Blue Moon

Blue Moon, Now I’m no longer alone without a dream in my heart, without a love of my own
Blue Moon de Richard Rodgers e Lorenz Hart.

 

Se te disserem que você está muito grande
para brincar de berlindes ao portão,
soprar bolhas de sabão,
pendurar-se no pé de laranja
de cabeça pra baixo,
chamar a ratos gigantes,
bancar polícia e ladrão,
comer a perna do frango com a mão.
para feito criança
chorar escondida no armário,
Não ouça o que dizem.
São céticos como até ontem era eu.
Por mais que da idéia gostasse
Se me dissessem que pérolas azuis existem,
talvez também duvidasse.

 

Calipal

We will wear your white feather
We will carry your white flag
We will swear we have no nations
But we’re proud to own our hearts

— Marillion, White Feather


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Coisa que ficou rara hoje em dia, mesmo na periferia são os bosques, ainda razoavelmente comuns quando eu era pequeno.

Quando criança, havia em frente de casa, atravessando a avenida. Chamávamos calipal. Não que fosse um bosque apenas de eucaliptos. Os eucaliptos ocupavam uma faixa de não mais que cinqüenta metros bosque a dentro. Mas o costume das mãe de mandar que não brincássemos mais para longe que isso e sua ilusão de que realmente não passaríamos daí, fizeram com que déssemos ao todo o nome da parte.

Abria a janela e via, era muito bonito. Os eucaliptos são como palitos acinzentados espetados no chão, bem distribuídos a distância regular um do outro. Os galhos e folhas, parecem olhando de longe, pelados demais para fazer sombra, mas fazem bastante. O cheiro que deixam no ar é discreto, como tem que ser para refrescar o ar o tempo todo sem enjoar.

Olhando por cima, era como um carpete regular, bem escovado. Cada árvore com praticamente a mesma altura das suas vizinha. Desse jeito, a ondulação do carpete era harmoniosa, parecia feita por artista. Serra com mata é coisa bonita de ser. Dizia meu avô que essas ondulações são bonitas porque lembram um violão, e abraçava com carinho minha avô, denunciando a que tipo de violão se referia.

Gostava muito de brincar no bosque. Não por falta de opção, e realmente opção de lugares ali não havia muita. Para quem mora na periferia, cada rua é territorio de seus moradores, cada quadra. O que restringe os lugares de brincar. Para brincar de rolimã, tinha que fazer amizade com a molecada que morava na ladeira. Pra jogar futebol, com a molecada que morava mais no alto da avenida, onde havia um terrenão baldio que, a revelia do dono desconhecido, virou um pequeno campo de várzea. Meu pedaço da avenida era de certa forma privilegiado, tínhamos a avenida em si, com calçada larga, servia para brincadeiras mais urbanas, de asfalto, e o calipal do outro lado da rua para voltar pra casa sujo e picado de mosquito.

Tinha uma amiga, ela não morava ali, estivemos na mesma escola por um tempo, por isso, deveres de escola, ela começou a freqüentar minha casa e, por extensão minha rua e meu bosque. Brincávamos juntos ali mesmo depois de mudarmos de escolas e não estudarmos juntos mais. Vida tem isso, e principalmente as crianças tem isso, amizade que resiste a separação é muito mais gostosa, as brincadeiras sabem-nos bem melhor.

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Nossas brincadeira, nesse tempo, não precisavam de mais do que o espaço e as árvores. Brincávamos de esconder, de pegar. Antes que vocês pensem maldosos, não, nunca chegamos a brincar de médico. Mas liamos, escrevíamos, desenhávamos, pintávamos, de tudo ali.

Gostava de subir nas árvores. Não nos eucaliptos, é claro. Eucalipto é praticamente só um troco, seus galhos são finos, fracos e altos. As melhores árvores pra se subir são as pitangueiras, depois as laranjeiras, que não havia ali, e as goiabeiras. no meio dos eucaliptos, havia uma outra goiabeira. Mas, perto ainda da rua, do barulho, não eram o melhor lugar para sentar lendo. Além disso, goiaba é fruta a que ninguém dá valor. As crianças as pegam ainda verdes para usar de munição do estilingue.

Pitangueiras são perfeitas. Galhos grossos que começam baixo. Crianças conseguem sentar em par no mesmo galho. Ou, em galhos separados, os galhos são muito próximos. São como casas de árvore projetadas por arquiteto. E pitanga é uma delícia! Minha fruta preferida. Uma pitangueira e um gibi alimentam mais do que a merenda da escola.

Brincávamos nós dois quase todo dia – malditos compromissos de família que os adultos nos arrumam – no nosso bosque. Sim, o bosque já era nosso. A rua era minha, eu morava nela. Mas o bosque, desde que o apresentei a ela, já não era só meu.

O limite que as mães estabeleciam, o calipal, era insuficiente para nós. Ele tinha espaço, árvores espaçadas, de tronco fino. Mas, lá na frente, onde estavam as outras árvores, mais juntas umas das outras, com trilhas pisadas estreitas para se andar, a cada passo encostávamos em algo, lá é que havia liberdade, onde o espaço menor era só nosso.

