nestes dias

nestes dias, gostava de dizer, à noite, algo do tipo: “descansa, quer um chá? deixa que hoje a louça lavo eu.” isso e um selinho. acho tão romântico!

O Pezinho de Morango

20140428-152854.jpgEu não entendia direito por que não podíamos comer os morangos.
Morango, na década de 80, era coisa chique! Não vendiam na feira, nem nos mercados de bairro. Hipermercados eram coisa que ainda não existia. Eu só via morango na TV, nas revistas, ou no Ceasa, quando ia com o pai passear. Pobre, então, passeava no Ceasa, dava pra fazer feira mais barata, comprar peixe fresco e, ainda por cima, xeretar o Feirão de carros e os boxes que vendiam bichinhos, de estimação ou para criação.
No Ceasa, havia morangos, mas o pai dizia que era coisa muito cara! Comprávamos outras coisas que ele dizia que eram caras: palmito, uva, algumas vezes até alcachofras, mas morangos não.
Na casa de minha avó, nasceu um pezinho. Miúdo, miúdo, morangos mais verde-brancos do que os vermelhos que apareciam nas fotos e na TV. Nem pareciam a mesma fruta. Nasceu no fundo do quintal, embaixo da romãzeira, ninguém sabia como. Ninguém plantou.
Talvez algum egoísta tivesse arranjado um morango, sabe-se lá como e, prevendo que teria que fatiá-lo bem fininho para repartir com todos, tenha se escondido no fundo do quintal para comê-lo. Depois descartado o resto, aquela coroa verde, na terra.
Ou o vizinho, ou uma ave. Todos da família juravam não saber como, aquilo que pensávamos a princípio ser boldo, sálvia ou alguma outra erva pra chá, nasceu ali, logo ali.
A madrinha foi quem primeiro reconheceu a planta. A casa da avó tinha outra casa no fundo, que era usada para guardar as bagunças. Minha madrinha usava o único cômodo dessa casa como sua oficina de costura. Ela havia sido costureira profissional, de couro, e tinha por hobby costurar para a família. A antiga máquina de costura alemã fica junto à janela. Sentada costurando, a madrinha mal tirava os olhos do pezinho de morangos. Sempre foi assim, eu me lembro, antes mesmo do pezinho nascer, ela costurava olhando, sempre que conseguia, ali para onde depois nasceu a planta.
A avó foi quem explicou, um dia em que achou que não agüentaríamos a vontade: “Não pega isso, filho. Aí, vosso avô enterrou a Lady.”
Agora sabia porque dali não podíamos comer nada.
Lady era o nome da cadelinha da madrinha. Não a conheci. Mas a vi em fotos, no colo, no ombro, no braço, não arredava de perto da dona. Minha madrinha logo saia de perto quando uma foto dessas aparecia. Chorava baixinho.
Eu tive cachorros, mas não entendia o apego dela à bichinha.
Foi a avó também quem entregou a história, muito tempo depois. “Vossa madrinha, teve um noivo. Um pouco antes do casamento, uma mulher veio em casa, esperou-a chegar. Quando a madrinha chegou, a mulher lhe disse. Contou que era da vida e que dormia com ele, que não largaria de dormir com ele para que se casasse com ela. Que onde ela fosse, onde ele fosse, um jeito ela daria de ele continuar a dormir com ela. Que não se iludisse, ela seria o próprio cão infernizando vida dela e até acabar com aquele casamento.”
A madrinha, tão triste ficou, não quis mais saber de casamentos, de homens, de nada. Perdeu o apetite, adoeceu. Meu avô e meu pai tiveram ganas de matar o sujeito.
Um dia, costurando à janela, ouviu alvoroço na casa da vizinha. Correu olhar pensando que alguém precisava de ajuda. Não era alguém, ou melhor, o alguém não era pessoa. A cadela da vizinha havia dado cria. Era uma dessas tipo vira-latas que chamam de fox paulistinha.
Limparam os filhotes e os puseram para mamar. Eram quatro. A madrinha se emocionou quando os vi ali, espremidos no quentinho dos irmãos e da barriga da mãe.
“Três já têm dono. Quer ficar com o outro?”
A madrinha logo aceitou, impulso. Calhou-lhe uma fêmea. A filhotinha recebeu o nome da protagonista do desenho animado. A Dama e o Vagabundo, Lady.
Foi companheira para tudo por quase vinte anos.
Quando morreu, meu avô enterrou-a onde ainda fizesse companhia, ao menos durante as tardes de trabalho na costura. Acho que, por isso, ela costurava tanto.

