Sozinho à Noite

Tomei banho. Escovei os dentes ainda pelado no box, chuveiro fechado. Quando terminei, procurei a toalha para me secar. Esqueci-me dela no aquaradouro. Está noite já, frio pra sair pelado buscar. Olho pelo vitrô do banheiro, a toalha lá, pendurada no varal sobre a grama, já seca, secando no vento frio da noite que acabou de fechar.

O banheiro fica no quintal, nos fundos. Coisa de casa antiga. Não adianta gritar para a mãe me buscar a toalha, ela está no quarto se trocando, não vai ouvir. Não tem ninguém olhando. Eu abro a porta, dou mais uma espiada. Nenhum vizinho olhando por cima do muro. Dou uma corrida até o aquaradouro, sujo o pé com terra na grama úmida, pego a toalha e corro de volta pro banheiro. Quase arrebento o fio do varal quando puxo a toalha. Corro de volta pro banheiro.

Olho de novo pelo vitrô, ninguém lá fora, ninguém nos muros. Acho que ninguém me viu. Que coisa ridícula, homem correndo pelado! As partes balançando! Só agora, dentro do banheiro, percebo o frio. Me enrolo na toalha. Preguiça de me enxugar, mas preciso. A cabeça deixo sempre um pouco molhada.

Visto o pijama. É um pijama antigo de flanela fina. Foi de meu avô. As calças parecem aquelas ceroulas que os homens usam nos filmes antigos, mas não têm aquela abertura na bunda. Graças a Deus.

A lâmpada pendurada no caibro, que atravessa o teto sem forro do banheiro, ilumina mal mas é impossível não perceber que molhei todo o chão quando saí para buscar a toalha. Pego o rodilho e puxo um pouco da água para o box, depois passo um pano de chão que sempre fica pendurado no canto. Se a mãe vier ao banheiro antes de sair, não quero que escorregue. Tombo no banheiro é coisa perigosa.

Quase me esqueci do desodorante, do frasco que esguicha. Desabotoo o pijama e tento só borrifar. Não consigo, ele esguicha e fica escorrendo do sovaco. Eu fecho de volta o pijama molhado, penduro minha toalha, fecho o vitrô, saio e fecho a porta do banheiro para não entrar bicho.

Olho a lua, gosto dela, mesmo nestas noites nubladas sem estrelas. O vento da noite não me incomoda, pelo contrário, me agrada quando bate em meu cabelo molhado. Lembro que já é de noite e nosso quintal, vazio, pode ser perigoso, histórias de assaltos. Paro de enrolar e entro pela cozinha. Fecho a porta atrás de mim com a chave e a cancela improvisada.

A mãe ainda não saiu do quarto. Está caprichando, ele merece se arrumar bem bonita para sair com as amigas e se divertir. Eu já sou grande, posso ficar sozinho. Preciso acordar cedo de manhã, pegar o trem para a escola, depois trabalhar.

Entro no quarto, me sento em minha cama. Pego um livro que deixei no criado mudo, já me esperando para a hora de dormir. Este peguei hoje na biblioteca, pego dois a cada dois ou três dias. Leio mais ou menos um por dia, na condução e no quarto. Com o travesseiro de encontro à cabeceira, servindo de encosto, cruzo as pernas, que servem de apoio ao livro, e leio.

A lâmpada é melhor que a do banheiro, mas também é fraca. São fracas, a lâmpada e a eletricidade. Coisa de gente que mora longe. Chega pouco energia. As casas daqui consomem mais do que chega, ficam disputando entre si. Ninguém consegue alimentar suas lâmpadas com toda a eletricidade necessária. Fica essa luz fraca, meio bege que deixa tudo com um fosco, pouco mais colorido que pardo.

A mãe finalmente vem do quarto dela. De vestido, cabelo penteado, maquiagem, cheirosa. Vai com as amigas numa festa, chá, coisa assim, coisa delas. Me recomenda a ladainha de sempre, que não largue porta aberta, que não a abra a ninguém, que não largue luz acesa, que não largue fogo aceso, que durma logo porque pego o primeiro trem da manhã… Sei de cœur, nem presto atenção, não compensa. Esse papo dela me enfada que vou acabar pegando no sono mais cedo.

Ela percebe e se despede pelas últimas duas vezes, mais outros beijos e vai embora. Sai pela porta da sala. Eu a acompanho para encostar a porta. Essa dá para a frente de casa, para a varanda, depois estão o jardim, o muro baixo com portão e a calçada. A porta da sala é de madeira pesada e tem fechadura boa. Ela a tranca por fora e vai embora. Vai se encontrar com as amigas na casa da vizinha da frente.

Faz tempo que não fico sozinho à noite. Tenho impressão de que deveria aproveitar para algo, mas nem sei o quê. A mãe decerto vai achar que tenho vontade de trazer uma mulher para cá e ter uma noitada, ou que chamei os amigos para beber, fumar e jogar. As mães sempre imaginam que planejamos o que elas não querem. Meu plano é terminar o livro.

Sento-me na cama. Agatha Christie. Os primeiros livros que eu li dela me agradaram muito. Agora já estão me aborrecendo. Têm algo de igual, repetitivo, nestas história. Talvez o bandido sempre ser pego no final. Poirot ainda vai demorar um pouco para pegar este, estou no décimo-segundo capítulo, são trinte e dois, mas vai acabar pegando.

Uma coisa que eu não gosto na noite é esse silêncio. Qualquer barulho acaba chamando a atenção. Um gato o chão perto da janela, uma pomba na calha, folhas voando. Às vezes tenho impressão de haver alguém no quintal espiando pela janela. Talvez seja um ladrão me esperando dormir para entrar ou voyeur xeretando o que eu faço.

Eu me ajoelho na cama e olho pelas fendas da veneziana, com medo de encontrar outros olhos me olhando também. Não encontro, nem encontro nada. Está escuro. Não sei se não vejo nada porque realmente não há nada, – cadê o quintal? – porque está escuro ou porque tem alguém na frente da janela tapando à vista. Não distinguo nem sombras, parece haver diferenças de escuro. Pode ser profundidade, contorno, relevo, qualquer coisa.

