Harpia

O menino se sentou com o lanche no toco de árvore que servia de banco no mirante. O lanche era, na verdade, só o que comeria de almoço. Para um almoço era algo bem simples. Um pedaço de pão, outro de queijo, uma pêra e chá gelado, guardado na garrafinha da água mineral. O lanche está num mochilete que lhe serve de farnel, exceto a garrafinha do chá, que ele pegou de um isopor com gelo, no porta-malas.

Mesmo com os óculos, tem alguma dificuldade para enxergar. A paisagem é só um relevo de tons de verde. É complicado fazer foco para distinguir as árvores, as trilhas, uma montanha da outra, encontrar de onde vem o barulho de água.

Pendura o mochilete no ombro esquerdo e se senta um pouco mais para o lado para sentar a garrafa, aberta, a seu lado no tronco. Ela lhe encosta gelada na perna, incomoda, vai um pouco mais para o lado, para não encostar nela.

Assim, consegue usar a mão esquerda para pegar o lanche de dentro do mochilete, conforme vai comendo, e ainda tem a mão esquerda livre. Dá para segurar os binóculos com ela. Os têm pendurados ao pescoço.

Não tem pressa de comer, também não tem de olhar tudo. Com os binóculos dá pra ver, é muita coisa, muito detalhe. Fica olhando, parado, beliscando aos poucos a comida. Começa a entender as coisas que o pai fala sobre paisagens. Olhar parado ali, muita gente lhe diz que é chato, perda de tempo, se torna divertido por poder perder esse tempo olhando tudo o que achar curioso, sem pressa.

E ele olha. Come o pão, o queijo. Repara nas ondas sutis que fazem os galhos das árvores conforme balançam com o vento. Pássaros que voam do meio de um monte de árvores para outro. Sua distração só é distraída para chacoalhar uma formiga que lhe faz cócegas na perna. Olha se não tem outras, um formigueiro por perto, e volta para o lanche e a paisagem.

Pega a fruta. Vê uma árvore com a ponta, o topo, diferente, longe. Acerta o foco dos binóculos para longe, onde está essa árvore. Parece uma mulher sentada no topo. Uma mulher sentada, encolhida, com agasalho grosso, preto. Cabelos presos. De costas para o mirante. Fica curioso com o que ela faz, como chegou lá. Come a fruta, olhando-a. O que ela fará? Baba. Baba o pra direita da boca, pelo queixo, e a mão e o braço que seguram a fruta. Sem tirar os binóculos, limpa a baba do rosto com o ombro, é o ombro que vai até o rosto, para não perder o foco, o ombro da camiseta serve de babador. A mão e o braço, limpa na bermuda.

Continua comendo, com mais cuidado. Baba menos. Ela mexe a cabeça, olha para o lado, para a esquerda. Depois volta a cabeça para a posição anterior. Ele termina a fruta, seca de novo a mão e o pulso na bermuda. Não se distrai da mulher que está olhando. Fica segurando o toco da fruta, o cabo, o miolo mais fibroso, com as sementes, e o umbigo da fruta. Segura, postergando jogá-la no lixo. Não pode jogar lixo ali, nem mesmo resto de fruta. Um bicho pode comer e passar mal. Ou, imagina, nascer uma pereira no meio dos pinheiros! Não pode.

Depois de mais um tempo olhando, uns dez minutos, e segurando a fruta, a mulher, numa cerimônia bonita, ergue-se estufa o peito, levanta a cabeça, abre os braços, segurando, aberto, o agasalho. Agacha-se, de novo, um pouco e pula. Pula para frente e voa, de braços abertos, planando. Voa para longe. Dá a volta por trás de algumas árvores, aparece de novo mais adiante, e, por fim, some atrás de uma montanha.

“É uma harpia. É a maior águia que existe. O corpo é do tamanho do de uma pessoa da tua idade. As asas são mais compridas que meus braços. Bacana, não?” Era o pai. Havia lhe trazido um saco para jogar o lixo da fruta e, quando percebeu a ave que o filho olhava, parou, em pé a seu lado, olhando também. É fascinado por essas aves, são suas preferidas nos zoológicos. É raro conseguir ver uma solta.