A cada dia, expandíamos um pouco mais, talvez uma árvore mais, o limite de nosso domínio. Isso pode ser perigoso para duas crianças sozinhas. Imagina cair de um galho, de um barranco, ser mordido por um bicho, uma cobra! Topar com bandido. O que poderiam fazer? no caso de um acidente que imobilizasse um, o que o outro faria, o deixaria sozinho para buscar ajuda? E se aparecesse um bicho? Urubus e carcarás rondavam ali à procura de bichos inválidos. Cobras não chegamos a ver, mas é certo que havia. Se tem carcará é porque, com certeza, há cobra pra ele comer. Naquela época não existia telefones celulares. Era outra era histórica.

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Poucos adultos do bairro conheciam mais sobre o bosque do que nós. Os lugares de que falávamos, a maioria não sabia encontrar. Ela, por dentro, era como uma tropa disposta para desfile. No início, os já citados eucaliptos, formavam uma fileira esparsa. Em seguida, uma fileira mais estreita de goiabeiras, pela direita, e pitangueiras, pela esquerda. Bem mais pitangueira do que goiabeiras, diga-se. Depois vinham os pinheiros, os tradicionais, mas quando se subia alguns morros, nas partes mais altas, eles davam lugar à araucária. Vez por outra alguns grupos de forasteiros: havia um grupo inexplicável de mamoeiros junto a um pequeno pedaço aberto, um dos morros tinha dois ipês roxos meio escondidos embaixo das araucárias. Em alguns barrancos, arbustos com flores grandes pareciam cercas para amparar o desatento e não deixá-lo cair.

Nosso bosque era infinito!

Uma de nossas brincadeiras era sentar em galhos próximos, escorados um no outro, ombros e cabeças encostados, e criar mundos imaginários. Rabiscávamos um mapa desse mundo num pedaço de papel, folha arrancada de caderno de escola, com desenhos mal feitos de seus habitantes e lugares pitorescos. O resultado, invariavelmente parecia um bestiário pós-medieval. Se quiséssemos ficar mais próximos para facilitar a disputa pelo papel e pelo lápis, escolhíamos um galho mais grosso e sentávamos juntos, lado a lado ou no colo.

Do bosque mesmo, nunca fizemos mapa. Já vimos filmes de pirata, alguém pegaria o mapa do bosque e roubaria nossos segredos. O bosque não seria mais só nosso. E, se não fosse, também já não seria mais o mesmo bosque, das mesma brincadeiras e mundos a se imaginar. Se nós o exploramos, era como tê-lo criado. Ele não existia como era, antes de nossa exploração expandir-lhe os limites até onde chegamos.

Quem quisesse, que explorasse e criasse por conta própria sei-lá-que-bosque. O mapa para o nosso estava nas nossas cabeças. Nem à noite, em sonhos, nos permitiríamos compartilhá-lo com ninguém.

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Uma vez descobrimos um rio. Chamamos de rio, podia ser córrego, não sei a diferença, chamávamos de rio qualquer veio por onde corresse água. Sua água era limpa e ele tinha uma rampinha de pedras lisas onde deitamos como se fôssemos também pedras da rampa, a água não chegava a um palmo de altura. Alguns peixinhos, muito pequenos, viviam naquela água e quando desciam por ali, faziam cócega por nosso corpo. Era hilário. Tínhamos que esperar muito a roupa secar para não denunciar a arte. Algumas vezes, a tentação da brincadeira nos levava a tirar a roupa para entrar na água. Não havia porque não. Ninguém mais aparecia ali. Aquela água, pode-se imaginar, era uma de nossas brincadeiras preferidas.

De outra vez, plantamos uma laranjeira. Eu trouxe a muda de meu quintal. Por que plantamos? Ora, éramos crianças! Pela transgressão. Não havia laranjeiras ali. Não existe laranjeira em bosque, só em pomar. Ela está lá grande, forte, ainda a visitamos. Para uma árvore, ainda é nova, mas já dá boas frutas. É a nossa árvore. O bosque é nosso, mas nele só essa árvore é nossa.

Teve também a outra vez, quando encontramos um casal de esquilos namorando. Criança gosta de azucrinar bicho, nós não, repeitamos, deixamos quietos. Mas aquele dia ficamos olhando. Olhar não é mexer, mas também incomoda. Já viu esquilos namorando? É muito diferente, parece que se vê a diversão deles, parecem crianças brincando, eles ali rolando, subindo e correndo um ao redor do outro. Bichinhos felizes. É errado espiar, mas é bonito.

Nas nossas explorações e brincadeiras, a cada novo dia, a fronteira do nosso bosque conhecido era ampliada para mais longe da minha rua.

Aí, um dia, o medo, se continuássemos avançando, em algum momento encontraríamos um fim pra ele? Um queda, o mar, o fim-do-mundo? Ou outra avenida?