Medo de escuro é coisa de criança, escuro não faz nada. Se eu tinha ali o medo que realmente tinha, era de outra coisa. Não é vergonha ter medo quando se está sozinho e não há para quem se envergonhar. E esse meu medo era uma sensação estranha na barriga. Não o frio da barriga que se costuma falar, era alguma coisa se mexendo lá dentro. Uma massa pesando, se mexendo devagar, me dizendo para ficar preocupado.

Eu enfrento o escuro, olhando pela veneziana. Ele me intimida como se fosse mesmo alguém me olhando. Convenço-me, muito mais oportunamente do que convictamente, de que não há ninguém lá mas, com a pulga atrás da orelha, olho o quintal também pelo vitrô do corredor. O que eu faria se tivesse alguém lá fora? O pedaço que vejo do vitrô é iluminado pela lua. Não tem ninguém, ninguém onde enxergo. Fecho o vitrô todo pra não ver mais, e nem me verem.

A porta do quarto deixo aberta. Volto para a cama, apago a lâmpada do teto e ligo o abajur em seu lugar. A lâmpada do abajur é mais fraca, mas pouso o livro no travesseiro, junto ao criado-mudo, de forma que, agora, suas páginas estão muito mais claras. O livro e o teto iluminado pela luz que sai por cima do abajur. O resto do quarto está escondido no escuro.

Fico deitado de lado, apoiado com um cotovelo no travesseiro. É uma posição mais cômoda para ler. Demoro chegar ao último capítulo. Paro de ler antes dele para pensar, tentar chegar a uma conclusão de quem é o assassino. É besteira tentar ser mais inteligente que Poirot. Ele não é inteligente, Deus Ex-Machina sabe de tudo e, com sua máquina de escrever, lhe faz pensar na solução.

Viro-me e os olhos, saindo do branco iluminado do livro para o verde lavado sem luz da parede do outro lado, servem pouco mais do que se estivessem cegos. De início, as pupilas retraídas não vêem nada. Conforme se dilatam, parecem encontrar algo, formas, movimento, na parede que parece preta. Erra quem pensa que preto é preto, que não tem tons. Um estalo me assusta. Não vou olhar. Casas antigas estalam à noite. É o frio em suas estruturas doentes de reumatismo dos tijolos e cimento velhos. Vou fingir que tenho certeza de que foi um estalo normal. Um frio bate nos meus pés, descobertos. Incomoda. Puxo as cobertas e me deito de bruços para terminar o livro, com os pés embaixo do cobertor dobrado.

Não descubro quem era, Poirot sim. E o livro acaba.

Com preguiça de me cobrir, rolo de barriga para cima, pensando em algo para enrolar antes de dormir. Acho que não vou me lembrar de nada e que é besteira tentar enrolar assim, mas me lembro das folhas que tenho no meio do livro da escola.

São folhas de árvore, eu coleciono. Tenho duas novas, da mesma árvore, que peguei perto do trabalho. Não sei que tipo de árvore é aquela. Vou voltar lá e tentar descobrir.

Me levanto da cama. É estranho me levantar e ouvir o ranger do soalho contrastando com o silêncio total. Minha sombra na parede, projetada pelo abajur atrás de mim, é estranha também, não me reconheço nela. Busco a mochila sobre a cadeira do canto onde também está o uniforme. Do livro de dentro dela, pego as duas folhas.

No criado mundo, na porta de baixo, guardo o fichário com minha coleção. Cola, tesoura, estojo, guardo lá. Pego também, sento na cama, de costas pra janela. Pasta no colo, cola, folhas, caneta. Uso uma página nova.

De costas assim para a janela, sinto de novo como se estivesse sendo observado. Olho para a janela, por cima do ombro, mas me acho ridículo. Só vejo a janela e sombra, minha sombra, toda esticada por conta da luz do abajur bater na diagonal.

Colo as folhas. Deixo espaço, para escrever o nome e anotar quando souber de quê são. Me abaixo para guardar o fichário de volta na porta do criado mudo. Ele já está bem carregado. Para guardar em pé já fica complicado. Deixo deitado com o estojo em cima.

Quando levanto a cabeça, o sono já se nota. O silêncio é maior, com seus barulhos no fundo, vento, o ruído branco do escuro, da noite. O silêncio é tanto que o barulho do vento fraco parece um redemoinho de almas cercando a casa. E, dentro, parece um fantasma entre as sombras na parede e eu. Esse silêncio surdo que faz sombra.

Deito e me cubro. De costas para a janela, não quero vê-la. Nem vou. Ajeito a cabeça no travesseiro e desligo o abajur. A luz se apaga junto com a lâmpada do abajur. O escuro, ele não perde tempo, pouco depois cobre-me o rosto, os olhos, como um lençol ou capuz preto. Ainda estou acordado, mas não tenho como reagir. Minha cabeça fica leve como se não estivesse mais ali, sobre os ombros, sobre o travesseiro. Meu corpo, se desmancha também… em sombra.

Monumento

Sábado acordei tarde. Ia trabalhar à noite. Então aproveitei a noite da sexta pra me divertir, passear, jantar fora e ir ao cinema. Acabei dormindo muito pouco.

No sábado, tomei café já quase na hora do almoço. E quando quis almoçar, meu restaurante de sempre estava fechado. Lembrei de uma lanchonete no interior, uma onde eu já há algum tempo queria ir, com uns salgados diferentes.

Peguei o carro, odeio dirigir, mas a revolta de trabalhar à noite da sanha de fazer algo diferente durante o dia. Entrei na maldita estrada, uma hora até a entrada da cidade. Pouca coisa para fazer pelo caminho, e eu doido pra uma desculpa pra parar e tomar um café ou coisa do tipo.