O menino jogou no saco o resto da fruta, limpou de novo a mão e bebeu chá. “Parece uma mulher.” O pai ainda tentava vê-la, viu que o menino sujava a roupa, mas não ligou. “É por causa do tamanho e do formato da cabeça. E daquele penacho que parece penteado de cabelo. Têm até umas lendas sobre isso. Dizem que elas são mulheres, bruxas, que guardam um monte de lã de ouro de algum deus. Que viram águias quando querem, para se proteger, atacar ou voar até o lugar onde escondem a lã.”

O menino se levantou, bebendo ainda o chá. Seguiu o pai para o carro. “Se fosse verdade, ninguém tentaria segui-las para encontrar o ouro?” Suas refutações pré-adolescentes eram muito práticas e lógicas. Mais que o normal para alguém de sua idade. O pai achou engraçado ele argumentar. “É claro que é mentira.”

“E como você pode saber? Por acaso já tentou seguir?”

“Não. Mas é óbvio que essa história é mentira. Eu li num gibi do Tio Patinhas. Na história, o deus é grego, mas, até onde eu sei, harpias só existem aqui.”

Estava na hora de ir para a próxima parada do passeio. Foram embora, conversando.

Pausa

Tem coisas do trabalho que não se pode conversar no escritório, no meio das mesas, dos outros funcionários. O certo seria conversar em particular numa sala de reunião. Mas as salas de reunião dos escritórios novos são mal feitas, não isolam direito o som. Além disso, duas pessoas conversando numa sala de reunião, depois de algum incidente sério em que um deles esteve envolvido, chama muito a atenção. Eu percebi isso logo. Me acostumei a ter esse tipo de conversa noutros lugares, no posto de gasolina, na padaria. Foi por isso que chamei meu colega para conversar no estacionamento fora da empresa. Ninguém espada. Fica longe do prédio, quase um quilômetro de descida, precisa ir de carro. É normal as pessoas descerem lá para fumar e ficarem conversando.

Eu estacionei, peguei um chiclete, sentei na guia mascando. Meu colega acendeu o cigarro e se encostou no meu carro, fumando. Fechei a janela com o controle remoto, para não entrar fumaça, e fiz-lhe sinal de que ia se sujar, o carro estava todo sujo, pego estrada de terra todo dia. Ele deu de ombro e continuou.

Queria animá-lo, o clima andava bem pesado, desagradável. Não consegui, ele me explicou todos os motivos, sem a raiva que devia sentir. Explicou consciente, detalhado. Falamos sobre o que fazer. Ele não se animou, tampouco se empolgou com o plano de ação. Planejou e ia segui-lo tão maquinalmente quanto seu desanimo permitia. “É questão de tempo. Já vai acabar.”

Ele fumou três cigarros, incluindo aí o tempo que enrolei para destravar a porta do carro e deixá-lo pegar o segundo e, depois, o terceiro. Irritação me faz tomar café. A ele, faz fumar.

Pediu-me para voltar antes que pegasse o quarto. Levantei-me. Ele deu a volta no carro para entrar. Cheguei perto da porta, mas antes de destravá-la de novo, vi um bichinho no vidro.

Era uma abelha, quietinha, como se estivesse grudada na poeira grossa que sujava o vidro. Quieta demais, eu podia apostar que ela havia se encalhado na poeira e já estava cansada demais de tentar sair dali. Cansada demais para tentar fugir sozinha.

Eu não gosto de matar bichinhos, nem baratas, nem osgas, graças a Deus nunca precisei matar rato. Nem ratos sei se mataria. Fiquei com pena de dar partida ou abrir a janela com a abelha ali. Nem sei que mal isso poderia lhe faz, mas tive pena. Sempre tenho. Ainda mais da bichinha ali, parecendo indefesa.

Meu colega me perguntou o que tinha acontecido. Falei da abelha no vidro, que ia colocá-la no canteiro de flores atrás de mim.

