Sonho Recorrente

On an island in the darkness nothing is familiar.
Tell me are you frightened on your own? Do you have the will? The will to carry on?

— Tony Banks, An Island in the Darkness

A Praia, a Serra e a Noite

Venho tendo um sonho recorrente. Quanto contar sobre ele, você pode achar que é um pesadelo. Sonhos recorrentes normalmente são pesadelos. Eu também, na primeira vez, achei que fosse. Mas não é. É um sonho bom, muito, daqueles que, acordado, consciente, tentaríamos imitar.

Nele, estou numa praia, deserta, à noite. O sol já se escondeu atrás da serra. Olho para ela, a serra, neste escuro é só um paredão negro, total. Impossível distingüi-la do próprio céu noturno. No escuro, deveria haver mistério, temor, perigo. Mas não há. Neste escuro, eu sei que não há nada além do vazio. Nada que me possa ameaçar. Isso é assustador, solitário, mas não amedronta.

Já na areia, onde também estou sozinho e só percebo que o chão é claro, não que o veja, só o percebo, tenho uma apreensão. Desta praia não encontro saída, não há como encontrar uma se não enxergo. Aconteça-me algo, como me fujo? Como me salvo? Não há salva-vidas. Não há aves, nem mesmo os urubus.

Piso na areia, sinto-a, sinto meus pés se afundarem e ela fina, fofa, limpa, marcar-lhes o contorno que eu não vejo. Ela está quente, ou morna. A noite não está quente. O vento, que não vejo pois ele não tem o que balançar, vai se tornando cada vez mais frio. Logo estará gelado. Como sobreviver ao frio? Cubro-me de areia? Esse vento não arrasta a areia, não arrasta a água. Parece que se destina só a mim.

Não me cobrirei de areia, não me vou enterrar antes de morrer. É morrer por antes da hora. Quem se entrega antes da hora, é maldito por toda a eternidade.

Há a água. Também não se vê. Escura, reflete a noite. É a noite concreta que se oferece ao tato. Mas nela também percebe-se algo. Ondas. Percebem-se as cristas das ondas, mesmo sem luz, mais claras que a noite. Não que as veja para saber que lá estão, mas sei que estão, são os riscos mais claros da noite da água. Aproximam-se da areia.

Tão negro é o sonho, que minhas pupilas demoram muito para se acostumarem à falta de luz e, quando se acostumam, é ainda praticamente só a noite que vêem. Mas já distinguo, tanto tempo aqui em pé, o contorno da serra, só o contorno, alto, recortado como dentes de fera. Ainda assim, não basta para me ameaçar a ponto de dar medo. Também vejo os limites móveis da areia e da água, e, das ondas, as mais espumosas. O fim da areia, ao pé da montanha, não há como distinguir, talvez não exista. Além desses elementos geográficos, não há realmente nada na praia. Vivalma, planta ou pedra solta.

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Para que eu enxergue este pouco, alguma luz deve haver. A lua? Está escondida. A lua é a única luz possível ali. Onde estará? Imagino, muito longe da praia, onde deve ser o horizonte e olho. Alguma luz, fraquíssima, num formato estranho existe lá, longe. Tenho que olhar muito para chegar a um acordo comigo mesmo quanto ao que seja. É a lua, só pode ser. Mas por que está tão diferente de como a conheço? Com muita observação suspeito: há algo que a esconde. Uma ilha? Uma ilha está entre a minha praia, cada vez vais gelada, e a linda lua? A lua é sempre linda! Mesmo quando triste. Ainda mais para quem está sozinho, perdido, à noite no escuro gelado de uma praia deserta.

Não há tantas escolhas possíveis. Ficar preso à praia, rezando para o vento frio não me levar e para o dia me mostrar uma saída. Saída para onde? Para outra praia como esta? E, se não houver saída, a mesma noite vazia me encontrará amanhã, e depois, e depois… Ou lançar-me ao mar atrás da ilha. Lutar contra a água, que deve estar gelada, muito mais que o vento. Aprender a nadar, não sei, nunca soube. Lutar contra o medo. Medo de quê? De não conseguir? De tentar? De conseguir? Se, numa possibilidade remota, alcançar a ilha, perder-me-hei, sabe-se lá quantas vezes, em seu relevo para descobrir o que há nela.

