Coincidência Noturna ou Pequena Anedota da Rotina Conjugal

Foi coincidência nós deitarmos juntos. Há muito tempo não fazíamos isso. Muito mesmo, não me lembro de quando foi a última vez.

Ela acabou de se deitar, escovou os dentes antes de mim. Eu vim do banheiro. Deitei-me de barriga pra cima. É como costumo fazer ao me deitar, não para dormir. Deito de barriga para cima, esticado, para pensar na vida, sempre penso na vida antes de dormir. Faço isso há muito tempo, provavelmente desde a última vez em que deitamos juntos.

Ela devia estar esperando que eu a abordasse. Acho que seria de se esperar. Alguns segundos depois de eu me deitar, provavelmente decepcionada, virou-se pra mim, pôs a cabeça em meu ombro, a mão em meu peito.

Passei o braço por baixo de seu pescoço, abracei-a como pude. Ela começou a esfregar a mão em meu peito. Acho que ela achou que fosse um carinho, ou que me excitaria.

Lembrei-me então de algo, ou de nada, ou só aconteceu algo ou nada. Tirei a mão dela de cima do meu peito e deitei-me de lado de costas para ela.

“Que que foi?”

Não respondi. Ela também se deitou de lado, de costas pra mim. Dormiu rápido. Deve ter ficado aliviada de não precisar fingir que se importa. Eu, daí a pouco, incomodado, olhava o teto e pensava.

Passarinhos

Meu avó era passarinheiro. Criava canários. Portugueses gostam de canários. É o pássaro da terra. Embora meu avô não gostasse que lhe lembrassem que ele era português. Perdeu os pais pequeno. Assassinados. Foi criado então, na fazenda que herdou, pelo tio, também português, irmão do pai. Esse tio o punha para trabalhar com os jornaleiros — é assim que chamavam os bóias-frias — pequeno ainda, oito anos. Não o deixava dormir em casa, na própria casa, dizia que era para que ele não tivesse intimidade com as primas. Dormiam com os cavalos, ele e o irmão gêmeo. Foram dezoito irmão, em várias levas de gêmeos. Só os dois vingaram. As primas eram mais velhas. Gostava delas. Lembrava delas com carinho. Com uma delas, especialmente boa, criou algum laço. Ela, com pena, lhes levava comida furtada da casa, a comida que o tio lhe racionava e muitas vezes negava. Quando teve uma neta, exigiu que lhe dessem o nome dessa prima. Fugiu de casa ainda pequeno, quando descobriu, já desconfiava, que foi o tio quem matou seus pais. Anos mais tarde foi convidado pelo governo de Portugal a assistir à execução do tio, preso por esse e outros crimes, e a reclamar sua herança. Recusou. Deixou o passado para o passado. Em sua cabeça, não era mais o rico menino português que alternava as estações do ano entre Portugal e o Brasil. Tinha outra vida, de gente simples, de que gostava. Português era o tio que não prestava.

Aproveitou a altura anormal e falsificou documentos para se passar por adulto. Conseguiu. Trabalhou de coveiro. Conheceu seu futuro sogro, também português, seu chefe e amigo. Aos doze, fingindo ter dezoito, conseguiu carteira de motorista e um emprego de ascensorista no Mappim. Os elevadores de então usavam motores de carro e eram postos em funcionamento pelos mesmos pedais, marchas e embreagens. Aos treze, casou com a filha do amigo, ela tinha quinze, também era portuguesa. Do tempo de fazenda — o pai teve duas, uma em São Paulo, no Campo Limpo, outra em Portugal, em Espinho — guardou o gosto pelas árvores, pelos cavalos e pelos pássaros. Casado, morando na modesta casa do sogro, nunca mais teve um cavalo, mas o quintal era cheio de árvores. E junto a elas construiu o viveiro que, a partir de um casal, populou inteiro.

Teve também dois papagaios. Um pequeno, meigo, subia nele enquanto fumava e lhe esfregava o rosto no rosto, como pedindo carinho. Não falava muito. Mas o avô gostava mesmo do outro, grande, bonito, falador. Ensinou-o gritos de guerra de seu time de futebol. Do clube onde foi boxeador na juventude. Esse papagaio era ruim, mau. Ninguém se atrevia a mexer nele, só meu avô. Ainda assim, o velho tinha marcas fundas no peito, pareciam talhadas a faca. Eram como aqueles que fizeram no Rambo no primeiro filme. A culpa era desse papagaio. De uma vez em que ele lhe atacou para tentar fugir do banho. Fosse outro bicho, meu avô simplesmente o colocaria dentro de um saco com um tijolo e atiraria no córrego. Fazia isso com os bichos que não prestam. Com o papagaio não fez. Magoado, perdoou com o coração o que o juízo condenava.