Ouvi todo o disco do Lobão, uma vez e meia. Ansioso por chegar, errei a saída da rodovia, peguei uma antes, na mesma cidade, mas outro bairro. Um trevo, uma rotatória que eu nunca tinha visto.

No meio da rotatória, uma estátua, monumento, algo assim. Uma carroça grande, desses catadores de entulho, com um homem é um cachorro dormindo embaixo. Nesta região, tem um artista que faz monumentos de entulho, ferro-velho, para as prefeituras. Todas as cidades têm ao menos um. Este eu ainda não tinha visto. É o mais bonito de todos.

A luz fraca da tarde nublada, o deixa pardo, mas parece ser todo feito de madeira ou metal marrom. Os outros desses costumam ser grosseiros, mal encaixados, de metal cinza, prata, provavelmente de alumínio. Alguns com marcas vermelhas de zarcão.

Parado no semáforo antes da rotatório, olho bem. Se tivesse levado a câmera, daria um jeito de descer e tirar algumas fotos. É bonito mesmo! O únicos desses de que gostei. Mas por que um catador de ferro-velho? Alguma coisa em particular desta cidade com eles?

A resposta não demorou mais que o semáforo. Logo o cachorro deu um pulo rápido, se levantou cutucando com o focinho o homem, que balançou a cabeça e esfregou o nariz com o braço.

Eu não ri, nem me espantei. Pensei em meus olhos e na luz fraca do sol mal-atravessando as nuvens, deixando a cena parda e sem vida. Pensei no homem que dormia na rotatória no meio do nada. E de novo em meus olhos que não entenderam isso antes.

E fui embora procurar meu lanche.

Rádio

Eu, quando era pequeno, morava num bairro de periferia muito violento. Meus pais ainda moram lá, e as coisas não mudaram muito. Minha avó morava na cidade, perto do centro, num dos melhores bairros, perto das melhores escolas estaduais. Por isso, meus irmãos e eu sempre estudamos em escolas na cidade. Dávamos o endereço da avó.

O pai era motorista de ônibus. Saia cedo de casa, cinco e meia da madrugada. No caminho, nos deixava na avó e ia para a garagem. Na avó tomávamos Toddy e pão com manteiga, esperando a hora de ir para a escola.

Eu só peguei por pouco mais de dois anos essa fase de acordar muito cedo. Depois de se aposentar, quando eu estava na terceira série, o pai nos acordava mais tarde, seis e meia.

Quando ainda não tinha idade para escola, às vezes, acontecia de o meu sono espalhar, ou por causa do barulho dos irmãos, ou por eu me deitar muito cedo mesmo. A mãe mandava todo mundo pra cama às oito. Quando acontecia, nem precisavam convidar, ia pra cozinha, esfregando os olhos de sono, ajudava o pai a encher sua xícara de café, com um pouquinho de pinga às vezes, pra acordar. E esperava os irmãos voltarem trocados. Ia de carona, de pijama mesmo, pra casa da avó. A mãe agradecia, tinha o caçula ainda nenê para cuidar.

Tirava o pijama lá. A avó ajudava a mãe com as roupas pra lavar e sempre desviava umas peças para eu usar nessas visitas. O avô, quando acordava para dar bom dia aos meus irmãos e me via, vinha todo orgulhoso: “Meu cenourinha! Veio ouvir rádio comigo.” O apelido de cenourinha era uma piada por causa de um macacão horroroso, entre laranja e ferrugem, que eu, quando era nenê usei numa sessão de fotos que a mãe tirou no jardim deles. Já o lance de ouvir rádio… estar com o avô era o mesmo que ouvir rádio com o avô.

Um dos primeiros funcionários da Phillips no Brasil. Quando começaram a fabricar rádios aqui, ele ganhou um. Orgulhoso, se apaixonou. Quando lançaram a televisão, também ganhou uma. Número de série 00004. Recebeu numa festa junto com o prefeito, o governador e o presidente. Ela durou anos, de madeira sólida e válvulas. Eu a conservei funcionando em meu quarto até à época da faculdade. A televisão, meu avô só ligava para o futebol, o jornal e o programa da Inesita Barroso. Rádio, era o dia todo. Tinha três, todos Phillips. Aliás, se comprássemos algo, sua primeira pergunta sempre era: “Comprou Phillips, né?”

Logo que acordava, pegava do criado mudo o pequeno, do tamanho do maço de cigarros. Esses modelos eram chamados de radinhos de pilha. Vinha do quarto para a cozinha com ele ligado perto do ouvido, escutando o fim do programa do Zé Bettio. Passava pela cozinha cumprimentando todos e ia para o banheiro. Saía com o rádio no ouvido, na mesma posição, a avó brincava que ele não tirava o rádio do ouvido nem no banheiro: “Assim, acaba se atrapalhando e molhando as calças.” Tomava o café com uma mão, o rádio na outra. Escutava o rádio e as conversas da mesa ao mesmo tempo.

Depois do café, ia cuidar dos passarinhos. No quartinho onde eles dormiam, tinha outro, mesma marca, portátil também, mas do tamanho de uma resma de sulfite, esse era de pilhas grandes. Cuidava dos passarinhos ouvindo o Gil Gomes. Minha avó brigava para não irmos lá escutar também, não era programa bom para criança.

Quando terminava, era hora de relaxar. O rádio grande, de ligar na tomada, presente da empresa, ficava na varanda de treliça, entre o tanque e o banheiro, ao lado da cadeira azul onde ele fumava pela manhã. Eu me sentava entre os dois, com meus lápis e cadernos e desenhava para ele. O avô conseguia fumar quase dois maços de Hollywood numa manhã. Ouvíamos os programas do Roberto Carlos, do Sílvio Santos, o jornal da Jovem Pan, o noticiário esportivo, as notícias do São Paulo. Era são-paulino, tadinho, faleceu tentando converter o neto a essa religião que ajudou a fundar. Não conseguiu, o orgulho do sangue português falou mais alto ao neto brasileiro do que a ele que era português.