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Mariposa

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Borboletas são bonitas. Mariposas não. São cascudas, escuras, parecem lascas de casca de árvore. Eu gosto de borboletas, e também de árvores. As mariposas são, para mim, o híbrido das duas.
Borboletas bonitas escondem-se nas árvores. Mariposas feias gostam de luz, lâmpadas, lampiões.
Sei que é uma fantasia inusitada, realmente inusitada, mas gostava de ser um mariposa, uma mariposa enorme, daquelas que, quando voam, dão-nos medo, confundimos-las com morcegos. Gostava de fazer a corte a uma linda borboleta, frágil. Trazê-la para minha casa, minha árvore. Depois cobri-la com minhas asas enormes, toda. Protegê-la? Possuí-la? Enquanto estivéssemos ali, sua beleza seria só minha. Com a chegada do dia, a descobriria para a luz do sol e ela só ficaria comigo se preferisse meu calor ao dele.

Eu sei que sou muito condescendente com a feiura, o mundo não foi feito para ela. Veja as reações diferentes que esses dois bichinhos tão parecidos inspiram nas pessoas. A mesma mãozinha delicada, de esmalte pink e anéis de feira hippie, que teme tocar uma e machucá-la, teme tocar a outra e se machucar.
Imagine a apreensão da lagarta que passa sua infância talvez sem saber se, ao crescer, será a bela ou a fera. Enrola-se no lençol para dormir e, daí a dias, ao acordar, corre desesperada ao primeiro espelho-d’água descobrir o quê o seu destino genético lhe reservou: a passarela das flores ou esconder-se, mimetizada, em troncos de árvores.

Encontrei uma hoje no elevador. Uma mariposa. Não estava junto à lâmpada, mas pousada no chão frio a um canto. Alvo fácil para uma foto. Pena não ser uma borboleta! Mas, pensando bem, como uma mariposa combina bem com uma foto preto-e-branco! Com pouco cuidado, mariposas não se assustam facilmente, aproximei a câmera do telefone e bati a foto, colorida. Depois aplicaria o filtro monocromático.
Só aí me toquei. Uma mariposa parada assim exposta no chão claro de mármore frio… Com cuidado, muito cuidado para não machucá-la, como faria a uma borboleta, toquei-lhe a ponta da asa esquerda com o telefone. Ela continuou parada, rígida. Empurrei-a, ela rolou de pernas para o ar.
Fiquei triste.
Não a deixaria apodrecer morta ali. Peguei-a com cuidado, levei para o jardim, como se estivesse pousada em minha mão. Coloquei-a arrumadinha numa forquilha de um arbusto.
Os pássaros me olhavam a alguma distância, logo viriam ali fuçar. Para ela já não fazia mais diferença, devia estar aliviada. Terminara sua vida de mariposa. Talvez na próxima, fosse uma borboleta.

Me Leva

 

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Ia escrever alguma história baseada nesse desenho que encontrei.

Mas prefiro guardá-lo para imaginá-la em meus sonhos de hoje.

Quem sabe não sai daí uma história bem bonita que se torne realidade?

 

Boa noite.

D’us abençoe.

Outro Fim-de-Semana Se Foi

 

Me desculpem, tive umas duas semana de bastante produção que me pareceu boa, fiquei muito entusiasmado.

A semana passada não foi tão produtiva. Tive alguma dificuldade em escrever.

Mas este fim-de-semana foi particularmente complicado. Não consegui me fixar em textos que fossem dirigidos ao blog. Os que escrevi, ou guardei porque não estavam em sua hora, e esses foram os de que mais gostei, ou foram trechos rápidos de idéias que eu gostaria de elaborar, mas que, não duvidem, tem muito de sinceridade e foram escolhidos com cuidado para vocês.

Esta nota é só um jeito de pedir que acreditem em mim e, dentro do possível, acompanhem mais coisas que virão.

Fases. Depois de uma dificuldade, deve vir mais entusisasmo. E mais textos.

D’us abençoe.