Pensamentos Esparsos (depois de ter rodado 130 km atrás de bolinhos de chuva e sorvete de gengibre)

Chega um dia na vida da gente em que você percebe que já passou da idade de entrar na academia para ser piloto de caça. Que não é tão bom cantor como gostaria para ganhar um disco de ouro, e é pior ainda na guitarra ou no contra-baixo. Que está decepcionado demais com a política para ainda pensar em um dia ser presidente da República. Que ser o lindo da mamãe quer dizer ser o lindo da mamãe, e que nem todas as mulheres pensam como ela. Que a Madonna nunca passará pela sua cama, nem você pela dela.

Nesse dia, você também descobre que nem tudo o que você faz é certo. E que nem tudo que você diz que te fizeram errado é errado mesmo. Percebe que é normal, que pode magoar e se magoar sem razão. Que nem sempre é mocinho, às vezes bandido, umas tantas vezes vítimas, e noutras apenas figurante.

É chocante. Não há como não sentir um certo arrependimento de certas escolhas ao perceber tantos sonhos frustrados. Ideais desmitificados. A gente nem se toca, mas é só nesse dia que você, não importa que idade tenha, deixa de ser adolescente e percebe que existe uma realidade que não é a que pensa viver enquanto sonha.

Algum tempo depois desse dia, chega o dia seguinte a ele. O dia seguinte é quando você percebe que suas escolhas não foram tão erradas. Você escolheu porque não podia ter tudo ao mesmo tempo. E se orgulha de ter escolhido, mesmo quando acha que errou. Percebe também que, na maioria de seus erros, tentou acertar e que errou porque não nasceu sabendo tudo. Descobre que nem o que quis é importante para você. Que priorizou o que importava. A maioria de seus sonhos eram só desejos que nem teriam importância se fossem satisfeitos.

E quando percebe isso e que, depois disso, os sonhos frustrados que ainda lhe restam são tão poucos, mas tão poucos, que você tem certeza de serem eles os que realmente importam, e que para eles você ainda tem tempo suficiente. Quando percebe isso, é que você vira adulto e pode enfim ser feliz consigo e sincero com quem estiver junto.

Escada-Rolante

No caminho para cá, eu entrei no metrô naquele saco cheio de “todos os dias o mesmo caminho, mesmo metrô…”. Até me esqueci de pegar o bilhete antes. Lembrei de pegá-lo já no bloqueio. Atrapalhei os outros que queriam passar, igual eu reclamo dos outros atrapalharem.

Logo que eu passei o bloqueio, vi umas meninas, uns vinte anos. Olharam na minha direção e riram. Achei que fosse de mim. Mas não. Lembrei que era sexta-feira. Elas estavam bêbadas. Deviam estar rindo de alguém que iam encontrar fora do bloqueio e que estava lá esperando. As sextas-feiras são assim. Cheias de bêbados se encontrando no metrô para sair para beber.

A escada rolante descia, quase vazia. Sexta-feira, onze da noite. As pessoas não pegam metrô ali. Elas descem ali para beber. São raros os que embarcam. Só havia um casal, uns dez degraus pra baixo do meu. Casais ali são comuns. Eram mais velhos que eu. O homem arrumava a mochila nas costas.

Depois, fez algo que me deu saudade. Desceu um degrau, ficou um mais baixo que ela, e a segurou pela cintura. Imaginei o que faria. Lembrei de um post que uma amiga me mostrou, ela achou num blog, sobre como o casamento acaba com o beijo. Não devia, mas não sou eu quem vai desmenti-lo. Lembrei de histórias. E quase acertei o que fariam.

Em vez disso, ele chegou a cabela por cima do ombro dela, disse-lhe algo ao ouvido e lhe beijou a bochecha. Ela sorriu, desceu para o mesmo degrau que ele, deu-lhe a mão e também lhe beijou a bochecha. Desceram mais um pouco se olhando, até a escada acabar e foram escolher um lugar na plataforma.

Não acertei exatamente o que fariam, mas uma coisa eu tenho certeza de que acertei. Eles não eram casados.