Me lembro, por sorte ou azar do destino, de meus pensamentos neste mesmo dia, há trinta anos atrás.

Criança então, ainda esses pensamentos escrevia em papel fino, de seda, colorido, que usava com varetas de taquara para fazer pipas. E empinava-os no céu, brincando, a tarde toda.

Já agora, velho, meus pensamentos escrevo em sulfite que dobro até fazer um barquinho. Pouso-o então na água para vê-lo flutuar lerdo, quase parado. Até encharcar e, desdobrando-se afundar…

Éter

Eu me lembro de fuçar o armário do banheiro da minha avó. Era daqueles armários de parede, atrás do espelho, com algumas prateleiras pequenas onde não parecia caber quase nada. Mas cabia muita coisa que eu não, criança, fuçava mais pela falta do que fazer do que pela curiosidade.

Nas pequenas prateleiras atrás do espelho, não havia quase nada da minha avó. Tudo era da madrinha. A avó guardava suas coisas no quarto.

Ali havia um vidro de perfume da Avon, amarelo, com cheiro forte de licor. Não me lembro o nome. Era uma delícia cheiro de dar água na boca, dar água na boca mesmo. Eu me lembro da primeira vez em que comi papo de anjo. É um doce daqueles bem doces. Um pedaço de pão-de-ló mergulhado em calda de açúcar, baunilha e licor. Não sei dizer se o cheiro é o mesmo. Quando experimentei o doce, já não cheirava o perfume havia anos. Mas me lembrou de imediato, com a mesma água na boca.

Tinha também a latinha grande de Creme Nívea, que eu nunca soube para quê serve. Mas a madrinha usava aos montes. Tinha sempre uma latinha por perto. Uma na bolsa, outra na máquina de costura, outra no quarto, uma grande em cada banheiro. Uma vez perguntei para quê servia. “Para passar!” Claro, para passar. Certas coisas a gente nem deve perguntar.

Escova e pasta de dente, como em todo banheiro. Escova de cabelo e pente grande, e também um pente-fino, como em muitos banheiros. Uma caixa de grampos de cabelo, que a madrinha usava para prender o seu cabelo ralo. Diferente da avó que tinha cabelos brancos enormes, até as coxas, que ficavam presos sob um lenço grande e eram lavados de manhã bem cedo no tanque do quintal com água fria e, no máximo, duas gotas de azeite, a madrinha já estava ficando careca. Deixava o cabelo crescer bastante e o prendia com grampos para cobrir toda a cabeça. Os grampos serviam também para limparmos os ouvidos.

Pedra-pomes e pedra-hume. Uma para lixar calos, a outra para ajudar a secar pequenos cortes. Pinça, que eu gostava de pegar emprestada para mexer em insetos. Lixas de unha, mertiolate e éter.

Éter é uma coisa que eu nunca soube porque se teria em casa. Perguntei também para quê que servia e tive outra resposta espartana: “Para usar.” A madrinha dizia que seu cabelo começou a cair por causa de tantos produtos químicos que elas usávam no salão quando era mais nova. Talvez éter fosse um deles. Ou, outra possibilidade, e isso explicaria a resposta evasiva, ela usava como um colega meu da faculdade que, mais velho que nós, dizia que, no começo dos anos oitenta, saía para a noite com um lenço cheio de éter no bolso e o cheirava junto com as parceiras de dança “para a conversa chegar logo nos finalmentes.” Não parecia coisa da minha madrinha.

Uma vez, na escola, a professora de Ciências, falando sobre volatilidade, citou o éter: “logo que você abre, o cheiro imediatamente pega a casa toda”. Lembrei-me de um desenho, acho que do pica-pau, em que ele abria um vidro onde estava escrito éter e uma névoa se espalhava por todo lado. Lembrei-me também do éter no armário do banheiro.

Em casa, curioso, fechei a porta do banheiro e peguei o frasco do armário. Com cuidado, deixei o rosto bem afastado, abri. Esperei uns vinte segundos e nada do cheiro. Decepcionado, cheguei o frasco perto do meu narigão. A princípio, não senti cheiro nenhum. Mas quando senti algo, foi de uma vez. Uma dor no fundo dos olhos que parecia que tinham me enfiado fundo agulhas de tricô pelas narinas. À frente da cabeça ficou leve, a nuca pesada. A cabeça caiu para trás. Para não cair de cabeça no chão, tentei me equilibrar de volta para a frente. E foi para a frente que minha cabeça caiu então. Não senti nada mas, anestesiado, ouvi a pancada muito forte da minha testa na torneira.

