Me lembro, por sorte ou azar do destino, de meus pensamentos neste mesmo dia, há trinta anos atrás.

Criança então, ainda esses pensamentos escrevia em papel fino, de seda, colorido, que usava com varetas de taquara para fazer pipas. E empinava-os no céu, brincando, a tarde toda.

Já agora, velho, meus pensamentos escrevo em sulfite que dobro até fazer um barquinho. Pouso-o então na água para vê-lo flutuar lerdo, quase parado. Até encharcar e, desdobrando-se afundar…

Éter

Eu me lembro de fuçar o armário do banheiro da minha avó. Era daqueles armários de parede, atrás do espelho, com algumas prateleiras pequenas onde não parecia caber quase nada. Mas cabia muita coisa que eu não, criança, fuçava mais pela falta do que fazer do que pela curiosidade.

Nas pequenas prateleiras atrás do espelho, não havia quase nada da minha avó. Tudo era da madrinha. A avó guardava suas coisas no quarto.

Ali havia um vidro de perfume da Avon, amarelo, com cheiro forte de licor. Não me lembro o nome. Era uma delícia cheiro de dar água na boca, dar água na boca mesmo. Eu me lembro da primeira vez em que comi papo de anjo. É um doce daqueles bem doces. Um pedaço de pão-de-ló mergulhado em calda de açúcar, baunilha e licor. Não sei dizer se o cheiro é o mesmo. Quando experimentei o doce, já não cheirava o perfume havia anos. Mas me lembrou de imediato, com a mesma água na boca.

Tinha também a latinha grande de Creme Nívea, que eu nunca soube para quê serve. Mas a madrinha usava aos montes. Tinha sempre uma latinha por perto. Uma na bolsa, outra na máquina de costura, outra no quarto, uma grande em cada banheiro. Uma vez perguntei para quê servia. “Para passar!” Claro, para passar. Certas coisas a gente nem deve perguntar.

Escova e pasta de dente, como em todo banheiro. Escova de cabelo e pente grande, e também um pente-fino, como em muitos banheiros. Uma caixa de grampos de cabelo, que a madrinha usava para prender o seu cabelo ralo. Diferente da avó que tinha cabelos brancos enormes, até as coxas, que ficavam presos sob um lenço grande e eram lavados de manhã bem cedo no tanque do quintal com água fria e, no máximo, duas gotas de azeite, a madrinha já estava ficando careca. Deixava o cabelo crescer bastante e o prendia com grampos para cobrir toda a cabeça. Os grampos serviam também para limparmos os ouvidos.

Pedra-pomes e pedra-hume. Uma para lixar calos, a outra para ajudar a secar pequenos cortes. Pinça, que eu gostava de pegar emprestada para mexer em insetos. Lixas de unha, mertiolate e éter.

Éter é uma coisa que eu nunca soube porque se teria em casa. Perguntei também para quê que servia e tive outra resposta espartana: “Para usar.” A madrinha dizia que seu cabelo começou a cair por causa de tantos produtos químicos que elas usávam no salão quando era mais nova. Talvez éter fosse um deles. Ou, outra possibilidade, e isso explicaria a resposta evasiva, ela usava como um colega meu da faculdade que, mais velho que nós, dizia que, no começo dos anos oitenta, saía para a noite com um lenço cheio de éter no bolso e o cheirava junto com as parceiras de dança “para a conversa chegar logo nos finalmentes.” Não parecia coisa da minha madrinha.

Uma vez, na escola, a professora de Ciências, falando sobre volatilidade, citou o éter: “logo que você abre, o cheiro imediatamente pega a casa toda”. Lembrei-me de um desenho, acho que do pica-pau, em que ele abria um vidro onde estava escrito éter e uma névoa se espalhava por todo lado. Lembrei-me também do éter no armário do banheiro.

Em casa, curioso, fechei a porta do banheiro e peguei o frasco do armário. Com cuidado, deixei o rosto bem afastado, abri. Esperei uns vinte segundos e nada do cheiro. Decepcionado, cheguei o frasco perto do meu narigão. A princípio, não senti cheiro nenhum. Mas quando senti algo, foi de uma vez. Uma dor no fundo dos olhos que parecia que tinham me enfiado fundo agulhas de tricô pelas narinas. À frente da cabeça ficou leve, a nuca pesada. A cabeça caiu para trás. Para não cair de cabeça no chão, tentei me equilibrar de volta para a frente. E foi para a frente que minha cabeça caiu então. Não senti nada mas, anestesiado, ouvi a pancada muito forte da minha testa na torneira.

