Pintar uma Janela

Estava numa sala branca, toda branca, sem portas ou janelas.
Era tão branca e tão iluminada que não podia ver nenhuma parede, quina, canto, chão, nem eu mesmo.
Só podia tatear e foi assim que encontrei a parede, o chão e a mim.
Dizem que quando se morre, vai-se para o limbo. Dizem. Meu pai diz, aprendi com ele.
Lá não há nada, só eu e luz.
Deve ser assim. Pode ser mais aflitivo que isto?
Estava vestido. Sentia meu corpo e a roupa, graças às mãos.
Devia estar de avental ou macacão, como de mecânico.
No bolso havia algo. Peguei. Não era uma coisa só. Eram várias, iguais.
Demorou segundos para perceber o que eram: lápis.
Peguei um, fui à parede e tentei riscar.
Consegui, era colorido.
Troquei, também.
Experimentei todos.
Desenhei.
Desenhei uma janela dali.
Uma janela para o mundo.
Não fiz o trinco.
Quando terminei o desenho, com cuidado, abri.
O mundo lá fora, reconheci, eu já havia pintado antes.

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Pedróquio

Parecia que brincava, e brincava mesmo. Eu peguei um pedaço de barbante, a avó ficava danada de eu acabar com o barbante dela, não sei por quê, nunca a usando barbante para nada. Prendi, na ponta do barbante, uma latinha de leite condensado. Vazia. Furei-a com prego, a marteladas. Passei o barbante pelo furo, de dentro pra fora. Fiz uns três ou quatro nós na pontinha que ficou para fora do fundo da lata. Não ficou muito equilibrada, Deitava mais para um lado do que para o outro. O furo estava torto. Não fazia diferença.

Passei o barbante por cima do varal, icei a latinha a mais ou menos um metro do do aquaradouro, e amarrei, com um laço parecido com o dos sapatos, a outra ponta na treliça da lavanderia. Meu avô, do outro lado da treliça, sentado, fumando, ouvia rádio. Ele ouvia rádio a manhã quase toda, depois de tomar café e cuidar dos passarinheiros. Meu avô era do rádio, do futebol e dos passarinhos. Criava canários, vários, num viveiro grande, do tamanho de uma piscina. Tinha também um sabiá, mansinho numa gaiola grande. Teve um papagaio, mas eu não o conheci.

A latinha, pendurada feito pêndulo, virou um. Balançava-a, Criança precisa de coisas assim, banais para ser feliz, nós adultos é que complicamos tudo. Inventamos uma coisa a que chamamos ambição e a usamos para justificar nunca estarmos felizes com nada. A latinha sozinha não servia à minha brincadeira. Do jardim da frente, peguei algumas pedras, meia dúzia, pequenas. Aumentaram o peso da lata, não a estabilidade. Para alinhá-la, não que precisasse, mas é uma questão de estética, você entende… manipulei o barbante dentro da lata de modo que as pedras lhe torcessem um pouco. Torcido, ele tomou a forma, a posição, em que a latinha parecia alinhada. O suficiente para que, se solta, caísse de fundo, não de quina.

Retardado que sou, todo moleque é, peguei o estilingue, outra pedra e brinquei de acertar a lata. As duas primeiras pedradas esfolaram a parede abaixo da treliça. A terceira acertou a própria treliça. O barulho de martelada na madeira, assustou o avô e o periquito da madrinha, sua gaiola ficava pendurada por dentro da treliça. Tomei bronca. São as coisas que nós fazemos antes de crescer e perceber que mais coisas à nossa volta do que nossas próprias brincadeiras. Ainda assustaria ao avô, e ao canário, outras vezes, noutros dias, até aprender isso. Naquela manhã, o medo de outra bronca me desviou da brincadeira.

Sentei no cimento, entre a treliça e o aquaradouro, com o banquinho que o padrinho me fez. Não sentei no banquinho. O fiz de mesa, para a massinha de modelar. O banquinho ficou na grama do aquaradouro, embaixo da latinha pendurada. Eu sentado no cimento, pra evitar as formigas e pôr as costas na parede.