Desligava o rádio só para o almoço, quando meus irmãos voltavam da escola. Depois do almoço, o pai passava para nós buscar e ele ia para a sala com a avó namorar e dormir um pouquinho.

Meu avô faleceu numa quarta-feira, reclamando de não poder fumar nem ouvir rádio no hospital. Eu tinha onze anos. Era o primeiro dia de aula depois das férias de julho. Minha avó pediu para eu passar o fim-de-semana seguinte fazendo-lhe companhia. Na verdade, só me devolveu a meus pais dez anos depois, quando ela também faleceu.

No domingo, quando já escurecia. Ela entrou no meu quarto com o radinho de pilha de meu avô ligado. Tinha acabado a final do campeonato paulista. O São Paulo ganhou. “Teu avô ia ficar tão feliz! Por quatro dias ele não ouviu a final… Ele me pediu pra te dar o radinho quando ele morresse.”

A antiga televisão de válvulas do meu quarto não aquentava ficar ligada mais do que duas horas por dia. Precisava de um aparelho que a gente chamava de reloginho, uma espécie de transformador ou estabilizador. O rádio, transistorizado, não. Meu avô há de ter perdoado, talvez não, seu radinho nunca mais sintonizou jogos do São Paulo, exceto quando fossem contra a Portuguesa. Foi nele que ouvi os gols de Denner, que me acostumei a ouvir o jornal ao acordar e os programas de música de sábado à noite.

A programação mudou bastante, desde então. Já se vão quase trinta anos desde que meu avô morreu. Mas eu me lembro dele sempre que ouço aquele chiado característico de quando mexemos na sintonia do AM.

Mickey

Mickey Ears

Hoje em dia, fala-se muito em bullying. Tudo é bullying, e tudo traumatiza as crianças. Mania das mães desta geração. Mas o que elas não percebem é que o pior bullying que as crianças sofrem vem das próprias mães.

Elas têm algumas manias que ninguém merece e que, tenho certeza, ainda serão catalogadas pela Anistia Internacional como barbaridades da história antiga, a nossa antigüidade. Socam comidas horríveis nas bocas dos filhos, falam com voz tate-bitate de retardadas, largam o filho no chiqueirinho na frente da televisão com aquela maldita galinha azul. E nem venhamos nós, pais, acharmos que fazemos melhor. Um dia, nossos filhos nos processarão.

Minha mãe tinha uma mania horrorosa: ela usava os filhos para brincar nas coisas de criança com eles. Palhaço, parquinho, loja distribuindo bexigas ou algodão-doce. Não interessava se os filhos queriam, ela queria e precisava do filho junto para participar. Pobre não se contenta em ser pobre. Não pode ver algo de graça que precisa entrar na fila, mesmo que o filho, irritado, diga que odeia algodão-doce e mais ainda o palhaço de cara de saco cheio que está distribuindo. O errado é o filho: “Ele tem medo do palhaço!” É o argumento mais clássico. Acham que o filho vai se ofender, subir em seus brios, e encarar a fila pra apertar a mão do palhaço, logo me lembro daquelas luvas imundas e fedidas (por que é que palhaço de periferia nunca lava a roupa?), minha cara de mamão cumprimentando com nojo, depois a frase óbvia: “Se não quer o algodão doce, dá pra mim.” E lá seguíamos o caminho, eu procurando onde lavar a mão, a mãe se deliciando com aqueles fiapos de açúcar no palito.

A minha maior diferença era com o Mickey. Aliás, com OS MICKEYS. Cansei de ser acusado de ter medo do Mickey. Riam de mim. Bastava passar por uma loja que tivesse na porta alguém com aquelas fantasias mal feitas e já começava a ladainha: “Vai lá. É o Mickey. Não seja bobão.” E era difícil o dia que não houvesse um desses pelo calçadão da António Agu, lá em Osasco. Eu simplesmente não queria chegar perto daquela coisa que tentava se passar pelo camondongo do gibi. Camundongo que, convenhamos, nunca me inspirou muita confiança, nunca se soube de que ele trabalhasse… vivia entrando e saindo da delegacia… e, mesmo assim, não passava os apuros de falta de grana, comuns a seus amigos Pateta, Donald e Zé Carioca… Sujeitinho suspeito esse tal de Mickey!… O que, no entanto, não me impedia de ler seus gibis. Que o diga Seu Vilaça, dono da banca de gibis de segunda mão na Praça Duque de Caxias, mais conhecida por “Jardim”, entre a Catedral (então Matriz) e o Hospital das Damas.

Seu Vilaça não tinha culpa pelos farsantes que pensavam estar fantasiados de Mickey no calçadão. Talvez tivesse culpa apenas por eu conhecer muito bem o original e não ser tão facilmente enganado quanto as outras crianças.

Teve um Mickey que eu me lembro muito bem, sempre me lembro, era igualzinho a todos os outros. E eu não queria chegar perto dele. Em primeiro lugar, porque não era o verdadeiro. Nem parecia. Era alguém, vai saber quem, com uma fantasia de pelúcia, ridícula, e encardida, que mais parecia de lagartixa. Mas reconheciam-se aquelas orelhas redondas, são um verdadeiro logo. Era mais rato do que o camondongo do gibi: sujo, fedido e nojento. Essas fantasias são sempre assim. Imagino que fiquem guardadas todas no mesmo depósito imundo esperando o dia da promoção da loja.

Me admira que, se o sujeito não estivesse com aquelas orelhinhas de pretas redondas, ninguém, tenho certeza, nenhuma mãe o deixaria chegar perto de uma criança. Mas, vestido assim, empurram os filhos para eles: “Como você é bobo! Vai lá! Está com medo. Ele não vai fazer nada. Você vai ganhar pirulito.”