A madrinha bateu à porta. Quando abri perguntou se eu estava mexendo com éter. Respondi que confundi com o mertiolate, para passar no machucado da testa. O corte grande que eu abri com a pancada na torneira.

Isto é amarelo. Já foi gema de ovo. Aqui, é azul. Era pedra. Deu trabalho para moer. Este vermelho, era inseto. E este, além de inseto, terra. Estes verdes eram plantas. O marrom, terra. Óbvio. Este cinza sempre foi cinza. É cinza de madeira queimada. O outro ali também. O preto, eu não sei de onde saiu.

Alguém, e eu imagino que não deva ter sido uma pessoa só, teve idéia de colocá-los em potinhos e usar para pintar. Chamam-nos tintas. E agora podem ser um pôr-do-sol, uma flor ou o mar. Ou tudo isso junto mais um casal de crianças deitado na areia brincando de adivinhar as formas das nuvens.

Neblina

Então, é disso que eu me lembro, da neblina. Eu estava com frio e era noite. Estranho sentir frio em um sonho, eu acho, mas eu sentia. Eu ia bem devagar, com medo de fazer uma besteira. Não dava para enxergar nada. De quando em quando, via uma luz, farol ou freio, à minha frente. A luz estava acesa, me ensinaram fazer isso para me verem melhor. Tinha música no rádio. Um rock alto é zoado que tentava fazer mais barulho que o ar condicionado do carro. Acho que eu estava acompanhado mas eu não sei. Não olhei à minha direita, nem para trás. Eu só olhava para a frente, tenso, com muita atenção, debruçado sobre o volante, e para o retrovisor à minha esquerda, esse era inútil porque estava todo escuro. Eu tinha sono, estava cansado. Não, não sei para onde ia. Não faço ideia. Mas eu acho neblina uma coisa tão linda!

A Carne é Fraca

O menino não gostava de comer carne. Criança em geral não gosta, tem preguiça de mastigar. As mães também não ajudam: amassam a comida para ficar mais fácil de mastigar, ensinam a molhar o pão no leite, picam as frutas. Depois da invenção do liquidificador, então… Se fôssemos roedores, nossos dentes sairiam da boca, tão pouco os usamos na infância.

“Eu não tenho fome.”

“Não tem quinze minutos, você me pediu bolo, dizendo que estava morrendo de fome.”

O menino fica sem resposta por um tempo. Não muito, a julgar pelo pouco que come, praticamente só arroz e feijão.

“Posso comer só o arroz e o feijão?”

“Não, mas se quiser pode comer só a carne e a salada.”

A salada ele também não quer.

“Mas eu não gosto de carne. Eu quero nuggets. Ou salsicha.”

“Não me interessam as porcarias que teus colegas comem. Você vai comer a carne… como pessoas normais comem.”

A mãe já dá sinais de que vai perder a paciência.

“Está duro.”

“Me deixa ver.”

A mãe corta um pedaço da carne do menino e ela mesma come.

“Não está, não. Pode comer.”

“Tem sangue.”

“Isso é molho.”

“Está crua.”

Está na hora de perder a paciência. Sabe lá o que é correr a manhã toda com as coisas para fazer e ainda ter que insistir para o fedelho comer?

“Está cozida, muito bem cozida. E você vai comer e me falar que esta uma delicia.”

O menino se assusta com o tom da voz dela. Ela também. Ele, falso, ameaça chorar.

“Mas está vermelha, parece viva.”

A mãe recupera a calma.

“Você vai comer essa carne de qualquer jeito. Não vou brigar com você. Mas você só sai daí depois de comer. Nem que chegue a hora do jantar e eu coloque o teu aí por cima do almoço no mesmo prato.”

O menino chocado olha a comida com medo até ter um lapso de engenhosidade. Vai apelar às suas gracinhas de criança que a mãe acha engraçadas, julga serem inocência. Isso sempre o livra das piores.