A madrinha bateu à porta. Quando abri perguntou se eu estava mexendo com éter. Respondi que confundi com o mertiolate, para passar no machucado da testa. O corte grande que eu abri com a pancada na torneira.

Isto é amarelo. Já foi gema de ovo. Aqui, é azul. Era pedra. Deu trabalho para moer. Este vermelho, era inseto. E este, além de inseto, terra. Estes verdes eram plantas. O marrom, terra. Óbvio. Este cinza sempre foi cinza. É cinza de madeira queimada. O outro ali também. O preto, eu não sei de onde saiu.

Alguém, e eu imagino que não deva ter sido uma pessoa só, teve idéia de colocá-los em potinhos e usar para pintar. Chamam-nos tintas. E agora podem ser um pôr-do-sol, uma flor ou o mar. Ou tudo isso junto mais um casal de crianças deitado na areia brincando de adivinhar as formas das nuvens.

Neblina

Então, é disso que eu me lembro, da neblina. Eu estava com frio e era noite. Estranho sentir frio em um sonho, eu acho, mas eu sentia. Eu ia bem devagar, com medo de fazer uma besteira. Não dava para enxergar nada. De quando em quando, via uma luz, farol ou freio, à minha frente. A luz estava acesa, me ensinaram fazer isso para me verem melhor. Tinha música no rádio. Um rock alto é zoado que tentava fazer mais barulho que o ar condicionado do carro. Acho que eu estava acompanhado mas eu não sei. Não olhei à minha direita, nem para trás. Eu só olhava para a frente, tenso, com muita atenção, debruçado sobre o volante, e para o retrovisor à minha esquerda, esse era inútil porque estava todo escuro. Eu tinha sono, estava cansado. Não, não sei para onde ia. Não faço ideia. Mas eu acho neblina uma coisa tão linda!

A Carne é Fraca

O menino não gostava de comer carne. Criança em geral não gosta, tem preguiça de mastigar. As mães também não ajudam: amassam a comida para ficar mais fácil de mastigar, ensinam a molhar o pão no leite, picam as frutas. Depois da invenção do liquidificador, então… Se fôssemos roedores, nossos dentes sairiam da boca, tão pouco os usamos na infância.

“Eu não tenho fome.”

“Não tem quinze minutos, você me pediu bolo, dizendo que estava morrendo de fome.”

O menino fica sem resposta por um tempo. Não muito, a julgar pelo pouco que come, praticamente só arroz e feijão.

“Posso comer só o arroz e o feijão?”

“Não, mas se quiser pode comer só a carne e a salada.”

A salada ele também não quer.

“Mas eu não gosto de carne. Eu quero nuggets. Ou salsicha.”

“Não me interessam as porcarias que teus colegas comem. Você vai comer a carne… como pessoas normais comem.”

A mãe já dá sinais de que vai perder a paciência.

“Está duro.”

“Me deixa ver.”

A mãe corta um pedaço da carne do menino e ela mesma come.

“Não está, não. Pode comer.”

“Tem sangue.”

“Isso é molho.”

“Está crua.”

Está na hora de perder a paciência. Sabe lá o que é correr a manhã toda com as coisas para fazer e ainda ter que insistir para o fedelho comer?

“Está cozida, muito bem cozida. E você vai comer e me falar que esta uma delicia.”

O menino se assusta com o tom da voz dela. Ela também. Ele, falso, ameaça chorar.

“Mas está vermelha, parece viva.”

A mãe recupera a calma.

“Você vai comer essa carne de qualquer jeito. Não vou brigar com você. Mas você só sai daí depois de comer. Nem que chegue a hora do jantar e eu coloque o teu aí por cima do almoço no mesmo prato.”

O menino chocado olha a comida com medo até ter um lapso de engenhosidade. Vai apelar às suas gracinhas de criança que a mãe acha engraçadas, julga serem inocência. Isso sempre o livra das piores.

“Olha, mãe. Olha como esta crua ainda. Está viva.” — espeta a carne com o garfo — “Muuuuuuuuuuuu”.

“Mu? Essa carne é de porco.”

Gracejo de Alegoria

Eu não sabia o que fazer. Sozinho, nem tinha a quem perguntar. A menos que pegasse o telefone, coisa que eu não faria. Não tem cabimento ligar a essas horas para contar história, pedir conselho.