Procurei alguma coisa, peguei o crachá. Pensei se estava ainda viva. Estava, enquanto a recolhia, com cuidado, tenho aflição de achar que vou machucar bicho, usando o crachá, ela mexeu um pouco as anteninhas. Ainda assim, ela nem fugiu, nem ficou em pé no crachá, caiu de lado, deitada nela. Nem se aconchegou, como fazemos ao deitar na cama, na poltrona, ou no colo. Devia estar muito mal.

O crachá de plástico é liso, eu só tinha que girar o corpo, meia volta, para colocá-la nas plantas. Casca de inseto também é lisa. Mesmo com meu cuidado, ela escorregou e caiu. Caiu direto pelas frestas do ralo grande que recolhe a água da chuva. Ele estava logo à minha esquerda.

Olhei pra dentro do ralo. Dá pra ver, entra bastante luz. Procurei a abelha. Ela já estava grudada numa teia de aranha.

Forte Apache

De pequeno, eu gostava muito de ler. Com quatro anos, meu irmão me ensinou. Ele tinha oito. A madrinha me comprou uma cartilha, igual à que ela usou na escola, todo mundo, no século passado, usou a mesma, e um caderno. E o irmão me ensinou, igual ela o ensinou quando ele tinha minha idade. Eu aprendi rápido. Acabei a cartilha em dois ou três meses no máximo. Ler não é difícil. Se incentivada, a criança aprende cedo e rápido.

Ter aprendido a ler cedo foi a chave do meu sucesso na escola. Logo que aprendi, meu troféu foi o acesso à enciclopédia da estante, aos livros da madrinha, aos gibis do meu irmão, ele colecionava Tio Patinhas, e, o principal, meus próprios gibis do Mickey e do Pato Donald e revistas de palavras cruzadas.

Um pouco depois de fazer quatro anos, meu irmão caçula nasceu. Havia ainda a Tata, tinha idade entre eu e o Zezinho. Quando o menor nasceu, minha madrinha começou a me buscar em casa toda quarta-feira de manhã para visitar meus avós. Era um roteiro bem estrito, com os horários bem certos.

Ela chegava em casa às oito. Conversava com minha mãe na cozinha, não me deixavam ouvir. A mãe devia falar do pai, vivia infernizando a vida dele. Às nove, a madrinha me levava. Pegávamos o ônibus na curva da estrada. Eu morava na estrada, em frente ao cemitério, meus pais ainda moram lá. O ponto de ônibus, fica a um quarteirão, num canteiro oval de uns vinte metros quadrados, que o pessoal ali chama de praça. Até lhe deram nome de praça, com o nome do português dono da padaria.

Em quinze minutos estávamos na cidade. O ponto em que descíamos era privilegiado. Tinha a maior banca de jornal e o melhor cachorro quente da cidade. A madrinha sempre me perguntava qual eu queria ganhar: o cachorro quente ou o gibi. Eu sempre preferia o gibi. Sabia que ganharia o cachorro quente de qualquer jeito. E ganhava, o cachorro quente, o gibi, numa semana Pato Donald, noutra Zé Carioca, e uma revista de palavras cruzadas. O Mickey me esperava na casa da avó.

Meu cachorro quente sempre terminava antes de passarmos pelo hospital. E no hospital havia uma sorveteria. Era hora de ganhar o Cornetto que a madrinha gostava mas, não sei porque, não podia tomar. Na esquina seguinte, em frente ao colégio das freiras, ela ainda queria que eu comesse uma coxinha. Com o sorvetão ainda na mão, não dava. Ela pedia meia dúzia para viagem, e uma empadinha também.

Passávamos a outra escola, a estadual, onde estudavam meus irmãos mais velhos e, depois, eu e o caçula. Mais um quarteirão, estávamos na avó. A empadinha eu comia ali, na mesa da cozinha, fazendo as palavras cruzadas, enquanto a avó me contava as histórias de Trás-os-Montes e preparava o almoço. Quarta-feira era o dia do peixeiro passar. No almoço, havia sempre rissoles e sardinhas, para agradar o neto que já não era mais o mais novo.