“Olha, mãe. Olha como esta crua ainda. Está viva.” — espeta a carne com o garfo — “Muuuuuuuuuuuu”.

“Mu? Essa carne é de porco.”

Gracejo de Alegoria

Eu não sabia o que fazer. Sozinho, nem tinha a quem perguntar. A menos que pegasse o telefone, coisa que eu não faria. Não tem cabimento ligar a essas horas para contar história, pedir conselho.

Abri a porta grande de vidro que dá para a varanda e fui lá fora me debruçar no muro, tomar ar fresco, olhar a paisagem. Talvez um dos carros na avenida, os faróis eram as únicas coisas que eu via no escuro da noite, ou um pedestre pelo condomínio, talvez um deles me desse a solução ou um bom conselho do tipo: “Dorme. É noite e antes de dormir não há o que você possa fazer.” Mas, não sei porque, eu não tinha sono.

O sereno sempre me diverte e demorou um tempo para que eu me lembrasse de motivo de ter saído a ele. Quando me lembrei, tentei relaxar um pouco o corpo e senti as juntas doloridas. Virei-me de costas pra rua e me escorei com a bunda na parede. Pela porta de vidro aberta olhei para o apartamento.

Vi o relógio, sem querer. Sou desses antigos que acham que toda casa deve ter um relógio na parede. Três e pouquinho. Tarde para sair, cedo para voltar. Sobre o balcão, a caixa de charutos que o amigo me deu em comemoração tentava. São charutos grandes. Sozinho não tem graça. Charuto é como vinho, precisa da conversa. Charutos e mulheres são como vinho.

Esse pensamento leva meus olhos para os nichos sobre o balcão. As garrafas de vinho guardadas. Vinho, além da conversa, precisa de tempo e calma para ser apreciado. Vinho não aceita pressa. Há de ser degustado. A pressa embebeda sem sabor. Vinho não é para deixar bêbado, é para ser saboreado. Charutos também precisam desse tempo. Mulheres sobretudo, mais que os dois. Casais precisam de tempo oportuno para se aproveitarem com calma.

Na estante, uma garrafa de destilado. Está ali de enfeite, foi presente. Não gosto mas é oportuno. Vou no escorredor de pratos, na cozinha. Só tenho copos de refrigerante. Não me parecem apropriados. Pego a caneca onde bebo chá. Rio soltando um palavrão. Como se a caneca fosse mais apropriada. Pego só meio dedo de bebida e volto para a varanda.

Mas me sento, na cadeira, caneca na mesa, segura entre as duas mãos, como se fosse chá quente a esquentá-las. Olho, por cima da mureta de vidro, a noite movimentada da cidade, que não vejo, escondida pelas árvores e pelo escuro. Mas imagino mil histórias que possam estar acontecendo em cada canto, embaladas pelo sereno e pelo barulho dos carros e da noite. Imagino histórias de silêncio também, de sons furtivos, escapados. E fico feliz por suas personagens.

A bebida fica intocada. Quando me lembro da caneca, é porque um pequeno movimento dentro dela me acorda do pensamento. Um barulhinho de cumplicidade lá dentro. Puxo-a para olhar. Não há nenhum líquido. Duvido mesmo que o coloquei lá. Já tenho certeza de que não. Ao invés dele, dois pardaizinhos batem os bicos e saem voando em rodeio, um em torno do outro, de mãos dadas.

Borbulhas

Fazer chá gelado não tem segredo. Só precisa do chá quente bem forte e gelo. A água esquenta na chaleira elétrica, sempre tem água quente em casa. Pego três saquinhos de café, english breakfast. Pego aquele cronômetro em forma de ovo e ponho para marcar três minutos. Mais que isso é o chá fica com gosto de couve cozida.

Enquanto isso, vou na sala e coloco um filme na televisão. Na verdade é uma seqüência que eu montei com vários trechos musicados de filmes. Não quero prestar atenção no enredo, só ouvir música e recordar algumas imagens.

É o tempo da campainha do cronômetro tocar. Jogo os saquinhos de chá na cuba da pia, para eles não escorrerem no lixo. Completo o copo grande com bastante gelo e duas raspas de casca de limão. Foi o chá ou a música ou um filme, lembrei-me de alguma coisa.