Não era só um resto de massinha, mas era aquela fase em que as cores estão já todas misturadas. Formam uma massa só de cor indefinida, mais escura que bege, mais clara que marrom, cheia de restos coloridos que ainda não se misturaram inteiros. Eu precisava de uma personagem para brincar comigo. Qualquer um. minha brincadeira precisava de um companheiro. Eu precisava de um companheiro de brincadeira.

Nunca fui artista. Agora menos ainda. Quando pequenos, ainda temos a desinibição de fazer as coisas, achando que, ainda um dia, aprenderemos a fazer direito. Talvez desinibidos, porque ninguém liga, só nos querem quietinhos no canto, brincando, sem dar trabalho. A criança pode fazer o que quiser e mostrar só se achou bom. Adultos, temos vergonha de nós mesmos vermos que não fique. Não deveria interessar como fica. O importante deveria ser a brincadeira. Adulto tem medo de brincar.

Meu amigo de massinha, no começou, pareceu ser uma batata, cheia de marcas de dedo. Depois um cone. Depois outro tubérculo qualquer, sem espécie definida. Uma batata e uma batatinha. É difícil o trabalho de criança. Experimente dar forma a um amigo de massinha. Não são fáceis de se fazer. Molda a perna, falta massinha na barriga. Faz o nariz, a bochecha amassa. Não é só conseguir fazer a amizade. Há de tomar cuidado para não arruiná-la com um amasso desmedido no lugar errado.

O meu amigo se parecia, a certa altura, com um boneco de neve pardo. Acho que é assim que todos eles devem se parecer. É um desafio, não rir dele, chamá-lo de amigo. A madrinha passa e dá risada. Ela não é amiga dele. O amigo sou eu. Eu não posso rir. Respeito-o. Respeitá-lo é respeitar-me. Não preciso olhar feio para a madrinha. Ela sabe que é inconveniente e sai.

Cansei de tentar moldar-lhe braços e pés. Não venço fazer e consertar. Ponho a mão suja no short. Ele fica sujo também. Vai ser outra bronca. Será que nunca vi, na televisão, fazerem um, para lembrar-me do passo-a-passo? Na televisão não. Nem no Bambalalão, no Daniel Azulay, nem nos filmes e desenhos. Nesses, não mesmo. Filmes e desenhos americanos. Acho que americanos não brincam de massinha, devem ter algo mais avançado. Eles fazem bonecos de neve. Meu amiguinho, assim, com poucos detalhes, parece um. Um boneco de neve bronzeado. Como pode? Isso os americanos não podem ter, se não têm massinha.

Os bonecos de neve dos filmes não têm braços e pernas de neve. Fazem-lhes os braços de galhos. Pernas, não me lembro de ver em algum, na televisão não. Nariz de cenoura. Olhos de pedra. Cachecol de cachecol. E cartola… Onde eu arrumaria uma? Não precisa. Esta é uma brincadeira informal, e é minha. Eu não quero ninguém de cartola por aqui.

Fui ao pé da pitangueia, minha avó só tinha uma, meu pai tem várias, procurar um graveto que servisse de esqueleto para os braços. Achei um, cor bonita inclusive, cor de madeira. Nem sempre madeira tem cor de madeira. Quem procura um graveto sabe. A gente olha, olha, alguns são escuros, outros sujos, muitos são desbotados, estão molhadas, suas cores não são a da madeira. Encontrar um bonito, com a cor certa, não é fácil. Eu não exigia muito. Logo de cara, por coincidência, vi um bonito, saudável e limpo. Mais ou menos do tamanho certo. Caído no chão no meio de outros gravetos e folhas. Precisava ainda trabalhá-lo um pouco.

No quarto da madrinha, eu tinha uma caixa de papelão com algumas coisas minhas. Lá estava meu canivete. Eu tinha um canivete pequeno, de cortar fumo, foi de meu avô, ele me deu. De certo, achou que eu um dia fumaria com ele. Não foi o caso. Voltei para o quintal. Com o canivete, desbastei o graveto. Era pequeno, uns vinte centímetros. Cortei-o em dois. Pareciam dois braços mesmo. Um com uma mão de forquilha de dois dedos. Outro com três dedos na mão. O de dois dedos era maior, mas o de três tinha cotovelo. Ficaram assim os braços.

