos. Estão os casais de sempre. Não os de sempre, que cada vez são diferentes, difícil de se repetirem. Mas cá estão. E no céu, sobre mim, no céu limpo sem nuvens, não está a lua, só duas estrelas bem distantes, separadas.

Choro

“Você é muito alegre!”

“Alegre? Eu? Imagina. Sou muito chorão!”

“Você? Chorão? Não pode ser. Quando foi a última vez que você chorou?”

“Agora.” Riu. “Estou chorando por dentro.”

Mas riu mesmo e não foi convincente.

“Faz tempo mesmo que eu não choro.”

“Viu? Eu falei…”

“Não, me deixa terminar. A última vez que eu chorei já tem mais de seis meses. Mas não é porque não tenha motivo. Ou melhor, não é porque não tenha algo que, noutros tempos, eu tomaria como motivo para chorar. Eu só… já não ligo tanto…”

“Seis meses não são tanto tempo.”

“Para você não é? Vê-se que você sim é alegre. Pra mim, seis meses sem chorar soam como uma eternidade. Me soa estranho até.”

“E chorou por quê?”

“Não me lembro. Mas todo mundo, se parar para pensar, encontra motivo para chorar.”

“Então você tem motivos…”

“Ah, sim, vários motivos.”

“Então porque faz tempo que não chora?”

“Talvez, já tenha me acostumado… e os motivos já não mais me emocionem.”

“A maior expressão da angústia. Pode ser a depressão. Algo que você pressente. Indefinível Mas não tente se matar. Pelo menos essa noite não.”
— Lobão; Essa Noite, Não