Meu irmão é mais novo do que eu. Na época, era bem pequeno. Ainda concordava com tudo que a mãe dissesse. Ele foi. A mãe parou de insistir comigo, feliz por já um dos filhos ter concordado. Tinha então a desculpa para ela também ir brincar com o rato. O caçula foi reto atrás da mão que distribuía os doces. Ela não. Quis conversar, abraçar, brincar com as orelhas, perguntou pela Margarida. “Minnie”, corrigiram-lhe a indiscreção. Quem corrigiu não foi o fantasiado. Esse não fala como o original, da televisão e dos quadrinhos. Só acena. Sorte ainda não terem inventado celulares com câmera digital. Ela passaria meia-hora tirando Mickey Mouse Selfies.

Voltaram. Eu já enfastiado de esperar. Não sei se ela estava satisfeita. Acho que só voltou porque não achou correto deixar sozinho o filho sem-graça que não quis brincar com o rato. Mickey não era rato, era um camundongo. São animais diferentes, não se cruzam. Aquele ali sim, era um rato.

O irmão trouxe na mão dois pirulitos, o dele e um que a mãe o fez pedir em meu nome: “Para o envergonhado ali.”

Eu disse para a mãe guardar, ou pegar para ela. Não quis nem o pirulito. Eu preferia o cachorro-quente que ia ganhar na volta pra casa da avó, acompanhado por um gibi.

Rosas Amarelas

Minha avó tinha um pequeno jardim na frente da casa. Pequeno mesmo, três metros por três, ou coisa que o valha. Quadrado. Em torno dele, um caminho cimentado de, talvez, meio metro de largura, calçado com lascas grandes de cerâmica vermelha, cor de barro, servia de moldura.

Por dentro, ele era cortado em quatro por duas diagonais de cimento, que se encontravam no meio, numa espécie de rotatória. A rotatória mais os quatro pedaços formavam então cinco canteiros, bem colados, delimitados por uma borda de uns cinco centímetros de altura, o suficiente para a água da chuva e da limpeza do jardim não invadi-los a revirar a terra.

As diagonais cimentadas e o anel em torno da rotatória central eram muito estreitos. Só quando eu era muito pequeno, conseguia andar por eles. Na época, as flores coloridas, mais altas que eu, cheias de insetos, formavam um cenários surrealista, fantástico. Aproveitava quando era o caçula e só eu conseguia correr por ali no pega-pega. Atravessava outro mundo. Um sendero perdido. Acordava pra realidade ao me machucar nos espinhos. Eram muitos.

Jardim

Dos adultos, só a avó, muito magra que era, entrava ali. Com cuidado, volta e meia se machucava. Tinha problemas com cicatrização. Passava depois, horas, apertando a ferida com a mão até parar de pingar. Entrava para cuidar de suas flores.

Era bastante variedade, a maioria flores baixinhas. Dálias, margaridas. Num canto, tinha uma florzinha esquisita, de folhas brancas carnudas, pareciam pedaços de fruta. Minha avó dizia que era flor-de-cera, que se ficássemos segurando, derretia. Com pena dela, nunca tentamos.

As plantas grandes eram as roseiras. Ela gostava de rosas. Altas, mais de metro e meio de altura. São bonitas, por isso os espinhos. Vermelhas, rosas claras, a maioria, brancas e, as principais, as amarelas. Hoje em dia já é mais ou menos comum, mas na época eram raras. Volta-e-meia alguém batia palmas no portão pedindo uma. Ela oferecia um pedaço de tronco, para plantar. Quase sempre recusavam, queriam só uma flor. A avó cortava e entregava, contrariada. Queria que mais gente tivesse rosas amarelas. Não entendia as pessoas quererem mas não as plantarem.

A avó cuidava com cuidado, vaidosa de suas rosas. Usava esterco de coelho. Depois, quando minha outra avó, sua fornecedora de esterco, morreu, ela passou a usar esterco de cavalo. Comprava do peixeiro que passava às quartas-feiras, de carroça.

Quem podava era seu irmão, meu tio Porphírio, com o podão, uma tesoura forte, que servia também para cortar os ossos do frango do domingo. Ele guardava para nós as forquilhas que cortava. Gostávamos, as crianças, das roseiras para fazer estilingue. Para atirar em latas, não passarinhos, que isso não faríamos. Ai de quem cortasse uma forquilha de roseira sem autorização.

A avó regava com a leiteira. Fazia trabalho de formiguinha, buscando um pouco de água, regando devagar uma roseira, olhando-a, depois indo buscar mais água para a próxima.

Roseira

Uma vez, ela estava dormindo na sala depois do almoço, ouviu chamarem no portão. Conversou um pouco pela janelinha da porta da sala, era alguém pedindo uma rosa amarela. Ela foi na casinha dos fundos, no quartinho que foi das ferramentas de meu avô, pegou o podão e foi para o jardim. Eu estava no quintal, sentado embaixo da pitangueira, lendo. Vi ela passar para o quartinho, depois para o jardim. Daí a pouco, ouvi um desaforo e barulho do metal da do podão. Fiquei preocupado, fui olhar o que era.

A avó, furiosa, atacava as roseiras com a ferramenta. No chão, todas as rosas já estavam cortadas. Todas, independente da cor. Os troncos pelados. Sobravam só alguns bracinhos com folhas. Aquelas folhas verdes bordadas de espinhos. Não tinha mais ninguém no portão.

“Quê foi?”

A avó, como se eu tivesse desligado a chave, parou de cortar. Pôs a ferramenta no bolso do avental e, visivelmente brava ainda, começou a arrastar seus tamancos de volta pra sala. Não conseguiu levantar o braço cansado para pôr-me a mão no ombro. Eu a segui sem precisar disso.

“Quando eu fui dar a rosa, a mulher disse que era pra macumba. Ainda fez cara como se eu fosse uma retardada por não saber disso. Macumba com rosa minha, ninguém mais faz.”

E ela nunca mais encostou no jardim.