Nesse momento, um um arco-íris, ou nuvens, ou borboletas, desceu do céu e mergulhou no meu copo, como bolhas de sabão, feitas de beijos e borbulhou, alegre, o amargo de meu chá.

Sentei-me no tamborete da bancada da cozinha americana, pelo lado da sala. Sentado de lado, costas para a parede, cozinha à esquerda, sala à direita. O cheiro que do chá quente ainda perfuma o ar e dá saudades de momentos só imaginados. Esperei o gelo derreter um pouco. Olhando aquele castanho-avermelhado bem escuro e pensando na vida.

Sessão Dupla

Eu cheguei cedo ao cinema, muito cedo. Oito e pouco. Estranho falar isso eu, que já já tão acostumado fui a cinema à tarde. Quando eu era jovem, pegava sempre a sessão das quatro, no máximo a das cinco. Têm menos molecada para fazer barulho. Eles não gostam das sessões que começam mais cedo. Dizem que é matinê, coisa de criança. Por isso vão às da noite.

Eu me lembro de uma conversa com uma menina que trabalhou comigo. Ela disse que cinema de dia é coisa de criança. Eu perguntei em que sessão ela costuma ir. “À noite, claro.” Minha resposta deve ter sido cruel: “Vê? É à noite que criança vai.”, mas ela, pega de surpresa, ficou sem resposta, acho que até um pouco triste em seu orgulho em ser chamada de criança. Não falei para magoar, mas acho que ela entendeu a relatividade desses conceitos.

Neste cinema aqui, o horário não é problema. Os filmes que passam não têm apelo para a molecada. O lugar não chega a ser metido a besta. Não muito. Mas foca naquele público que gosta de filmes diferentes, menos clichês. Quem vem aqui, quase sempre, quer assistir em paz, quieto, prestar atenção. Eu digo “quase sempre” porque sempre tem um casal ou duas amigas, normalmente de idade, que resolve conversar sobre o filme durante o filme. Explicar um para o outro que entendeu algo subentendido, que os filhos iriam gostar desse lugar que aparece nessa cena, que a atriz é muito boa e que estava maravilhosa naquele outro filme, que a música de fundo é aquela… Aprendi a não reclamar. Essas conversas não duram muito. Logo se cansam e assistem quietos, abraçados os casais.

Aqui tem poucas sala, só quatro, pequenas. As pessoas que vêm são mais ou menos as mesmas sempre. Também sempre mais ou menos nos mesmos horários. Vir ao cinema é uma rotina. Então os filmes ficam pouco tempo em cartaz. As estréias têm sessões à noite, pré-estréias à meia-noite, e os filmes que já estão em cartaz, vão passando para as sessões mais cedo. Assim todo mundo tem chance de assistir no horário em que está acostumado a ir ao cinema.

Há tanto tempo eu não vinha ao cinema que podia escolher qualquer um, todos eram novidade. Ainda tinha tempo para jantar, para tomar café, sentar e escrever sobre a noite. Dava tempo para tudo, tudo. Até para ver dois filmes, mas isso atrapalhava o jantar.

Eu estava com saudades daqui. Não deste cinema, que é relativamente novo, tem menos de dez anos. Saudades dos sábados por aqui. Podia pegar os dois filmes mesmo e deixar a comida para depois. Comer alguma coisa depois, ou entre eles, pão, vinho, croissants. Aqui mesmo tem. Dúvida cruel, eram muitas opções, tantos filmes que eu ainda não vi.

Eu já aprendi que tem uma placa no poste que segura a fita que orienta a fila, com os horários de todos os filmes. São uns quatro filmes diferente por dias em cada sala. Vai mais ou menos em seqüência, às vezes alguns se alternam. Um filme do Woody Allen estreou esta semana. Sua próxima sessão começa às nove. São uns quarenta minutos. Não gosto de jantar correndo. E quarenta minutos são pouco para jantar com calma. Mas dá tempo pro café.