Ele tinha também um sabiá. Pegou-o com arapuca quando ainda morava no Itaim, na casa que o sogro lhes deixou, no tempo em que o Itaim era zona rural.

Quando eu era pequeno, já não havia mais os papagaios, só os canários e o sabiá. Tratava deles cedo na manhã o avô. Dos canários era rápido. Água para beber, água para banho, vacinas na água, pão velho, alpiste, ovos cozidos e jiló.

O sabiá era tratado na filigrana. Com cuidado, levava tempo. Bolo de fubá envelhecido, seco, aveia, farinha de milho, larvas de bicho da seda que o avô criava numa lata na garagem.

Chegávamos à grade do viveiro com um pedaço de pão e os canários se atiravam brigando para ver quem pegava mais. Nem precisava do pão. Se chegasse o dedo perto da grade, eles já vinham brigando, se batendo com as asas, e procurando com o bico algo que pegassem do dedo.

Já o sabiá, ficava sozinho numa gaiola, pendurada alta. Só o avô alcançava. Ele tinha um metro e noventa e quatro. Mesmo em cima de uma cadeira, as crianças não alcançavam. Tinham de buscar a escada. Aproveitávamos para também pegar um pouco de aveia, umas minhocas do chão. Não compensava. Mesmo do alto da escada, com a guloseima que fosse lhe oferecida, o sabiá ficava quieto, de bico fechado. Não que fosse arredio. Nem se dava ao trabalho de se mover para sair de perto, fugir da criança. Nem ficava imóvel. Continuava sua vida, o que estivesse fazendo, ignorando completamente a comida e quem lha oferecia. Nunca aceitou nada de outra mão que não fosse a de meu avô.

Quando ele morreu, quinze dias depois, morreu também o sabiá, triste, magro. A comida que a avó e a madrinha lhe serviram, intocada.

Dormir no Trabalho

Aqui no trabalho, no segundo andar, há uma sala para repouso. Para prosou mesmo. Há boxes individuais com cadeiras reclináveis, daquelas fofas que se reclinam até virarem divãs. Os boxes, uns dez, são separados entre si, mas se abrem para uma parede larga onde há uma televisão grande. O som da televisão é transmitido para o celular para que possa ser ouvido com fones sem atrapalhar ninguém. As paredes são forradas por rolhas para abafar o ruído. A iluminação é convidativa, o odia servir facilmente de quarto de casal. Quando não temos o que fazer, estamos enrolando, esperando a carona, ou descansando depois de um dia ou noite exaustivos, podemos descansar, ou mesmo dormir, lá.

Foi o que fiz esta noite. Trabalhei até tarde da noite, aliás trabalhamos, estávamos em grupo. Há situações em que uma besteira feita por alguém de fora gera um transtorno enorme para ser consertada e o julgamento de quem tem poder para julgar não tem o bom senso e a justiça óbvios do cidadão comum. Uma besteira dessas acaba gerando transtorno enorme para várias pessoas que não tinham nada que ver com ele, enquanto o fazedor de besteira volta para casa tranquilo, para assistir televisão, dormir e voltar a fazer o que sabe no dia seguinte.

Foi com esses pensamentos que trabalhei. Não só eu, éramos seis ao todo. Trabalhamos maldizendo o felizardo que se safou recorrendo à patente, ao crachá e às conexões. Imaginem que que gosto trabalhamos.

É nessas horas que o mundo pode mudar completamente e de repente, basta o piparote catalisador. Uma palavra mal dita, um esbarrão, uma besteira que, noutra ocasião, seria perdoável, são coisas que podem transformar colegas, e mesmo amigos, em inimigos de guerra. Da mesma forma, nessa tensão, gestos inocentes já geraram muitos relacionamentos mais que amistosos.

Foi o primeiro o que aconteceu comigo. Não se deve mexer com quem está bravo com os outros, meus colegas deviam saber. A raiva que se acumula na cabeça está doida para sair. Se você da motivo para a pessoa abrir a boca voltada em sua direção, provavelmente será para aí que ela se atirara. Não se põe barata no copo dos outros. No copo do café. Qualquer um sabe disso, não sabe? O copo cheio do líquido preto e a barata, morta creio eu, jogada lá, camuflada. Nem se fosse um copo de água. Gosto muito de café. Isso chama a atenção. Ganhei apelido por causa da freqüência do copo de café forte e amargo em minha mão, em minha mesa. Sou a principal personagem de todas as piadas relacionadas a café, e a matar tempo também, eles não sabem a diferença. Coitados. Mas nada justifica a barata no copo. Nada além da vontade de arrumar briga. Arrumaram, todos os outros cinco.

Foi por isso que eu, mesmo tendo tempo ainda de pegar a última condução ou uma carona, passei a noite na empresa. Não queria companhia deles, desses… cruéis traidores. Eram muito piores que o incompetente engenheiro social que conseguiu que trabalhássemos até tarde limpando sua sujeira.