Welcome

Welcome back my friends to the show that never ends.
We’re so glad you could attend! Come inside! Come inside!
— Emerson, Lake & Palmer, Karn Evil 9

Grato por aparecerem, muito grato. Vamos entrando, por favor. Por favor, fiquem à vontade. A exposição começa lá embaixo no fundo, mas não precisam se preocupar com a ordem. Podem entrar. Grato pela presença.

Há um livro de visitas espalhado por aí, quem quiser deixar seu nome, um comentário, será muito apreciado e respondido com prazer.

Não há uma ordem lógica para nada. Aqui certamente não é o lugar para isso. Podem passar o olho por cima e andar por onde lhes interessar. Não se preocupem com o caminho, tampouco deixem de reparar na bagunça, isso é o que não falta. Assim como café. Há café por todo lado, de todos os tipos e variedades, passado agora e na garrafa térmica também. Mas, nos últimos tempos, o que tem saído mais é o chá, gelado principalmente, preto ou verde. Peguem copos, canecas, sirvam-se. Não façam cerimônia.

Para quem estiver interessado, logo aqui à frente, há um devaneio fresquinho. Cuidado, está bem molhado! Tomem cuidado com a luz azul no caminho. Não sei o que ela faz, mas é melhor não descuidar.

Vocês vão reparar também que há muitas montanhas, árvores e bichos em exposição. Cuidado para não se perderem nem tropeçar. Não queremos ninguém rolando morro abaixo aqui. Muito menos perdido onde não conhecem. Cuidado também para não machucar as borboletas.

Ops, os mais pudicos, por favor, evitem e não reparem, afinal vamos pedir licença, mas não nos desculpamos por isso. Vocês eventualmente encontrarão casais namorando, em momentos de intimidade. E mesmo em momentos de intimidade muit íntima! Procurem não atrapalhá-los. Vocês também não gostariam de serem incomodados nessas horas.

No final, a saída eu não sei onde fica, mas vocês certamente encontrarão quando quiserem. Se precisarem de algo, estou à disposição, é só me procurar. Mais uma vez, grato pela presença. Fiquem à vontade.

Capítulo #23

Eu estava caçando algo para a ceia. Qualquer coisa para dar gosto à sopa. Depois das árvores, eu cheguei à baixada que dá para o lago. Olhei para o meio, pensando se não teria sido melhor levar o caniço para pescar.

E, para mais adiante, dando um pouco a volta, vi uma pessoa no meio do lago, em pé. Era uma mulher, não sei se bonita, mas era muito gostosa! Gostosa mesmo! Ao menos, de longe, achei. Estava em pé, de vestido vermelho, e não parecia ter um barco nem nada. Era como se andasse em cima da água.

Eu fiquei curioso e fui dando a volta, para ver de perto em cima de quê ela estava. Ela não tinha o cabelo muito volumoso, mas atrás ele formava um rabo de cavalo que, caído pelas costas até abaixo dos joelhos, parecia um rabo peludo de animal. O corpo todo dela também, era muito peludo, um pêlo avermelhado, curto, bonito, que cobria o corpo todo. Ela parecia feita de pelúcia.

Antes de eu chegar a um ponto onde enxergasse o que a sustentasse sobre a água, ela chegou à margem e caminhou para a ponte, aquela antiga, do trem, que já não funciona mais. Eu, quando alcancei ali, procurei com os olhos pela água e não vi nada, nenhum sinal de balsa, barco ou coisa do tipo. Mas já estava escurecendo, meus olhos podiam não ver direito.

Ela havia passado por baixo da ponte, passei também, curioso com ela. Ainda não conhecia ali. Sempre pensei que, do outro lado da ponte, o parque continuasse com árvores, lagos, trilhas. Mas não, passando por ali, parece uma caverna, ampla, escura, com o teto bem alto. Não dava para andar ali sem enxergar nada. Não vinha nenhuma luz pela entrada da caverna. Esperei meus olhos se acostumarem e vi que havia pedras, e muita gente reunida sobre elas, olhando para cima. Na verdade, não sei se foram meus olhos que se acostumaram ou se uma luz surgia. Estava tudo iluminado por uma luz azul muito fraca.

Todos olhavam para a mesma direção. Olhei também e vi, no alto, ao fundo, tudo muito escuro, exceto por um par de olhos azuis. Não olhos azuis como os nossos. Eles emitiam luz, azul. Além de muito azuis, como nenhum olho humano pode ser, como pedras preciosas lapidadas, emitiam a luz azul que iluminava tudo ali. Os meus olhos sim são comuns e, quando se acostumaram, percebi algo que parecia o contorno de um corpo, com cabeça geométrica e orelhas que pareciam asas. Não dava para ter certeza.

Achei que fosse uma performance, mas uma voz alta, claramente enfurecida, que veio do corpo de olhos azuis me assustou: “Vocês parecem crianças brincando. Vocês acham que sabem mais do que brincar como crianças?” A voz só me assustou. O pavor das outras pessoas que estavam lá foi o que me apavorou. Todos começaram a correr, baratas tontas, trombando, tentando fugir. Assustado, corri também. A entrada da caverna, por onde vim, não existia mais.

Me escondi atrás de uma pedra pensando no que fazer, enquanto os outros se desesperavam, vi algo, longe, que parecia ter um tom diferente de azul. Podia ser uma porta. Corri lá, estava ainda mais escuro, e cheguei num corredor ou algo assim. Sem enxergar nada mesmo, andei devagar, com as mãos nas paredes, me guiando. As paredes, lisas, não eram de caverna. Tinham acabamento bem feito, deviam ser de alvenaria. Ali era um prédio ou uma casa. Talvez fosse um túnel por baixo das árvores do parque, tenho certeza de que era plano, não subi nem desci nada.

Depois de andar uns dez minutos por ali, e ja com medo de não achar saída, encontrei o fim do corredor. Palpando, senti uma porta pequena, de madeira rústica, à minha frente, a parte superior do batente não era mais alta que meu peito. Me abaixei, procurei pela maçaneta. Consegui abrir. Fui por ela.