O avô ficava na varanda fumando e ouvindo rádio, conversando com a madrinha que levava roupa. Vinham para a cozinha ao meio dia em ponto. Era também a hora em que meus irmãos chegavam da escola. Almoçávamos enquanto o avô tentava nos provar que entendia mais de futebol que qualquer outro, que seu time era o melhor e que só os eletrodomésticos da Phillips eram bons. Ele trabalhou uns trinta anos lá. Sua televisão, enorme, de madeira, tinha o número de série quatro. Ele a ganhou porque era o funcionário mais antigo da Phillips quando ela começou a fabricar televisores no Brasil.

Depois do almoço, o pai vinha nos buscar para levar pra casa. Ele tinha dois trabalhos. Motorista, da madrugada até a hora do almoço, e vendeiro, do meio da tarde até o fim da novela. Nos levava pra casa no intervalo, no caminho entre os dois.

Eu chegava em casa, sempre decepcionava a mãe. Ela queria um beijo, um abraço. Eu corria com meus gibis novos para o nosso quarto de bagunça, onde ficavam a televisão, os brinquedos e dois bancos velhos de Kombi. Era a solução da mãe para não quebrarmos a casa toda brincando. Num dos cantos, eu tinha uma caixa muito grande de papelão. Não me lembro do que era, deve ter vindo da venda do pai. Era tão grande que eu comecei a empilhar meus gibis encostados às paredes dela e, mesmo quando todas as paredes já estavam completamente cobertas por eles, no meio ainda havia espaço suficiente para eu me sentar com as pernas cruzadas, lendo. Era uma trincheira, um forte, o meu forte apache. Ali, eu lia meus gibis novos, antes de empilhá-los, lia alguns antigos, enquanto os irmãos faziam lição e viam televisão.

Quando começava a escurecer, a mãe brigava comigo, para eu não ler no escuro. Eu fechava a caixa, fechava aquelas abas de papelão que funcionam entrelaçadas para fechar a caixa, e ficava ali, quieto, imaginando meu faz-de-conta, das histórias em que participaria e que escreveria quando fizesse meu próprio gibi.

Battlelines – The Tokio Tapes

Para mim, música sempre foi um jeito de soltar o corpo e mergulhar num mar de fantasia e ilusão. Repousar numa atmosfera, num mundo que só pode existir em som. Para viajar, nesta noite, visitei as Tokio Tapes. Tantos músicos que eu gosto, num concerto só. Steve, Chester, John Wetton…

Tem uma música aqui, do John Wetton, que não tem muito a ver com as outras e com o tipo de música que se espera de uma banda como essa. Mas foi exatamente essa música que me chamou a atenção hoje. E que eu repeti duas vezes. É Battlelines.

Carole King – You’ve Gotta a Friend

Essa não pode passar sem um post. Não é novidade o quanto eu admiro o trabalho do Fish. Hoje ele postou no facebook sobre o disco da Carole King que ele ganhou de sua mãe alguns dias antes de viajar para a Inglaterra para se juntar ao Marillion, na contracapa ela copiou a mão a letra desta música, e de como essa letra se tornou importante na vida dele.

Cerimônia

Eles não fariam aquela cerimônia tradicional, grandiosa, cara, para se lembrar a vida toda.

Durante o dia, fizeram a mudança, das malas dela, para o apartamento onde ele já morava. As chaves, ela já tinha, e também o costume de chegar para visitar, ficar e dormir sem precisar avisar antes. Meia dúzia de amigos, mais de amigas, ajudaram a carregar malas, caixas e arrumar algumas coisas no guarda-roupa. Não que precisassem. Foram convidados para o jantar e se ofereceram para ajudar. Seria divertido, e teriam desculpa para chegar mais cedo sem incomodar.

O jantar, para marcar a data, num restaurante que eles gostavam. O dono os conhecia já, namoraram muito lá. Foi muito simpático em reservar uma mesa grande para eles. Ao todo não eram mais que vinte. A meia dúzia de amigos, os pais, os irmãos e os cunhados. E nem todos iam. Não era um casamento, era uma comemoração.