Uma sereia? Histórias não faltam de cruéis sereias que acenam a inocentes marinheiros, como se existisse marinheiro inocente, com a oferta de conforto para, seduzidos eles, elas se divertirem com seus esforços em se aproximar e, por fim, decepcioná-lo, afogando-o de prazer no mar gelado. Triste fim! Não acredito em sereias, respeito-as mas não acredito. Aprendi a respeitar aquilo em que não acredito, sereias inclusive. Acredito em ilhas. Acredito na lua, que não vejo, encoberta pela ilha. Por que ela não se move no céu? Não aparece? Mas nela acredito. Da ilha, de algum lugar da ilha, a verei.

Não me dispo, salto vestido. Embora, não tenha essa consciência, estou num sonho. As roupas não embargam o nado que eu não sei. Não sei nadar. Ainda não sei. Meu corpo tem dificuldade em se sustentar, os braços e pernas em deslocar água. Seria um esforço inglório, patético, se não houvesse aquela esperança no lugar comum, no horizonte. Na borda do mundo, eu despencarei ou serei resgatado pela ilha.

Tento nadar, tento aprender a nadar, a sobreviver e conseguir. Não há exaustão física num sonho, mas o sentimento de impotência castiga e insiste para que eu desista. Ele não tem como conseguir. Somos já só o que resta do mundo real, e do imaginário também, minha ilha e eu. A lua é outro mundo. A praia ficou para trás. Não há volta, não há onde se acomodar.

Nado a noite toda, sem habilidade ou jeito, aprendendo, em direção a ela para enfim acordar antes de alcançá-la.

Tento me convencer de que é ilusão. Não consigo. Ainda então, acordado, minha ilha sabe-me mais real que a vida. Esse sabor inalcançado resiste o dia todo, mais vivo que a vida.

Na noite seguinte, inevitavelmente, o sonho se repete. Agora já chego um pouco, muito pouco, mais perto. E, no seguinte, mais um pouco. E no seguinte, outro pouco. Nesse pouco-a-pouco, nesse constante tentar, me aproximo.

Já não se trata de um sonho recorrente, é um sonho único, o de alcançar e, então, descobrir minha ilha.

Tony Banks - An Island in the Darkness

Metáfora

Tanto se usa as metáforas de que escrever é viver e de que ler é viver. E eu sempre as desprezei. Lugar comum de quem vive de vender livros, ou de ensinar a lê-los.
Mas agora que escrevo aqui e leio comentários, e faço questão de não deixar nenhum sem uma resposta, por mais final ou retórico que ele pareça… só agora, vivo algo que me excita a ponto de julgar que, até então, não estive vivo. Não fui.
Me admiro. Me pego considerando se escrever histórias é mais especial que simplesmente contá-las. Se é mais especial que criá-las. De certo, há algo aqui que não experimentei antes e que faz esta experiência única, irresistível, viciante.
Passo a entender o fascínio dos novos pela interação digital, anônima dos chats, das redes sociais e de tantas coisas que minha geração considera criancice e aberrações do tempo.
Realmente, algo há aqui extremamente apaixonante e novo para mim. E me recuso a acreditar que seja o teclado, ou o meio.
Lamento que não exista um blog ou chat telepático. Lamento não viver este mundo o tempo todo, por mais que tente, foge-me ao controle.
Não quero me conformar com acreditar em metáforas.
Quero viver, finalmente, este mundo que só alegria me traz. Quero conhecer isso, isso que me dá vida, e viver o dia inteiro!

Bandeira da Áustria

Não sou dos malucos por bandeiras, mas acho curiosa a simbologia contida nelas.
Os lusitanos tinham simplesmente um pano branco com um dragão desenhado no meio. Os galegos, têm também bandeira branca com uma cruz celeste em “X”, o cálice (a Galícia, Calícia, é a terra do Cálice Sagrado) no centro da cruz. Os portugueses, quando se desligaram da Galícia, mudaram cruz para a posição tradicional (em cruz) e trocaram o cálice pelo escudo das quinas.
Mas a mais antiga e cuja história acho mais interessante é a da Áustria.
Conta-se, e creio que não seja só lenda, que um comandante, rei, príncipe, ou coisa-que-os-valha, ferido em batalha, arrancou sua roupa branca, toda manchada de sangue. Só uma faixa no meio dela estava ainda branca, sem sangue. Pendurou-a numa lança e, segurando-a para o alto, marchou sobre o inimigo à frente de seus soldados na batalha seguinte, para que seu sangue servisse de exemplo.