Abri a porta grande de vidro que dá para a varanda e fui lá fora me debruçar no muro, tomar ar fresco, olhar a paisagem. Talvez um dos carros na avenida, os faróis eram as únicas coisas que eu via no escuro da noite, ou um pedestre pelo condomínio, talvez um deles me desse a solução ou um bom conselho do tipo: “Dorme. É noite e antes de dormir não há o que você possa fazer.” Mas, não sei porque, eu não tinha sono.

O sereno sempre me diverte e demorou um tempo para que eu me lembrasse de motivo de ter saído a ele. Quando me lembrei, tentei relaxar um pouco o corpo e senti as juntas doloridas. Virei-me de costas pra rua e me escorei com a bunda na parede. Pela porta de vidro aberta olhei para o apartamento.

Vi o relógio, sem querer. Sou desses antigos que acham que toda casa deve ter um relógio na parede. Três e pouquinho. Tarde para sair, cedo para voltar. Sobre o balcão, a caixa de charutos que o amigo me deu em comemoração tentava. São charutos grandes. Sozinho não tem graça. Charuto é como vinho, precisa da conversa. Charutos e mulheres são como vinho.

Esse pensamento leva meus olhos para os nichos sobre o balcão. As garrafas de vinho guardadas. Vinho, além da conversa, precisa de tempo e calma para ser apreciado. Vinho não aceita pressa. Há de ser degustado. A pressa embebeda sem sabor. Vinho não é para deixar bêbado, é para ser saboreado. Charutos também precisam desse tempo. Mulheres sobretudo, mais que os dois. Casais precisam de tempo oportuno para se aproveitarem com calma.

Na estante, uma garrafa de destilado. Está ali de enfeite, foi presente. Não gosto mas é oportuno. Vou no escorredor de pratos, na cozinha. Só tenho copos de refrigerante. Não me parecem apropriados. Pego a caneca onde bebo chá. Rio soltando um palavrão. Como se a caneca fosse mais apropriada. Pego só meio dedo de bebida e volto para a varanda.

Mas me sento, na cadeira, caneca na mesa, segura entre as duas mãos, como se fosse chá quente a esquentá-las. Olho, por cima da mureta de vidro, a noite movimentada da cidade, que não vejo, escondida pelas árvores e pelo escuro. Mas imagino mil histórias que possam estar acontecendo em cada canto, embaladas pelo sereno e pelo barulho dos carros e da noite. Imagino histórias de silêncio também, de sons furtivos, escapados. E fico feliz por suas personagens.

A bebida fica intocada. Quando me lembro da caneca, é porque um pequeno movimento dentro dela me acorda do pensamento. Um barulhinho de cumplicidade lá dentro. Puxo-a para olhar. Não há nenhum líquido. Duvido mesmo que o coloquei lá. Já tenho certeza de que não. Ao invés dele, dois pardaizinhos batem os bicos e saem voando em rodeio, um em torno do outro, de mãos dadas.

Borbulhas

Fazer chá gelado não tem segredo. Só precisa do chá quente bem forte e gelo. A água esquenta na chaleira elétrica, sempre tem água quente em casa. Pego três saquinhos de café, english breakfast. Pego aquele cronômetro em forma de ovo e ponho para marcar três minutos. Mais que isso é o chá fica com gosto de couve cozida.

Enquanto isso, vou na sala e coloco um filme na televisão. Na verdade é uma seqüência que eu montei com vários trechos musicados de filmes. Não quero prestar atenção no enredo, só ouvir música e recordar algumas imagens.

É o tempo da campainha do cronômetro tocar. Jogo os saquinhos de chá na cuba da pia, para eles não escorrerem no lixo. Completo o copo grande com bastante gelo e duas raspas de casca de limão. Foi o chá ou a música ou um filme, lembrei-me de alguma coisa.

Nesse momento, um um arco-íris, ou nuvens, ou borboletas, desceu do céu e mergulhou no meu copo, como bolhas de sabão, feitas de beijos e borbulhou, alegre, o amargo de meu chá.

Sentei-me no tamborete da bancada da cozinha americana, pelo lado da sala. Sentado de lado, costas para a parede, cozinha à esquerda, sala à direita. O cheiro que do chá quente ainda perfuma o ar e dá saudades de momentos só imaginados. Esperei o gelo derreter um pouco. Olhando aquele castanho-avermelhado bem escuro e pensando na vida.