Correspondência

As coisas que escrevo, não sei se tenho o direito de guardar algo só para mim. Depois de escritas, não estão mais em minha cabeça, dentro de mim. Estão no papel, nascidas, independentes. Não precisam mais de mim para viver.
Embora com pouca pretensão, tudo o que escrevo se dirige a alguém. É como uma carta, tem destinatário, conhecido ou não, concreto ou abstrato. Escrita, selada, ela já nao é mais só minha. Despachá-la impõe-se como obrigação.
Não posso então fazer como nas piadas óbvias das comédias da tarde: violar a caixa dos correio, da correspondência e roubá-la de volta.
Gostava de pensar que faço, de minha vida também, algo assim. Que não a viva para mim, mas para dividir com alguém de estima, seu destino.

Estrada

Eu odeio dirigir. Mas sempre pego estrada.
Pego a estrada pra esquecer, esquecer de tudo o que me enche o saco e de tudo que não enche também.
Pego para não me lembrar das frustrações e dos problemas.
Dirigir, se, por um lado, não é gostoso, na estrada, fluindo, ao menos, me distrai.
A pista cercada de montanhas, como se fossem acidentes misteriosos, cobertos por carpetes de árvores, me acalma. Gosto de olhar, sem obrigação ou preocupação particular, para esse verde.
Às vezes, queria que fosse noite, o escuro desce uma cortina ainda mais calma.
Não quero ver casas, cidades, outras pessoas. Disso minha vida está já cheia. Nem mesmo outros carros. Se pudesse, interditava a rodovia só para mim.
À noite, na maior parte, só se vêem os contornos excitantes da serra, o unico som é a música que eu mesmo escolho, como se pudesse escolher não só o futuro, também o agora.