Lie

Havia uma menina na minha escola que dizia ter um namorado em São José do Rio Preto. Na época, não havia Google Maps, eu não sabia, eram seis horas de viagem. Mas ela mesma dizia que só se viam nas férias. Eu perguntava a ela se ele também a considerava namorada. Eu não considerava, isso não era namoro. Ela ficava brava comigo. Gostava de saber o que aconteceu dessa história.

Nessa mesma época eu fui à casa da Lie, na Água Branca, despedir-me dela. Conosco não seria igual. Ela se mudava para o interior, Campinas, para fazer faculdade. Não era uma viagem longa, uma hora e pouco. Mas era suficientemente longe longe para adolescentes a pé. Tínhamos só três meses juntos. Ela desessete anos, eu quinze. A pé, sem email, sem celular, nem telefone em casa tinha. Não fazia sentido fingirmos que a distância não nos afastaria. Logo no começo, quando começamos a ficar juntos, já tínhamos imaginado que seria assim, agora nem precisamos terminar. Foi como já havíamos previsto no começo. Ela passou na faculdade que queria, e já estava organizada, ia morar com uma colega de Liceu que era de lá.

Nos dias anteriores, já havia prometido continuar lendo os quadrinhos de que ela gostava. Os quadrinhos em que ela começou a me ensinar francês. Continuaria a estudar. Iria à biblioteca da Aliança e procuraria assistir filmes franceses para manter a prática.

Quis ser o último a me despedir, consegui. Dei-lhe um drops, um halls preto, ela sorriu. Nos conhecemos com um, no ônibus. Ofereci-lhe achando que estivesse tossindo. Na verdade, estava chorando. Perguntei se podia ajudar. Não sabia o que era. Eram saudades da mãe. Vieram da Bélgica para o Brasil havia dois anos, emprego estava difícil lá. A mãe não se adaptou. Chegou da escola uma tarde e descobriu que ela havia voltado para Liège. Natalie ficou em São Paulo com o pai, Monsieur Berger. Eu nunca me acostumaria a chamá-lo pelo sobrenome. Irreverente, para mim era Seu Armand. Ele gostava, disse-me que os belgas são a esperança da Europa. São os únicos europeus divertidos.

“Ami”
“Amie”
“Prends soin de toi”
“Tu aussi”
“A bientôt”
“A bientôt”

Nos abraçamos e beijamos, sem tesão nenhum, foi só carinho e pena. Seu Armand não ligava, me abraçou também e ameaçou beijar-me a boca. Rimos, beijou-me a bochecha. Recomendou-me continuar tendo juízo e nos despedimos.

Ela disse vários ciaos ainda antes de subir no carro do pai e outros até ele ir embora.

 

Sucos

Eu sou um admirador sem preconceitos da beleza feminina. Quase sem preconceitos. Diferente da maioria dos homens, não tenho preconceito com mulheres gordas. Gordinha ou gordas mesmo. Não etiqueto antes de olhar o conjunto. Confesso, inclusive, que minha crítica de primeira vista é mais cruel com as magricelas do que com as gordas. Ninguém merece mulher sem carne, que se vêem os contornos dos ossos. Me dá aflição. Lembram pé de galinha.

Jantando uma vez no shopping, por exemplo, vi uma “gordinha”, modo de falar porque ela era mais do que gordinha. Estava na fila do suco, logo à minha frente, de costas para mim. Chamou-me a atenção. Tinha o corpo muito bem feito. Proporcional. Coisa que mulheres muito magras não costumam ter. As medidas todas certinha. Leonardo gostaria de estudá-la. Cabelo bonito. Roupa elegante. Mesmo procurando não ter preconceito reconheço que é raro uma mulher acima do peso parecer tão bonita. Parece, o corpo, coberto é. O rosto, talvez o principal, ainda não vi. Veria. Mais cedo ou mais tarde, ela pagaria, pegaria o copo e voltaria para a mesa. Ao se virar, eu teria alguns segundos para ver seu rosto. Não podia bobear.

Confesso que não foi difícil prestar atenção para não perder o momento em que se virasse. O corpo bonito, fiquei olhando, tentando, todavia, ser discreto, e imaginando coisas. Muitas coisas. Não sei se consegui ser discreto. Acho que sim. Além do mais, ela estava de costas para mim, não havia nada que pudesse me refletir. Às vezes, acontecem algumas coisas que me fazem acreditar no sexto-sentido em que não acredito. Em telepatia, premonição.

Seu suco era de um rosa muito vivo. Brilhante, gélido. Da cor daqueles remédios amargos de gotinhas que as mães nos dão, e que a embalagem diz terem sabor morango ou framboesa. Não perecia ser nem um nem outro. Curioso, pensei no que seria.

Foi quando ela se virou, logo após pegar o copo. Eu olhando para ele. Queria ver o rosto dela, se era bonitos como o resto. Ela, engraçado, não teve tempo de me ver. Eu, olhava para o copo, nem tive tempo de olhá-la. Ela já se virou como se soubesse que eu iria olhá-la. Já virou com cara de deboche e mostrou a língua. Não diretamente na minha direção, deve ter errado por uns quinze, trinta graus, não mais que isso. Mas olhei em volta se havia alguém com cara de ter sido o alvo do insulto. Não, todos em volta olhando para os próprios pratos e rodas de conversa. Só eu estava lhe olhava. Ela mesma, foi para uma mesa isolada, sozinha.

A língua e a cara de deboche eram para mim mesmo, ou para quem ela suspeitasse estar olhando, ou para ela mesma.

No pequeno tempo entre ela se virar de língua pra fora e eu me virar procurando para quem poderia ser, consegui ver, por pouco tempo seu rosto. Ela era mesmo bonita igualmente no rosto e no corpo. Foi do resto que não gostei.