Cutículas

Ela me entregou o café e, a propósito, estava muito bom. Eu quis puxar conversa. Ela é uma garota simpática, ia me distrair.
Mostro a piada que me enviaram no celular, sobre um café. Ela parece que não achou graça, a expressão não mudou, como se ainda procurasse o final, e a graça.
Reparou noutra coisa: “Por que você fez isso com as suas cutículas?”
Para falar a verdade, eu nem sei o que é isso. Imagino. Tenho o costume de cortar as unhas umas com as outras. Sou bom nisso. Acabo raramente precisando de tesoura. Minha unhas estão sempre curtas. Mas, volta e meio machuco o dedo. Ou na ponta, onde termina o dedo e se corta a unha. Tem uma pelezinha ali, que vem de debaixo da unha, que, quando criança, me ensinaram a chamar de sabugo. Ou dos lados da unha. Aquele pedaço do dedo que a cobre. Estavam bem machucadas mesmo.
Perguntei o que é cutícula, ela não deu uma resposta convincente de quem sabe, quis saber se eu fiz aquilo com os dentes.
Disse que fiz com as próprias unhas e desconversei, não quis mais conversar. Ainda bem que ela teve que fazer outro café.
Me escondi fuçando no telefone. Não quis mais conversar. Ela podia reparar nos lábios. Nessas pelezinhas que eu arranco sem querer quando estou muito chateado. Para isso eu não acharia uma desculpa esfarrapada.

 

Overdose

 

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Pedi, no caixa, meu café-com-leite e torradas.
Não almoço em domingos e feirados. Acordo tarde, tomo café na padaria: dois cafés-com-leite e dois pães com manteiga, sem miolo. Depois, à tarde, lá pelas três ou quatro, faço um lanche. Gosto do café-com-leite com torradas daqui. Acompanha cream cheese e geléia. Apesar do açúcar, que não gosto, como a geléia também. O café quebra o doce. Peço também um chá preto ou de hortelã. Ajuda a tirar o gosto de açúcar da boca.

Na fila do balcão, para retirar o lanche, olhei a vitrine das coisas que não posso olhar antes de fazer o pedido. Sempre tem um bolo diferente e eu olho curioso. Hoje o bolo era de… abóbora!

Engraçado, até ontem eu nunca tinha visto bolo de abóbora. Há dois dias, falei uma coisa sobre abóboras, lembrando do conto de fadas, acho que é da Cinderela essa história. E ontem, por coincidência, quando pensava nisso, vi um bolo de abóbora num café no meio da estrada. Curioso e encantado, comi um pedaço. Era uma delícia açucarada! Odeio açúcar. Soube-me ao doce de abóbora da avó. Minha avó fazia o doce de abóbora com pouco açúcar e bem apurado. Ficava doce de tanto cozer. O bolo era muito parecido. Com bastante gosto da abóbora e de cravo.

20140504_190858841_iOSDe lá para cá, ainda me lembrei algumas vezes da Cinderela e de sua carruagem puxadas por ratinhos. Hoje, mais uma coincidência, outro bolo de abóbora, noutro café. Este de hoje, não tem a mesma cor-de-abóbora do de ontem. É bem clarinho. Se me dissessem que é de abobrinha, eu acreditaria, pela cor. Preciso comer um pedaço. Tive de sair da fila, voltar ao caixa, e pedir um pedaço dele também.

Na mesa, tratei de comê-lo antes
das torradas. Com este decepcionei-me. Insosso. Não senti gosto de nada. Nem do açúcar que não gosto. Comi tudo para não fazer desfeita à fada madrinha, e para não ofender São Francisco, como dizia minha avó.

Preciso voltar ao original, é muito melhor.

 

Orçamento

Quando passeio, tomo café, ando. Não tenho bem o que olhar na cidade. Olho as pessoas, os casais. Acho bonitos olhar os casais. Principalmente no frio, passeando abraçados, com roupa de frio, acho bacana.

Ao cansar de andar, ou me cansar do frio, entro num café onde possa pedir uma bebida quente bem grande e me sentar olhando o movimento. Entrei num e fui para a fila fazer meu pedido. Não gosto de filas, mas o frio lá fora é bem pior. Aproveito para olhar as pessoas que estão sentadas por ali.