Tanto que eles ficaram muito sem-graça, encabulados, quando os convidados os incitaram a discursar e trocar votos enquanto esperavam a comida. Mas ela, eu acho, não foi pega tão de surpresa. Já tinha preparado algo. Será que ele pisou na bola em não preparar nada? Ele tinha que saber que faria isso? Não tinha nada preparado. Ela leu o dela, sorrindo feliz, leu do telefone. Foi bonito. Ele ficou encabulado. Ela, com a atenção no que lia, não ficou tanto. Ele mordeu o beiço e, quando ela terminou, pensou em lhe beijar. Ela olhou emocionada, mas não chegou perto para deixar-lhe beijar.

Depois era a vez dele. Esperaram que ele falasse o dele. Ele não tinha nada pronto. Tentou inventar algo rápido, de improviso. Ele é bom nisso. Em pouquíssimos segundos, se lembrou de tanto coisa, coisa com ela, coisa por ela, coisa de antes dela, que imediatamente ficou com vontade de chorar. Abaixou um pouco o rosto para tentar disfarçar e se controlar, perceberam todos, o olho esquerdo molhou é o rosto escondeu o sorriso de lábio mordido de antes. O lábio ainda estava mordido, agora pra controlar o resto do rosto.

Ele pegou o telefone também. Não era para ler nada. Rápido, procurou e pôs uma música. É uma música que ele gosta e que sempre achou que cairia bem em algum trecho de uma cerimônia de casamento. Encostou o telefone na orelha dela, para que ouvisse direito. Ela reconheceu a música e se lembrou de quando ele falou dela e ela a ouviu pela primeira vez. Gostou da lembrança e da cara emocionada dele, se emocionou também.

Ele, sem palavras, desistiu de falar bonito, ou de ser adequado à ocasião, só quis ser sincero: “Você sabe o bem que me fez você entrar na minha vida, o bem que me faz você nela. Eu só quero que nós continuemos nos amando e respeitando como até hoje, e conseguir retribuir todo esse bem que você me faz.” Falou bonito. Falou e chorou. É um chorão. Nem todos sabiam isso, alguns estranharam.

Ela o abraçou. Ele se esqueceu daquele beijo que pensou em lhe dar. Demorou um pouco para desfazerem o abraço. Deram as mãos, se olhando, acariciaram os rostos um do outro, mais sinceros e esperançosos que nunca. Mudos, prometiam-se que daria certo.

Foi uma cerimônia de que se lembrariam pelo resto da vida.

Flashback I

Eu me lembro bem daquele dia, foi igual ao anterior, e talvez ao anterior também.

Eu saí do trabalho, umas seis e meia, sete horas. Saí sozinho. Não era desses dias bons para happy, devia ser uma quarta ou quinta-feira. Provavelmente quinta, porque eu estava sem a mochila grande da academia. Ela é grande, pesada. Só o quimono já deve pesar uns oito quilos. Mais a toalha e as tralhas de banho, e o peso da própria mochila, deve dar dez.

Do trabalho para casa eram três estações de metrô, mais trezentos metros de subida da rua. Não davam nem vinte minutos. Eu não queria chegar tão rápido. Queria companhia, conversar, fazer algo bom. No mínimo passear. A princípio, pareceu uma boa idéia passear. Tem mais duas estações ao longo da avenida, no sentido contrário ao de casa. Eu podia passear, olhar as lojas, o movimento, tomar café. Eu já tomava bastante café no trabalho, me acostumei quando trabalhava num projeto com muitos americanos e argentinos. Nos próximos dias, vou me acostumar a tomar café também em cafeterias de rua e no shopping, passando o tempo e olhando o movimento quando não estou no trabalho. Podia passear pela avenida para passar o tempo e, então, pegar o metrô mais para trás. Há outras duas estações na avenida. Uma terceira mais adiante, mas essa não quero. Me deixa triste, lembranças de outro tempo.

Eu começo a andar, na direção do metrô, como se fosse pegá-lo, mas continuo. Parece que todos na rua repararam que há algo de errado. Devo estar com uma cara estranha, andando de um jeito esquisito. Devo estar mesmo. Estou preocupado com que não reparem, devo estar nervoso fazendo algo de estranho para repararem.