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Toque

 

Eu não sou do toque macio. Aquele toque que pe como uma pluma roçando a pela, leve.

hands_reaching_out_by_MYxBR0KENxDREAMSEsse toque macio é discreto. Se estamos em algum lugar onde temos que ser assim discretos, é melhor não nos tocarmos, não precisamos. Já sabemos de tudo. Um roçar de dedo no rosto do outro não vai resolver nada.

Onde temos que que ser discretos, nos tocamos com as almas como quando estamos longe.

Mas perto, preciso não do toque, de pegar, de abraçar e afagar. Dar minha mão como um travesseiro ou um ombro para você repousar teu rosto. Ou alisá-lo, sem violência, mas sentindo bem o contato.

Beijar, que seja sua mão ou sua testa, mas sentindo a pressão em meus lábios.

 

“Te Quero”

All you have to do is close your eyes and just reach out your hands.
And touch me, hold me close, don’t ever let me go
– Extreme, More than Words

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“Te amo” não é uma frase em si, com um significado. É uma expressão.

Um casal, quando se permite dizer “eu te amo” é porque já abriu todas as portas, o relacionamento se estabeleceu, e não há mais por que o dilema de se declarar sem se expor. Aí, a frase já não quer dizer muito, diz o já sabido, o assumido.

Difícil mesmo é dizer um “eu te quero”, confessar, sem ter certeza de ser aceito, a vontade de ir adiante com alguém. Adiante, não sei pra onde, mas a frase, uma vez dita e ouvida, não deixa margem. Já algo acontecerá, ambos terão consciência de que há algo que não podem ignorar. É, de todas as frases, a mais corajosa.

Quero o quê? Se não houver consenso, no mínimo, esta é a deixa para descobrir. E, se já se conhecem. Mesmo não se sabendo correspondido, o temor não pode haver.

 

Primeira Foto

Dia e noite de criança hoje. Comprei minha câmera nova, especialmente para fazer boas fotos para meu blog. D’us me ajude, eu não precise mais procurar fotos no Google e aprenda a fazer fotos que digam o que não sei escrever.

A escolha não foi muito difícil, escolhi a loja que tinha a maior variedade e os melhores preços (fácil, fácil, pois era a mesma), anotei os modelos que estavam no meu orçamento, fui no Google. Fui no Google e escolhi a que é melhor para fotos noturnas.

Fotos noturnas, é óbvio!

Manual, documentação, livros sobre fotografia, pra quê? Gosto de escrever, fotografar tem de ser fácil porque será só para ilustrar, mas bem ilustrado, o que eu escrever.

Abri o manual só para saber como pôr pra funcionar o que eu queria. “Onde fala nisso? E isto aqui, onde diz como faz?” Pendurei a engenhoca no pescoço e já saí atrás de uma foto.

Qual? Onde? Tinha que ser especial.

Queria fotografar o céu sobre o mar. Estava noite, neblina e um trânsito de fim-de-feriado para ir à praia e voltar na mesma noite.

Não teria o mar, seria só o céu então.

Parti pro interior, pra serra, não muito longe. Sei onde achar, aqui perto, uma paisagem bonita com vale e montanha, longe da cidade e das rodovias. Fui direto. A paisagem não era o que importava. No alto da montanha, eu queria ficar sozinho com o céu.

Mas o grande problema eu só percebi quando cheguei, e devia ter-me sido óbvio. Noite nublada, cadê a lua? Como eu podia debutar minhas fotos em meu blog se a atriz principal não estava disponível.

Frustrado, encostei o carro na beira da estrada, desci e fiquei olhando. As nuvens se juntavam todas na mesma direção. Devia ser onde escondiam a lua. Malditas! Ou, espera, ou era lua cheia? Nem me lembrei de olhar. Vacilão eu.

No resto do céu, ali no escuro, muitas estrelas. Pareciam flores plantadas num jardim.

A foto não teria uma solista, seria uma panorâmica de um elenco inteiro. Ajustei a câmera como vi no manual e, vai que a primeira fica tremida, bati três fotos. A bateria – que burro sou! não carreguei a bateria – só durou três fotos e nem pude conferir ali como ficaram. Corri pra casa.

Em casa, bateria carregando, cartão com as fotos no notebook. As fotos estavam umas porcarias. Não tinham nada a ver com as que eu vi nos livros e sites que ensinam a tirá-las.

Mas se prestar atenção (esta é a primeira, clique para vê-la inteira), dá pra notar algumas estrelas. Tem seu charme, me prende a atenção ficar olhando e procurando estrelas nela. Cada vez que procuro acho mais uma e a foto me parece mais bonita e misteriosa.

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Pensando bem uma primeira foto misteriosa e com estrelas escondidas não pode ser ruim.

Não é assim mesmo que deveríamos povoar a nossa imaginação: estrela por estrela?

A lua? A lua, quando eu tiver estrelas suficientes, tenho certeza de que ela vai aparecer para olhar.