Logo perto, havia um sofá com um casal mexendo juntos num notebook numa mesa em frente. Casal com notebook não é coisa comum. Quem normalmente fica mexendo nessas coisas são homens sozinhos, ou gente que se vê que está ali usando a mesa do café para trabalho como se fosse seu escritório.

Eles podiam estar vendo fotos de viagem. Ele prestava atenção em algo que teclava ou clivava, ela tinha o sorriso largo de quem vê fotos.

Ele acabou rapidinho o que estava digitando, pegou o copo de bebida quente, encostou-se para trás no sofa e se virou um pouco na direção do corpo dela.

Ela demorou um pouco mais para tirar os olhos da tela. Sua bebida, um copo igual ao dele, ela já estava segurando, com as duas mãos, como fazemos para aquecê-las.

Devem ter vindo a pé, da rua, estão com casacos pesados. Dois guarda-chuvas estão em pé ao lado do sofá, encostados no “L” entre o braço e o encosto. Uma bolsa feminina grande, florida, sentada junto. Devem ser deles, a bolsa dela. Vieram da rua sim.

Ela se sentou de lado no sofá, de frente pra ele, em cima da perna direita, o pé pra fora. Ele sério, ela sorrindo. A mão que tinha livre, ele pousou na coxa dela, fez um carinho de leve e deixou ficar. Ela tirou um pouco uma mão do copo, retribuiu o carinho pelo braço dele. Depois, chegou o corpo mais para o encosto do sofá e voltou a pegar o copo com as duas mãos. Ele, daí a pouco, tirou a mão da coxa dela para apontar o notebook falando algo. Ela respondeu. Ficaram conversando, bebendo o que tinham nos copos. Até que ele pousou o seu na mesa, juntou as maos olhando o notebook e balancou a cabeca em “não” com cara de que não acreditava em algo. Ela pôs-lhe atrás do pescoço a mão direita, que devia estar quente de segurar o copo. Falou-lhe algo, sorriu, esfregou a mão pelas costas dele. Ele desfez o siso, parecia mais alegre. Olhou-a. Chegaram os rostos mais perto. Ela lhe ofereceu a boca. Beijaram-se rápido.

Voltaram ao notebook quase abraçados, revezando o controle. Não sei do que falavam. Não precisava saber. Aliás, nem devia ficar olhando.

Quando peguei minha bebida, procurei um lugar para me sentar. Fui para um banco no balcão da entrada para tomar meu cappuccino e escrever em meu tablet de homem sozinho. Passando pelos sofás, ouvi: “Este é meu. Este também. Este é teu.” Mexiam numa planilha, parecia um orçamento. Que xereta eu! Deviam ser casal novo. Recém casados ou noivos. Seria mais fácil eu ter reparado se usavam alianças. Isso é coisa que homem não repara, nem entende. Se tivesse olhado, saberia se eram noivos ou casados.

Não precisei beber devagar para ter bastante tempo olhando-os. Minha bebida estava muito quente, muito quente mesmo! Foi assim que eu pedi e fizeram direito. Tive que esperar muito até conseguir beber. Dividia a minha atenção entre escrever uma história e xeretar o casal. Eles revezavam a atenção ao notebook com conversas olho-no-olho. Parecia ensaiado.

Demorei tanto, todavia não tanto quanto eles, que precisei ir ao banheiro. Meu copo ainda estava pouco abaixo da metade, mas abandonei-o. Desci do banco e enquanto arrumava a mochila, ouvi a mulher dizer numa surpresa meio brava: “Ah não, de novo isso não!”

Virei-me para olhar, foi instintivo. Ainda peguei o final da fala. Ela não teve muito tempo para ficar brava. Ele deixou o copo na mesa, as duas mãos pôs em seu rosto. Olhou-a nos olhos, alisou-lhe a bochecha e o cabelo e disse: “Não vamos brigar por nada, nunca. A gente não precisa. Vamos conversar com calma e decidir juntos. Deixa anotado aí do lado, no final a gente conversa sobre isso.” Ela sorriu com os olhos e fez que sim com a cabeça. Pôs a cabeça no ombro dele um pouco.

Aí, como se nada tivesse acontecido, voltaram ao que faziam antes, exatamente do mesmo jeito.