Pensando bem, do trabalho pra casa é a mesma distância que até o final da avenida. Eu não fui na academia, estou descansado, preciso de exercício. É conveniente pensar isso. Em vez de andar pela avenida, posso andar para casa. O caminho não é tão legal. Pelo contrário, é bem feio! Tem um viaduto feio, os hospitais, a faculdade de medicina, três cemitérios grandes, outro viaduto. Depois, já no bairro, melhora, com as ruas bem arborizadas, a igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Para não repararem na minha meia volta, entro numa galeria – era uma galeria de cinemas quando eu era mais novo, tenho saudades dessa época – saio pela outra porta – a que não havia no tempo dos cinemas – e volto andando na outra direção, pra casa. Passo a entrada do metrô. Alguém do trabalho vai me ver, vou ficar sem graça. Aperto o passo. Atravesso a rua, passo o prédio do trabalho. Minha colega está fumando na porta. Vejo de rabo de olho. Finjo que estou distraído e não a vi. Mas a vi. Aperto mais o passo para sair logo dali. Passo a igreja e vou para o final da avenida, para o viaduto.

Por ali, ninguém sabe que esse não é meu costume, meu caminho normal. Ninguém vai perguntar. Relaxo o passo, passo a passarela por baixo da outra avenida, para contornar o viaduto. Lembro que, para que isso sirva de exercício, tenho que apressar o passo, acelerar o coração. Esforço aeróbico, senão não adianta. E eu exatamente quero ir a pé para demorar, e para relaxar. Demorar e relaxar. Gastar um tempo andando, pensando em mim e na vida, em vez de gastá-lo em casa, sozinho.

Olho a hora no telefone. Das próximas vezes, ia anotar quanto tempo levava e projetar metas. Apresso o passo até uma marcha. Espero não rebolar como aqueles cara que fazem marcha atlética. Nem preciso ir tão rápido como eles. Cuido para não mexer muito os braços, não ser espalhafatoso. Mas ali ninguém me conhece.

O caminho é feio mesmo. Uns bares que eu não conheço, as lanchonetes e hospitais, os cemitérios, o segundo viaduto, por cima da avenida. O caminho só serve mesmo pra se andar e pensar. E andando rápido não dá para pensar em nada calmo. Só em besteira. E, isso é curioso, descubro que pensar besteira dá raiva e que raiva dá pressa. Com essa pressa a mais, aperto mais o passo, e isso acaba relaxando. O esforço desvia a atenção e ajuda a espeirecer. São quase três quilômetros assim.

Depois do viaduto, chego no bairro. Já o bairro é bonito. Casas chiques, antigas, ruas muito bem arborizadas. Logo no começo, está a igreja. Nossa Senhora de Fátima. Igreja de portugueses. Há muitos portugueses por aqui. Dá-me vontade de entrar. E não vejo por que não. Atravesso a rua. A porta da frente está fechada. Dou a volta, a do lado também está. A capela está aberta, nunca fecha. É pequena, paredes de vidro, tem alguns bancos, cabem umas doze pessoas, a imagem, grande, e a garrafa de água benta.

Benzo-me, sento, rezo. Peço muito muitas coisas. Não sei se pedi as coisas certas. Tenho certeza de que todos meus pedidos foram atendidos. Mas eles não resolveram. Talvez isso também eu não saiba fazer, pedir. Com Nossa Senhora de Fátima também tenho que aprender a conversar direito. Com ela também.

Rezei uns quinze minutos. Depois continuei pra casa. Mais uns quinhentos, oitocentos metros, mais ou menos. Até aqui, o caminho foi plano, agora é uma pequena descida. Eu moro no começo da descida, na ponta do espigão. É a parte fácil. Depois de ter parado na igreja, já não tenho mais o passo apressado. Parece que não adianta mais para o exercício. Ando mais devagar para demorar um pouco mais a chegar em casa.

Na porta do prédio, lembro-me de olhar a hora. Cinqüenta e cinco minutos. No elevador, faço a conta. Tirando uns quinze da igreja, foram, mais ou menos, quarenta de caminhada. Está bom. Noutro dia, cronometro direito.

Cheguei no meu andar, pego a chave para abrir a porta.