Achei que era uma saída. A porta deu para uma casa simples de teto muito baixo. Tive de ficar arcado para não bater a cabeça no teto. Um cômodo só, me pareceu. Mesinha de centro e poltronas perto da porta, cozinha à esquerda, um beliche e uma cama de casal à esquerda. À minha frente, do outro lado do cômodo, uma mesa com poucas cadeiras e outra porta.

Alguém gritou: “Maria, eles vieram. Por favor, não queremos ir embora.” O teto baixo se justificava, eles eram pequenos. Foi difícil encontrá-los. A tal Maria estava na cozinha, atrás do fogão. Algumas crianças, de tamanhos variados, mas todas pequenas, o que não me permitia imaginar suas idades, bagunçavam a cama e o beliche. O homem que falou, estava na mesa. Ele mesmo, era pouco mais alto que meu umbigo. Levantou-se e veio me receber com um gesto cerimonioso.

“Eu não vim para vocês irem embora.”

As crianças correram se esconder todas no beliche, que fecharam com um cobertor, como se ela fosse uma barraca. Lembraram-me cachorrinhos amontoados, escondidos na casinha dos pais.

“O senhor não veio nos despejar? Não é o senhorio? Não veio da parte dele?”

“Não. Eu estava fugindo daquela confusão que o sujeito, não sei o que era aquilo, com os olhos luminosos azuis causou. Eu tinha entrado na caverna atrás de uma mulher de vestido vermelho, com pele que parecia de raposa.”

“Ah! Está fugindo.”

“Eu quero voltar pro parque.”

“Aqui não tem voltar. É um eterno fugir. Venha por aqui.”

Saímos pela outra porta, a oposta, ao lado da mesa. Depois dela, havia sol, areia e um lago, mar, oceano, não sei, o cheiro era de água salgada.

“Vai sempre em frente, aqui não há voltar, só o em frente, fugir do que ficou pra trás antes que ele te pegue de volta. O em frente é por aí. Vai.”

Ri: “Como? Aquela mulher parecia andar por cima da água. Vou andar por cima também?”

“Ela te deixa passar.”

Ele chegou à beirada da areia e afagou a água como faria a um cão, a um bicho de estimação. Ela, já sabendo o que ele queria, abriu-se, como se lhe puxassem um zíper, formando um vale, entre duas altas montanhas líquidas.

Eu devia estar pasmo com isso, mas não estava. Foi como se já imaginasse que algo assim iria acontecer. Agradeci.

“Não agradeça, siga.”

Caminhei pelo vale do fundo exposto do mar para sair do outro lado. Era muito longe, mas a distância foi vencida como se eu estivesse num filme editado, com vários cortes das partes de mesmice de caminhada. Lembro-me de andar um pouco. Depois, de estar mais à frente, mais cansado, andando. Depois, de estar ainda mais à frente, mais cansado. Meus tênis pareciam as botas de sete léguas. Ou minha memória não guardou todo o caminho que fiz.

O vale terminou. Subi para a praia do outro lado. O zíper que separava a água se fechou, bem devagar, causando só algumas ondas grandes que, no entanto, disciplinadas, não invadiram a praia.

À água, me esqueci de agradecer. Fiquei olhando-a e ouvindo seu barulho, suas ondas se acalmando. Até que esse barulho, enfraquecendo, se confundiu com uma música que vinha do meio das árvores, depois da praia.

Lembrei-me de ir sempre em diante e segui a música. Era chata. Parecia aquelas músicas incidentais que fazem fundo para cenas com anjos, nos filmes. Encontrei uma mesa de picnic. Ao lado, no chão, ao pé de uma árvore, alguns adolescentes improvisavam a música em instrumentos simples.

Sentada num dos bancos da mesa, a mulher do vestido vermelho segurava um copo de bebida, uísque com gelo, creio eu. Bebericou um gole, dois. Passou o copo para a outra mão, que manteve sobre a mesa, e virou-se para mim, com uma perna de cada lado do banco. Encarou-me. Não era bonita, mas seu corpo delineado pelo vestido vermelho justo era perfeito. Sua pele parecia mesmo de um animal ou de pelúcia, coberta com pelo lustroso castanho avermelhado, mesmo tom dos cabelos compridos, não totalmente presos atrás. Pelo decote grande, via-se que seu pêlo, no peito e na barriga, era branco. Viam-se também os peitos deliciosos. Não sei se tinha mais vontade deles ou de alisar a pele dela. Era difícil resistir, quase impossível. O desejo era tanto que tive medo de não conseguir, perder a cabeça e atacá-la. Ela percebeu, bebeu o terceiro gole e largou o copo. A mão que tirou do copo, pousou no lindo pêlo castanho da coxa. Com a outra, começou a afastar o ombro do vestido, oferecendo-me o colo. Não terminou. Subi no banco, também uma perna de cada lado, e abracei-a. Terminei eu de afastar o ombro do vestido, devagar com minha mão enquanto lhe beijava e apartava de encontro a mim. Forcei seu corpo para trás e ela teve de se apoiar com a mão no banco. Pôs suas coxas ao redor de minha cintura e com uma mão me puxou para si, enquanto, com a outra, se apoiava no banco para que eu não a deitasse nele. Apartou-me contra si e eu apertei-a contra mim. O abraço foi tão justo que me atrapalhou a respiração. Fiquei mais doido por ela. Senti fome, muita fome. Não era de comida, era desejo. Ela era muito forte. Seu abraço apertou todos os músculos de meu corpo, me deixou todo dolorido, dos dedos dos pés aos das mãos. Excitado demais, foi no meu peito e na minha boca que senti o latejamento e os espasmos de gozar. Surpreso com aquele prazer incrível, procurei seus olhos. O que achei neles foi aquela luz azul, fria, sem expressão, agressiva. Me assustei. De repente, seu corpo me pareceu frio, um cadáver, e seu rosto agressivo, odioso. Lembrei-me de algo que não lembro e me senti maldito transando com o demônio.