E também dá pra pegar outra sessão depois. Pouco antes de meia-noite tem o filme do trailer que eu vi duas vezes nas semanas passadas e queria ver. A pré-estréia é hoje. Se assistir os dois, talvez não dê tempo de jantar no intervalo entre eles. Não dá pra saber direito quanto tempo vai ter entre as sessões.

Eu queria jantar aqui no cinema. O restaurante é bom. Uma salada e vinho. Mas vou ver o Woody Allen e, dependendo da duração, imagino que sobre de uma hora a uma hora e meia entre os dois, se der tempo, janto aqui ou me viro depois.

Compro ingresso. Hoje não tem lugar marcado. Os monitores das bilheterias, onde a gente escolhe as cadeiras, estão com defeito. Me esqueço de pedir o carimbo do estacionamento. Peço no próximo filme.

Eu ainda não comi nada hoje, nem o café da manhã. A barriga já está se lembrando de como é bom um pãozinho francês fresco com manteiga. Culpa do pipoqueiro que enche as pipocas de manteiga, o cheiro fica no ar. Vou na galeria ao lado. Tem a Starbucks com beigale e chá. E, o melhor de tudo, não tem fila. Que maravilha! O frio que chegou de repente em São Paulo espantou a fila.

Beigale quentinho! Não é meu tipo de pão, mas está quentinho! Não sou muito fã destes pães com casca mole e fina, tipo pão de forma, mas a manteiga derrete. Ainda assim, vou comer um só. No cinema tem um balcão de padaria, delícia. Pão é delícia! Ao invés daquelas pipocas fedidas e refrigerante mal misturado e sem gás, eu vou levar um chá gelado daqui, o segundo, além do que bebo aqui mesmo, e pedir lá um pão, dos pequenos que já é maior que um pãozinho de padaria. Comer pão no cinema, isso foi uma grande invenção, sinal de que a humanidade é realmente capaz de evoluir. Queria café ou cappuccino, não posso. Estou com cafeína restrita até o fim do ano. Resultado de anos de abuso da substância, e olha que já faz algum tempo que comecei a trocar café por chá. Houve uma época em que tomava quase vinte por dia. Vai saber lá quantos litros isso dá. Com a troca pelo chá, troquei o vício. Um dia haverei de entendê-lo Algo deve haver de relaxante em segurar o copo da bebida e dar bicadas. Nesta vida de adulto, acho que a gente precisa disso, de café, e de relaxar. Não me lembro de tomar muito café quando eu era criança. Um toddy de manhã, um café no no lanche da tarde… só isso. Eu me lembro do café da madrinha. Ela punha tanto açúcar que não conseguia desmanchar tudo mexendo com a colherinha. Ficava um depósito no fundo do copo. Isso porque, mania de pobre, ela já derretia açúcar direto no bule com a água quente. Ainda assim, dizia que o açúcar de hoje, o de então, anos oitenta, não adoçava nada. A cara que ela fazia quando bebia meu café sem açúcar era exatamente a mesma que eu fazia quando bebia o café hiper-sacarosado dela.

Das últimas vezes que vim ao cinema, tive problemas, vontade de ir ao banheiro no meio da sessão. Odeio isso, – tem tanta coisa que eu odeio – mas interromper o filme é das piores. Eu devia ter pedido só o beigale e esperado em cima do horário da sessão para pedir o chá. Bebia ele todo, quentinho, dentro da sala. Como já pedi, melhor levar este. Vai amornar, mas é melhor beber morno na sala, durante o filme, do que já entrar de bexiga cheia. Burro eu, burro, burro!

Nem preciso enrolar, comendo com calma, terminei o beigale já na hora. Desci para o saguão do cinema. E de lá para o banheiro. Que a bexiga não me aprontasse durante este filme. Fiquei preocupado, ela estava vazia, não tinha muito o que despejar ainda. Espero que não tenha chuva no filme então. Rio, besteira tanta preocupação com isso.