Meu amigo ainda não era gente. Não tinha nome, nem olhos, nem nariz. Nem eu era Gepetto ou fada-madrinha. Não foi difícil encontrar pedrinhas miúdas. Nem precisavam ser tão miúdas. Duas brancas foram os olhos. Uma preta, o nariz. Uma unhada fez a boca, meio torta. Os olhos de pedra me pareceram piada: Pedróquio. Chamei-o. Ainda assim não era gente, nem eu Gepetto.

Meu amigo estava pronto e já podíamos brincar.

Excitado, puxei a ponta do barbante junto à treliça. O nó se desfez e a latinha, com o peso das pedras caiu quase em cheio na cabeça do Pedróquio. Esmagou bem. Ficou parecido com uma panqueca bem grossa, com os pães de batata de minha avó. Depois veria que o fundo da lata ficou gravado, como sinete, nele.

A madrinha riu: “Que burrico! Tanto trabalho e fez isso?”

Ela não era mais criança. Não sabia mais que essa é que era a graça da brincadeira.

Urubus

Os urubus são animais bonitos. Rio.

Todo mundo faz careta quando digo isso. Fazem careta antes mesmo de estranharem eu achá-los bonitos. E eu não simplesmente acho, eu sei que são.

Acho engraçado o mundo preconceituoso em que dizem que vivemos. E sei que é preconceituoso mesmo. Que tanto valoriza e julga pela beleza ou por sua falta.

O urubu, ave de rapina, grande, forte, imponente. É como uma águia de plumagem negra. Uma poderosa águia negra. O urubu, por seus hábitos, tem sua beleza negada por todos.

Parece que nos recusamos a aceitar que algo bonito possa freqüentar o lixo, a porcaria, se alimentar de carniça. O urubu é baixo, bicho covarde. Seu alimento preferido não é a famosa carniça. Veja quando aparece um camundongo. Atiram-se sobre ele, brigando. Veja como rondam, em círculos, grupos de urubus, o animal doente, moribundo, esperando-o, fraco, sem forças para reagir, tombar. Aí se lançam sobre ele e comem-no vivo ainda. O urubu não come carniça porque gosta. O faz por preguiça, vagabundagem, por ser covarde de atacar algo vivo e saudável.

É, por isso, o animal perfeito para representar o vilão da fábula. Mas não ao vilão de livros infantis, de desenho animado, feio, asqueroso. O urubu é o vilão real, da história de adulto. É feio por seu caráter. Não o conhecêssemos já, seria sua beleza nos enganaria. Seria admirado, a história toda, até, no último ato, num único golpe inesperado, traiçoeiro, dar cabo ao mesmo do mocinho e da mocinha.

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Vinte Minutos

Quando cheguei em casa, me joguei de costas na cama, no escuro, sobre a colcha. Joguei o telefone do lado, ao alcance da mão. Qualquer coisa, estava fácil de atender. Deixei o rádio ligado para ouvir as notícias e, quieto, preguiçoso, descansar um pouco. Principalmente descansar. Tinha que aproveitar que cheguei cedo e tinha algum tempo, tinha compromisso, logo ia sair de novo.

Deitei e fechei os olhos. Não estava no plano, mas cochilei. Não sei se cochilar é a palavra certa pois foi um cochilo pesado, mais pesado do que a maioria dos sonos que já tive.

Acordei achando que já fosse de manhã. Pensei ter perdido a hora do compromisso, olhei o relógio, fiquei surpreso que só tivessem se passado vinte minutos. Sobrava tempo ainda. Encostei a cabeça de novo pensando no rápido sono pesado.

Não sei o que sonhei naqueles vinte minutos, se sonhei, mas acho que não deve ter sido algo bom. Minha respiração estava profunda. Como nos exercícios da aula de yoga. Eu já fiz aula de yoga. Talvez não devesse dizer isso. Podem rir de mim, já riram de mim por isso. Eu fiz, não me importo. Na aula de yoga, você força o diafragma para encher o máximo possível os pulmões. A maioria das pessoas normalmente só enche a parte superior do pulmão, o peito. Nas aulas, exercitamos encher a parte do pulmão que fica no abdômen. O professor fala em respirar com a barriga. Muitos cantores fazem essas aulas. Ela auxiliam na técnica para cantar. Aumentam o intervalo que se consegue cantar sem parar para respirar. Para pessoas comuns, melhoram a capacidade aerobica e acalmam. Exercícios de respirar pela barriga são talvez a forma mais eficiente de controlar a ansiedade e se acalmar. Ao menos nos ensinam assim nas aulas. Pode ser sugestão, mas para mim parece realmente que funcionam.