Assustado, transtornado e comas as pernas ainda bambas do prazer que me apavarou, corri, pelas árvores, sem pensar nisso, mas fugindo em frente. Pés descalços, calças de moletom, que eu uso de pijama, caindo com o elástico da cintura frouxo ou estourado. A camiseta de algodão grosso encharcada de suor gelava no vento do dia que se fez escuro, nublado e frio. Meu pé, desacostumado de andar naquele tipo de chão, se machucava em tudo que eu pisava, pedras, gravetos, raízes, folhas… O medo era maior, continuei correndo. Respirava o vento gelado, que incomodou meu peito. Faltou ar, faltou força para respirar. Achei que ia desmaiar. Não tinha coragem de parar.

Percebi que tinha chegado a uma plantação, uma espécie de pomar de árvores baixas, todas muito juntas. Escondi-me no meio. Agachado entre duas árvores, coberto pelas copas delas, que se emaranhavam, se confundindo. Quase me acalmeu e consegui chorar. Só escorreram algumas lágrimas, meus beiços tremeram e olhei para cima, para tentar pensar direito. Foi quando vi o pior. Vi as frutas das árvores. Eram bolas vermelhas, de fogo, sólidas. Chamas redondas brotadas, penduradas, nos galhos. E o fazendeiro chegava perto. E eu olhei onde ele estava, pra fugir dele, e vi… seus olhos… também eram daquela luz azul.

Fiquei sem reação, paralisado. Ouvi outra música. Crianças passaram de mãos dadas, brincando, acho que de roda. Elas me viram e pararam brincando ali. A música que eles cantavam parecia marcial. As mãos, eu vi então, não estavam dadas, eles se seguravam em algo que parecia uma corda, mas que era uma cobra grande, morta.

O último que chegou, não segurava a corda de cobra. Estava solto e não cantava. Segurava com as duas mãos um copo d’água e olhava vidrado para algo dentro dele. Cheguei perto, o copo tinha alguma bebida alcoólica. Percebi pelo cheiro. Perguntei por que nao brincava com as outras crianças. Ele não respondeu. Ficou olhando, por cima, o líquido do copo, sorrindo.

Tudo então ficou escuro. A gente pensa que o escuro é preto. Pode ser branco também. Aquele foi um escuro todo branco. Um apagão branco seguindo de um barulho tão alto que não dava para ouvir. Mas eu o senti nos ouvidos e no corpo, quando já não via mais nada. O barulho mais alto que todo o resto silenciou o mundo todo. Foi uma explosão, atrás de mim. Longe eu acho. Olhei de volta as crianças. O que vi foram seus corpos queimados, como carne queimada de churrasco, e cinzas de todo o resto espalhadas em torno. A plantação sumiu em dunas de cinzas que se mexiam como ondas no vento que sobrou da explosão.

Eu não consegui ficar horrorizado com isso. Nem mesmo com a morte das crianças. Atordoado, caí no chão e achei fofas as cinzas que me receberam lá. Cansado já, imagine como! Vi outras plantas brotarem ali, um novo jardim. O paraíso ou o inferno brotando, a pronto e de pronto, saindo da terra, de sob as cinzas que lhe serviam de alimento.

Nasceram, que eu vi, um pé de borboletas, outro de veados, um com coisas de plástico, de várias cores, um pé de sexo com romance, outro de pura sacanagem. Eram árvores, arbustos, plantas, trepadeiras, mato, flores, cada um mais inimaginável que o outro. Do labirinto bagunçado que formaram saiu mais bagunça. Uma galinha cacarejou, mas botou um gato, não o ovo que eu esperei. O macaco ficou em pé sobre uma flor, mas afundou no chão de terra sólida. O sol balançava no céu, ao sabor do vento, como se estivesse pendurado por barbante.

A bagunça e o absurdo eram tão grandes que eu não conseguia olhar para tudo. Meus olhos simplesmente não conseguiam focar nas imagens que eu não entendia. Senti-me mal, muito mal. Senti-me mais bêbado do que imagino que alguém possa ficar, e ainda estava consciente. O mundo começou a girar, não a meu redor, como acontece quando a gente bebe. Girou sentado numa roda-gigante, eu junto. E eu não tinha bebido nada. Nem usado nada, nada, nada. Não faço isso, usar algo. Beber bebo, mas não tinha bebido. Ao menos não me lembro de ter bebido. E, se tivesse, tanto a esse ponto, me lembraria.

Com medo de perder o equilíbrio, sentei-me na cadeira da roda-gigante em que se transformou a realidade. Tive vontade de vomitar. Não saiu nada. O choro, aí sim, encheu meus olhos e molhou o mundo todo. Parecia chuva. E choveu mesmo.

A cabeça doendo, achei que ia explodir, como se alguém bombasse água dentro dela com tanta pressão que me saísse tudo, as lágrimas e a chuva, pelos olhos.

Uma luz vermelha, à minha frente, iluminou tudo e outros olhos azuis apareceram. A luz vermelha tentava engoli-los. E eles a ela. Eu não vi nada disso. Sí conseguia chorar. Chorei, chorei até que, de tanto e tão alto chorar, parece que minha cabeça finalmente explodiu. Senti uma pancada forte nela, de metal contra metal. Minha cabeça soou alto, longe, como um sino.

Novamente tudo ficou branco de tanta luz ofuscante, o mesmo barulho. Outra explosão de escuridão branca e barulho imenso que silenciou o mundo. Congelei de medo esperando o que viria então.

Demorou para os olhos fazerem foco e os ouvidos escutarem de novo. Aos poucos, fui enxergado uma névoa tomando forma e percebendo um som baixo que a principio ecoou. Depois, ambos tomaram forma e reconheci primeiro tua voz, depois teu rosto, aqui do meu lado.

E acho que foi aí que eu não agüentei e comecei a chorar de verdade.