Logo ao lado da porta da sala, está o balcão dos pães. Idéia maravilhosa! Vender pão fresco no cinema em vez daquelas porcarias de pipoca. Além do portuga que vos escreve ser apaixonado por pão fresco, cinema é um lugar tradicional para se ir em casal, namorar. Pipoca atrapalha. Aquela porcaria fedida e com as cascas que grudam nos dentes atrapalha além de dar azia. Deve ser gostoso sentar de casal no cinema e dividir um pão e um daqueles copos gigantes de cappuccino. Minha versão de programa romântico. O pão de hoje será só meu. Há uns dez tipos diferentes. Posso escolher o que quiser. Preto e integral não, gosto do normal. Nenhum pão aqui se chama normal, mas tem um com levedura. Puseram o nome em francês, uma palavra que eu nunca vi. Desculpa, não sei como se diz isso. É um pão que se parece com o normal, mas diz na legenda que a fermentação é natural. Quero um desses, do pequeno. Outra coisa legal de pão no cinema é que é barato e vai bem com café ou chá. Absurdos os preços que cobram para o casal ficar com os dentes cheios de casquinhas de milho de pipoca, sem falar do bafo, e beber o refrigerante sem gás que ainda assim faz arrotarem.

Por quanta gente havia no saguão esperando a sala abrir, achei que lotaria. Sem lugar marcado, por causa do defeito na bilheteria, entraram todos correndo, ávidos pelos melhores lugares. Para mim, isso não importa tanto. Eu gosto de me sentar nas filas mais da frente. Sentei-me na terceira ou quarta fila, na cadeira mais próxima ao corredor. Não estava nem perto de lotar. A ocupação da sala não devia chegar a um quinto. O lugar que eu escolhi não tinha nenhum casal por perto. Pendurei a bolsa no encosto da cadeira em frente à minha, tirei o som do telefone, dei um jeito de encaixar nela o pacote do pão. As luzes logo se apagaram. Tirei os sapatos e as meias.

Imediatamente chegou um grupo para se sentar na fila atrás da minha. Não couberam todos e uma menina me pediu licença para passar e para as cadeiras entre a minha e a parede. Era estreito, tive de me levantar, descalço. Ela parece que não queria que eu me levantasse. Não conseguiu esconder a pressa, a luz já estava apagada, os trailers iam começar. Logo que me levantei, passou rápido para se sentar e pisou na beirada de meu pé. Assustada, pediu desculpas. Eu disse que não era nada. E não era mesmo, pisou de leve, como se estivesse descalça também, mal senti.

Começou o trailer, passou um só. Foi um que eu já tinha visto duas vezes, de um filme que eu vi que tinha sessão pouco depois deste e que eu quero assistir também. Das outras duas vezes, não prestei atenção, agora sim. Eu gosto dessa atriz, só faz filmes bons. Realmente, das outras vezes eu não devo ter prestado atenção, devia. Parece que o trailer conta todo o filme. História de adultério arrependido com clima de todos ficam felizes no final. Não estou a fim disso. Hoje eu quero um filme romântico ou uma comédia. Ainda bem que eu não cheguei a comprar o ingresso para ele. Na saída vou olhar de novo os horários e ver se tem algo melhor.

Antes do filme começar, ainda chegaram mais três pessoas daquele grupo. Três garotas, Pediram licença mas não esperaram que eu me levantasse. Só consegui puxar os tênis pra baixo da cadeira, para elas não tropeçarem. Passaram apertadas, quase sentadas em meu colo. Passaram devagar, com os tornozelos esfregando em meus pés descalços. Era muito apertado para evitar. Imaginei que elas pudessem se assustar, pensar que fosse um bicho correndo pelo chão. Elas não pareceram perceber ou se incomodar.

Quando se sentaram vi que eram a namorada da garota que havia chegado primeiro e mais um casal de amigas. Ficaram assim, ao todos uns dez, divididos em duas fileiras. Eu, na ponta, junto ao corredor, da fileira de baixo.

Já tem um tempo que comecei a escrever isso. Vocês haverão de me desculpar isso também, esqueci-me qual era o filme. Não então, no cinema sabia o que assistia. Mas agora, não me lembro. Não me lembro de muito da sessão, apenas de, a certo ponto, uma risada, a bem dizer, umas dez gargalhada terem me incomodado. Eram os amigos, sentados à minha esquerda, riam de galhofa sem olhar a tela. Me incomodou. Logo de cara me incomodou o barulho que fizeram. Não me lembro do que era, mas não era uma parte do filme para se dar risada, ou era e eu não achei graça. Eu os olhei e eles me olharam e ficaram quietos. Isso me incomodou mais. Procurei se eu fazia algo que pudesse levá-los à risada, que fosse motivo para rirem de mim.

