Magali

Acho que a Magali foi a mulher mais bonita que já trabalhou comigo. Não sei se foi a mais bonita de todas que eu já conheci. Todas é muita coisa. Magali era realmente muito bonita, por dentro e por fora.

Conversávamos bastante, no trabalho. Fora, seus horários eram complicados. Ciumenta, corria na saída do trabalho, para o escritório do marido, marcá-lo de perto. O do almoço era fixo, apertado, o meu sempre foi bagunçado, dependente do ritmo do trabalho. Como eu trabalhava das onze às oito, normalmente, almoçava tarde, ficava difícil sincronizar com ela. Quando podíamos almoçar juntos, íamos só os dois. Os outros gostavam de falar de baladas e de trabalho. Isso nos irritava. Falávamos muita besteira séria. Por causa desses almoços, ouvíamos muitas piadas maliciosas. Ela sempre me provocava: “Não dá. Você é tão legal! Porque você tem de ser tão feio?” O jeito era rir.

Pras colegas que perguntavam se tínhamos algo, ela dizia: “Ah! Ele é tão legal! Eu queria tanto dar uma consertada nele!”

Um dia me contou um segredo: “Sabe?” Tudo o que ela contava começava assim. “Sabe? Eu gosto de homens, mas vocês deviam ter peitos.” Eu, bobinho, respondi que homens têm peito. Ela pareceu se revoltar de ter que explicar: “Não, não, peito mesmo, peitão. Assim ó – e fez com as mãos nos seus – peitos de encher a mão, pra se abocanhar e ainda sobrar, com uns bicões parecendo chupeta. Não tem como resistir a um peitão. Nossa! Eu fico doida! Mas não tem uma mulher que não fique doida com um peitão. Toda mulher gosta de um peitão.”

Não sei se foi minha cara de pasmo ou minha boca calada, sem palavras. Falar o quê? Ela falou, já tinha começado mesmo. Foi assim que eu soube que pessoas muito normais podem fazer coisas muito diferentes. Que há mulheres normais que ligam para as amigas quando estão em casa e o marido não.

O choque durou um pouco. Mas eu logo percebi que para mim ela continuava a mesma. Talvez porque fosse a mesma. Talvez porque fosse como é por ser como é.

13 de Junho

Dia de Santo Antônio de Lisboa, ou Santo Antonio de Pádua, dependendo de sua criação.

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Guarda-Roupa

Feriado improvisado, dia para fazer o bota-fora do guarda-roupa. Algumas roupas velhas demais, outras praticamente novas, sem ou quase sem uso, uns trastes que eu não sei como tive coragem de comprar e, espanto, coragem de usar. Algumas roupas manchadas da madeira do armário, fedidas de tanto tempo guardadas. Outras amassadas, pelo mal jeito das pilhas e cabides onde ficam organizadas.

Quero terminar isso hoje, preciso sair, comprar algumas caixas de plástico, daquelas que parecem gavetas e cabides para guardar isso. Dois cabides grandes para pendurar meus quimonos na porta do quarto, esperando usar, e na área de serviço, esperneando secar. Aproveitando, tenho um relógio para deixar no conserto e quero encomendar cartões de visita.

Estou cansado do shopping perto de casa, tem outro na zona norte. La tem tudo isso e, bem que eu podia comprar um relógio novo, aquele que vi lá semana passada. No caminho, correrias, abertura da copa, o pessoal que trabalhou estava correndo pra casa. Não sei quando o shopping fecha. Será que chegaria a tempo? Errei o caminho, passei pelo exército que toma conta dos jogadores americanos, hospedados na “gaiola das loucas”. Tive de pegar a marginal. Muita gente indo pra zona leste, confusão naquela direção, por causa do jogo. O shopping fica naquela direção. Desisti. Voltei pro shopping perto de casa.

O shopping não tinha movimento quase nenhum, exceto no café. Ia pegar meu chá, meu capuccino não posso, café não posso. Só no café havia fila. Desisti também. Fui pro mercado. Encontrei caixas parecidas com as que queira. Melhores, mais caras, comprei. Também os cabides. Não tão bons colo queria, mas comprei, serviam. Deixei no carro.

Voltei pra dar uma volta nos corredores, quase vazios. O café não tinha fila. Peguei meu chá. O chá quente ali vem sempre muito quente. É essa a graça, ficar sentado de bobeies, esperando o chá esfriar. Fiquei, embora não tivesse muito o que olhar. Esperei esfriar, sentado na poltrona. Um funcionário veio me perguntar se eu pediria mais alguma coisa, eles já iam encerrar o atendimento, por causa do jogo, mas que eu podia ficar tranquilo, na poltrona, com meu chá, por quanto tempo precisasse.

Olhei as lojas, quase todas fechadas. Ainda restavam apenas uma, de roupas femininas, outra, de perfumes, e outra de lingerie. Pensei, lembrei, Dia dos Namorados. Amanhã é Santo Antônio, quase me esquecia, feriado em Osasco, tem quermesse e procissão. Perfume é um presente complicado, coisa muito pessoal, cada um tem que escolher o seu. Mas lingerie, eu sempre achei lingerie o presente mais óbvio e mais significativo que um homem apaixonado pode dar. Acho um jeito bonito de dizer: “Olha o quanto eu te quero!” É uma faca de dois gumes. Você tem de demostrar seus amor o tempo todo para que o presente não pareça dizer que o relacionamento é só físico. Mas quando se esforça pra isso, quando os dois se esforçam, esse é um presente que, mesmo que mal escolhido — de tamanho ou modelo errado — porque o cuidado tem que existir, sempre, mas, mesmo quando escolhido errado, ele tem um jeito especial de demonstrar paixão e, sobretudo, orgulho pela presenteada.

Pensando nisso, me lembrei, devia ter tomado café na livraria. O café de lá é mais gostoso, e sem fila. Me arrependi, o daqui não é tão gostoso, não é ruim, mas o da livraria é melhor. E, de lá, se vêem livros, não lojas de lingerie.

Não terminei o café. Fui embora quando a loja de perfumes fechou. Já era tarde, tinha que terminar a arrumação. Voltei pra casa.

Em casa, no quarto, terminei a arrumação do armário. Sobraram discos — CDs, eu ainda os chamo de discos, são discos, ué — que deviam estar na estante, não no meu guarda-roupa. Sobrou uma caixa grande de documentos para verificar com calma. E também muita roupa, que eu não queria mais, de fora. A sacola do bota-fora pareceu maior que o próprio armário. Imagino os contextos e metáforas em que pessoas também são roupas.