Aquela respiração era diferente. Era expontânea, não um exercício. Como se eu estivesse suspirando sem parar. Devagar. Um suspiro depois do outro, sem pausa. Não podia ser normal. Acho que não era bom. Isso era uma inquietação tão grande que demorei para notar que a cabeça doía. E doía muito. Preocupação? Algo daqueles vinte minutos?

Se a respiração fosse agito, por susto, medo, o coração estaria disparado. Não estava. Pulsava forte. Sentia no peito, no pescoço e nos pulsos. Forte, mas no ritmo normal. Não estava rápido, muito menos disparado. Era como se coração e pulmão resolvessem trabalhar com força, energia. Como se fosse soldados marchando, pés batidos forte no chão. Não me sentia bem com isso. Contra quê marchavam? Eram eles que faziam minha cabeça doer? Sonhei?

Senti-me como criança, assustada diante da reação desconhecida do corpo contra a doença. E nem doença era. Rolei, deitei de lado, atravessado na cama. Prestei atenção na respiração, profunda, enérgica. Não me acalmava. Nem podia, eu não estava nervoso.

Ainda não sei o que havia. Estiquei-me, para a cabeça alcançar o travesseiro. Pousei-a nele como num colo, parecia mesmo um colo. A colcha sintética, fria, sobre ele, refrescou-me a cabeça. Pensei que talvez estivesse com febre. Testei, com o pulso encostado à testa. Não estava. Trazendo o pulso de volta, da testa para o corpo, toquei meu ombro. Foi instintivo, sem perceber direito, abracei-me. Com meus próprios braços, uma mão no ombro, a outra no cotovelo. Não apertei esse abraço. Cheguei o ombro junto ao rosto. Parado ali, assim, me abraçando, Um lado do rosto pousado no travesseiro. O outro descoberto, ao relento do quarto. Olhos fechados, no escuro. Não sei o que havia. O que havia de errado. Meu peito, coração e pulmões, não sei se era algo errado, mas fazia algo ainda, trabalhava forte, enérgico, por conta própria. Não era já meu peito. Independente, eu era dele.

Intrigado, eu me deixei ficar, prestando atenção no fenômeno. Não só intrigado, hipnotizado, refém.

Nesse tempo todo, nem ouvi o rádio. Quando me lembrei, só notei que já era outro programa. Passava das oito, talvez estivesse atrasado para o compromisso. Olhei o relógio. Não, não estava. Sairia em boa hora. Precisava sair, passear, espairecer. Prestar atenção na direção, desviá-la do peito, acabaria com isso.

Ainda estava com as roupas das rua, sapatos inclusive. Apenas peguei a carteira, as chaves e saí.

A familiaridade do bairro, das avenidas conhecidas, o trânsito tranqüilo, a música chata no rádio, não foram distração suficiente. Ainda pensava, e prestava atenção ao meu peito. À ansiedade que não era. Coincidência ou não, logo que percebi isso, uma sensação diferente mudou tudo. Não prestei mais atenção a nada disso. Uma luz me iluminou: a lua se lembrou de mim e me sorriu.

Romeu e Julieta

Disse um Romeu emocionado para uma Julieta que descansava em seu colo:

— Pensei uma coisa agora que me pareceu bonita de te dizer. A gente ouve, e até acha bonito e romântico, quando alguém diz: “Eu preciso de você.” Como se a necessidade embelezasse o sentimento. E eu sei que não preciso de você. Não preciso mesmo. Se você for embora, eu fico triste, mas supero. Eu sobrevivo. Não preciso de você. Mas mesmo assim, eu fico tão feliz quando estou com você, gosto de sua companhia, de conversar, de dividir com você tudo, inclusive o tempo, mais ainda do que se precisasse de você. E é assim porque eu sei que não preciso, é porque eu te quero e te gosto. Eu não sei o nome disso. E isso é verdade, e eu acho muito importante te dizer.