Daí a pouco, já não me lembro mais do que aconteceu no entretempo, ríram de novo. E, de novo, só eu não achava graça. Olhei feio para eles. Pleonasmo, eu só sei olhar feio. Não encontrei a galhofa que faziam, mas desta vez havia gargalhadas do outro da sala também. Tinha alguma coisa na cena, alguma coisa antiga, uma fita cassete, eu acho. Eles, novos, talvez nunca tenham visto uma antes ou estejam rindo mesmo por não serem tão jovens e já terem visto uma.

Eu não me lembro do filme, mas aí pensei nele, pensei nas personagens. Pensei se não era eu o errado, se não teria motivo para dar as mesmas gargalhadas. Me esqueci também dos amigos que riam, nem sei se riram mais. Distraí-me.

O filme foi bom, não exatamente o que eu queria, mas bom. Quando acabou, eu corri para a bilheteria comprar ingresso para o próximo. Já desse não gostei. Não era o que pensei. Fiquei frustrado e cansado. Na saída, já é domingo. Ainda vou sair à procura do que falta para completar a noite de sábado.

(genérico de) Sessão da Tarde (mas é quarta-feira à noite)

É engraçado perceber que não são muitos os temas que nos deixam felizes. Cada um tem sua meia dúzia. Percebo qual a minha meia dúzia quando me sento para escrever. Na verdade, é quando percebo que são meia dúzia, ou oito, ou dez, não muito mais que isso. Por isso eu tanto repito temas. Pode causar enfado a quem lê, mas hei de ser perdoado. Somos assim, gostamos de retornar ao que nos apraz. Às vezes, e muitas são as vezes, eu mesmo me irrito com as repetições. Mas elas são inevitáveis.

Agora, por exemplo, estou escrevendo uma história sobre cinema, dessas que parecem página de diário. Já postei outras do tipo, várias outras. Estou demorando para escrevê-la porque o tempo anda corrido, eu ando correndo o tempo. Comecei a escrevê-la final de agosto, o primeiro rascunho, na verdade menos que um esboço. Só agora estou próximo ao final, e não são mais que duas mil palavras, coisa curta.

Ainda assim, acabo de sair do cinema, é a época da Mostra Internacional de São Paulo, e, já lá dentro, duas coisas incríveis aconteceram que eu não consigo deixar de anotar para escrever mais uma ou duas histórias. Prefiro que sejam duas, para separar bem os motivos.

A primeira foi entrar numa sala de cinema onde eu achei nunca ter entrado antes e reconhecer uma sala antiga muito saudosa minha e que eu julgava demolida, mas que pelo visto foi conservada e reformada, e reaberta com outro nome, com entrada por outro lado. Não pude evitar as selfies e andar por ela feito bobo, reconhecendo detalhes, muitos detalhes, conservados do original. Está ainda quase tudo lá. Eu ainda vou esboçar, rascunhar e escrever.

A segunda foi assistir um filme que me surpreendeu pela simplicidade, pela despretensão, por repetir-se como eu. Um filme que talvez, noutra época, não tivesse me agradado, que talvez encaixasse bem na Sessão da Tarde. Eos que gostam da Sessão da Tarde irão protestar aqui. Mas que me fez sorrir várias vezes, e quase chorar uma ou duas. Me fez pegar meu caderno e anotar umas quatro páginas de frases para pesquisar depois, o nome do livro em que foi baseado, as musicas. E eu torci para o final que era óbvio, mas que em certo momento temi frustrar-se.

Preciso comprar o livro, ler, rabiscar e anotar.

Ainda vou escrever sobre isso também. Acho que até com mais carinho. Mas, por enquanto, vou só ficar aqui, sentado, tomando meu chá e pensando que às vezes é só disso que a gente precisa pra ser feliz: uma história de Sessão da Tarde.

Eu encontrei um lugar onde facas podem ser fadas
Problemas podem ser borboletas
Banheiro pode ser dinheiro
E até a lama pode ser cama

É o corretor ortográfico……