Lembranças

A gente, conforme conhece as pessoas, os amigos, vai percebendo como eles lidam com cada assunto. Assim como eu tenho dificuldade para lidar com certas situações, ninguém lida bem com tudo. Os amigos são assim, cada um entende mas uma coisa do que outra, lida melhor com um tipo de coisa do que com outra. Eu tenho poucos amigos, mas bons amigos. Prefiro os bons aos muitos. mas tem certos assuntos que eles não conseguem entender ou conversar direito. Lidam bem para suas próprias vidas. mas quando tentam se colocar no meu lugar, não entendem direito.

Lembrei-me hoje que eu, há algum tempo, não muito, numa vez em que rezava, além das coisas normais de se pedr numa oracao, pedi também, encontrar alguém que me entendesse, com quem eu conseguisse conversar de coisas que são importantes pra mim e que, não só me desse conselhs, mas conseguisse entender meu mundo, o mundo que quero, e fazer-me sentir compreendido antes de me dar os conselhos. lembrei disso hoje. pode ter sido coincidência, mas é curioso, coincidencia talvez, parece que encontrei esse alguém numa pessoa que eu já conhecia. algiuém distante que se aproximou, na verdade nos aproximamos os dois, e iluminou esse mundo com compreensão, com seu mundo e seu sorriso, que eu nao vejo, mas imagno, sem esforço, não sei como, sei de seu sorriso e de seus olhos nas coisas que diz, escreve.

Tenho escrito muito nas últimas semanas, nos últimos dois meses, desde que resolvi que devia te mostrar as coisas que escrevo. E, nessas coisas que comecei a escrever, a rescrever, logo a partir do segundo ou terceiro dia, lá já está você. Em tudo. Na menina do alto da colina, no jardim, nos beijos e amassos, no cheiro que não conheço daquela flor, na borboleta que nela pousou e que você disse que vai me mostrar, nos olhos que quero que leiam, na história que quero escrever. Pena não dar conta de escrever tudo o eu imagino, poque nesse tudo está você. Porque, desde que abri a janela, na minha cabeça, sempre tem você.

imu e, pensando nisso agora, acho que escrevo porque quero te deixar lembranças. De mim. Para, de vez em quando, você encontrá-las e se lembrar de mim. Eu sei que é difícil, mas, num dos meus sonhos, gostaria que se lembrasse de mim sempre que me lembro de você. Mas isso seria sempre, porque isso é sempre. E sempre é tempo demais!

Ponto de Ônibus

Ontem à noite, dirigindo de volta pra casa, vi um casal bonito, em um ponto de ônibus.
Não achei um ou outro bonito. De beleza de homem, não entendo, mesmo que entendesse, não diria. Não fica bem a homem, dizer que outro é bonito. Ela não era bonita, muito magra. Talvez eu é quem seja muito exigente.
Mas não havia como não achar bonito. Não devia haver nada entre eles ainda. Talvez fosse a primeira vez que se viam, talvez a ultima. Mas algo havia ali. Não eram figurantes um ao outro.
Alguma coisa falaram, provavelmente do tempo, sobre a chuva. Ou sobre a demora dos ônibus. Não era uma conversa. Um disse uma frase. Muito depois, o outro disse mais uma.

Havia só os dois no ponto. Dos quatro assentos vermelhos de metal, ela estava no segundo. Ele na barra azul, a que serve de suporte aos bancos. Os bancos não têm pés, são soldados, pelo encosto, a essa barra, que se estende até as laterais do ponto. A barra parece, assim, um poleiro. Ele está sentado nela, empoleirado, um assento vazio entre os dois.

Esperavam o ônibus e perdiam tempo. Estava claro para quem, como eu, ficasse vinte segundos parado naquele semáforo.

Nem se olhavam, tímidos os dois. Ela olhava a guia, ou a sarjeta, ou nada disso. Precisava de seus olhos para saber. Ele olhava os próprios pés. Via os tênis vermelhos, os cadarços. Os pés estavam dentro.

A gente usa a metáfora de olhar nos olhos sem pensar no que significa. Já a usei tantas vezes! E nem gosto dela. Olhar nos olhos pra mim não pode ser metáfora de outra coisa. Olhar nos olhos é bonito. É a maior das entregas. Muito maior que tirar a roupa, seja no escuro ou no claro, e deixar o corpo falar. Olhar nos olhos não fala nada mas diz: “Estou aqui, você sabe que olhar nos olhos é quase impossível, mas os teus eu olho, e gosto, e vejo que você olha os meus também.” Sorriam ambos. encabulados. Mas, vacilo, não se olhavam. Não viam os próprios sorrisos, coincidentes, nos rostos um do outro. Juntos, sofriam separados a timidez.

Mais cedo ou mais tarde, passaria um ônibus. Se não pegassem o mesmo, talvez lamentassem depois. Perderiam o bonde, o ônibus, da história.

Já na garagem do prédio, tive vontade de voltar lá e juntar-lhes as mãos.