Pus os foninhos para ouvir música do telefone. Metal. Para saciar a sede de violência corporativa. Pus o telefone também para despertar-me antes da primeira condução do dia seguinte. Dormiria ali, dormir é dormir, é igual em qualquer lugar. Mas não perderia nenhum minuto da manhã de sábado dentro da empresa. Pegaria a primeira condução, tomaria banho em casa e já sairia para o parque tomar café com os pombos, passear e fazer exercício.

Dormir foi ainda mais fácil do que pensei. Quando acordei, tinha ainda quinze minutos para ir ao banheiro antes de subir no ônibus. Arrumei a mochila, as coisas soltas dentro. Conferi se a carteira e o telefone não haviam caído do bolso. Fui ao banheiro. Urinei e lavei a mão. Lavei olhando para elas. Quando terminei, pensei se não deveria passar à minha mesa, pegar a escova de dentes. Só aí olhei o espelho. Foi para olhar os dentes, se estavam visivelmente sujos. Porco eu. Não me preocupei com a sujeira, mas com ela estar aparente.

No espelho, meu rosto. Soltei um palavrão, um grito bem alto. Meu rosto estava todo pintado, com linhas curvas que lembravam um formigueiro. Era uma tatuagem trabalhada, coloridas, detalhada, muito bem feita, que o cobria por inteiro. O vestia todo, como aquelas tatuagens japoneses que vestem o corpo todo. Não era japonesa essa. Não havia japonês ali. Havia, ah! havia, havia os traidores. Algum deles devia ter voltado para encerrar com chave de ouro a dedicada tarefa de envenenar-me o fígado com ódio.

Tentei lavar com água, com água e sabonete, só com sabonete, esfregar com papel toalha, com minha camisa. Não saía. Só o que consegui foi molhar-me. Manguei-me com água, a roupa quase toda, como me mangaram com a tinta e a barata. Eu era um idiota, total, não só para quem riu da peça que me pregou, era também para quem me visse e também para mim.

Sentei-me numa privada e fechei a porta do box, com raiva, danado da vida com todos, com medo de que alguém aparecesse e me visse assim. Soquei as duas paredes ao mesmo tempo. A da direita, de compensado, tive medo de que caísse. A da esquerda, de alvenaria, forte, machucou minha mão. Dei mais dois socos, nessa, até que meu pulso rejeitou o quarto. Então quis chorar, mas não chorei, desesperado estava.

Engasgado, segurei o rosto com as duas mãos, o cotovelos nos joelhos. Quis sentir meu rosto. Mexi nele como a mãe mexe no filho doente. Tentei sentir-lhe o contorno. Não senti o relevo da tinta. Não sei o que usaram. Lembro de algo nas aulas de química, algo relacionado a prata, mancha a pele e não sai mais. Tem de esperar a pele envelhecer e esfoliar. Já não é mais ódio, é só desespero.

Continuava alisando o rosto, sem saber o que fazer, esperando descobrir do que se tratava e como resolver. Senti então uma rebarba, próxima à orelha. Uma diferença de textura. Um vinco diferente. Cutuquei. Alisei. Cutuquei bastante com a unha até que um pedaço desgrudou. Forcei a unha por baixo e mais um pedaço desgrudou. Parecia um adesivo. Fucei por todo o longo da borda que fui achando e aos poucos soltei-o. Pouco a pouco.

Machucava para tirá-lo. Ao desgrudar, puxava a pele e parecia não querer desgrudar, como se fosse mais uma camada dela. Meu rosto ardia. Senti uma queimação começar que parecia febre. Aflito, ansioso, num momento de maior desespero, puxei-o com força. Queria arrancá-lo todo. Não consegui. Desgrudou mais ou menos metade, um lado do rosto. Tomei ar. Os olhos e o nariz escorriam. A bochecha parecia ter sido queimada com ferro em brasa. Puxei de novo, com mais violência. Não saiu tudo, porque a mão escapou. Violência demais! Faltava um pedaço perto da outra orelha. E foi esse que doeu mais. Quando soltou, a pele ardeu como se tivesse rasgado.

Realizado, amassei e apertei o maldito adesivo, e atirei-o dentro da privada. Fechei a tampa e sentei em cima, me recuperando da auto-agressão. Não sei porquê, achei que seria bom esfregar o rosto com as mãos. Não passou, mas acalmou a pele o suficiente para que eu me lembrasse de dar descarga. Apertei o botão da válvula com gosto e só saí do box quando ouvi o último barulho da água.

Saí dali, fui para a pia lavar as mãos, pensando em como, faria para voltar para casa, agora que havia perdido a primeira condução do dia. Teria de esperar quatro horas até a próxima. Perdi o sábado.

Chegando à pia, olhei para o espelho, queria ver se havia saído tudo. Saiu tudo. E muito mais. Meu rosto não estava mais lá.