Scream

the_wall_face_by_soficoffee-d473f8bSometimes I feel like… Screaming
    — Deep Purple, Sometime I Feel like Screaming

 

Se pego um lápis e papel, não é para desenhar o mundo onde já estou. Se isto me bastasse, se este mundo fosse como quero, nem foto haveria de tirar. Tirava minhas roupas e sairia por aí, todo dele.

Se pego um lápis e papel, é para desenhar o que quero. Viver, por um momento, meu mundo idealizado, onde tudo me agrada e me aceita.

Qualquer risco ou palavra é uma declaração, de inconformismo, mesmo que do inconformado conformado. São como gritos para quem os queira ouvir. Gritos de boca escancarada, peito aberto, com toda a força de meus pulmões, até faltar-me ar e doer, doer que eu não agüente mais.

Por que se não precisasse de tanta força para externar o mundo que eu quero, que está guardado em mim, talvez ele não me fosse tão desejado.

Sabiás

Sabiá-laranjeira-cred MarcosKawall-G-2010

Eu gosto de passear em parques. É o meu passeio preferido. Jardins botânicos, hortos, praças bonitas, orla, passeios com muitas árvores e sombra, o melhor deles é a sombra.

Fui criado num lugar onde o cimento não dá refresco. Cimento em cidade poluída, esquenta, seca o ar. E isso, com poluição densa castiga muito. Ainda mais para um narigudo como eu. Calor, poluição, secura, pra piorar só ar-condicionado. Haja soro fisiológico.

Agora, independente do tempo, verde sempre faz bem. Ver os troncos, galhos, as folhas, parasitas, bichos, flores, mesmo que entre vãos dê para ver prédios e carros ao fundo.

Gosto também muito de ler e, moleque de periferia que eu fui, Sentar em galho de árvore pra ler, é uma delícia, muito da minha adolescência passei assim.

Namorar sentado na grama, na beira de um lago, também é gostoso. Só ficar ali quietinho abraçado, se houver uma árvore para encostar, melhor ainda. Infelizmente, mulher não costuma gostar disso, suja a roupa, dizem elas.

Eu assim, nem preciso sair pra almoçar. Qualquer lanche cai bem, uma fruta, água, tudo vira picnic.

E quando estou sozinho gosto de tirar fotos das plantas, das flores. Se encontro uma bonita, e a maioria é, ou um arbusto cheio delas, um tapete de flores coloridas todas do mesmo tipo misturadas com a grama, feito um painel. Queria ter um painel assim no chão de casa. Acho muito bonito. Morar em apartamento me parece cada dia mais inconveniente. É vida moderna, flores, plantas, árvores, as coisas estão rareando.

Os bichos dão vida a esses quadros com plantas. E eu sei que plantas também são vivas, mas os bichos correm, comem, brigam, alguns voam.

Se eu tivesse jeito com câmera, seria um freqüente fotografador de bichos, – fotografador, não fotógrafo, que não sou profissional – de pássaros principalmente, pássaros são bonitos, curiosos… e isso também é curioso neles… ou muito imponentes ou muito frágeis, sem meio termo. Quando vejo um bonito, sempre quero fotografá-lo. Um dia terei feito uma bela foto de pássaro, a emoldurarei grande para pendurar no escritório.

Outro dia, passeando no jardim, vi um sabiá muito bonito. Óbvio que quis fotografá-lo. Tentei cercá-lo e ele fugiu. Ali tem uma moita longa que funciona como muro, ele estava de um lado, voou, fugiu para o outro. Eu cercava e ele fugia. Até que desisti e resolvi ficar só olhando.

Apareceu outro, pouco menor, mais bonito, mas o peito não era alaranjado como o do primeiro, era uma fêmea. O primeiro era macho.

Distraí-me com ele. Quando percebi, o outro havia alcançado uma fruta no chão e se aproximava para tentar comer. Oportunidade minha. Cerquei, ele se afastou da fruta. Fui seguindo, seguindo. Não consegui a foto. Ele se punha entre alguns galhos muito pequenos que, se não o escondiam, atrapalhavam totalmente o foco. Bichinho esperto.

Essa manobra evasiva deu tempo para a fêmea alcançar a fruta. Tentei ser sorrateiro e chegar nela para fotografar. Ela se afastou, não tão estratégica quanto o macho para se proteger. A foto seria boa. Mas o macho, tomado de sua coragem protetora, se atirou sobre mim, e atrapalhou tudo. Fiquei desconcertado, não esperava por isso. O bichinho me atacou, talvez pensasse que ganharia uma noite de amor por defendê-la de algo que tinha, no minimo duzentas vezes seu peso?

Refiz-me da surpresa e tentei de novo fotografá-lo. Mesma estratégia a dele, fugia e se escondia onde a foto não era possível. Esse bicho deve ter experiência com fotógrafos amadores. A fêmea se aproveitava para tentar comer. tentei fotografá-la, e ele a protegeu de novo.

Confesso que estava respeitando o bichinho que frustrava minha pretensão, essa minha outra pretensão, a de fotógrafo. Desisti. Guardei a câmera e fui procurar onde me sentar para ler. Estava há uns 10 metros dali quando vi a seqüência do caso dos sabiás. Apareceu um segundo macho, alguns gramas mais forte que o meu inimigo.

Apareceu sem cerimônia nenhuma já pousando junto à fruta. Fez um maneio de cabeça, parecido com uma bicada no ar, como se estivesse ameaçando uma bicada em quem o impedisse de roubar a fruta.

A fêmea se afastou. O primeiro macho voou para longe também sem rodeios. O novo macho ficou ali, comendo a fruta até se fartar aos olhos respeitosos da fêmea, agora abandonada, que antes dele terminar foi procurar outra coisa para fazer.

O primeiro sabiá, que ainda a pouco eu respeitava como corajoso, agora era para mim o mais desprezível covarde.

Café

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Café no feriado à tarde.
Café não tem hora.
Tem todas. Toda hora.
Ainda mais cheio de chocolate
e quentinho quentinho.
Mas apesar desta calma,
rima forçada,
ainda cá algo falta.

Luzes da Cidade

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Eu parei o carro no alto do morro para tirar uma foto.

Sentei no chão, à beira da rua, servi-me da garrafa térmica de chá e fiquei ali, uma ou duas fotos, uma bicada no chá, pequena, está quente ainda.

Olhar a cidade pelo alto, é bonito. Mas as fotos, ao final, nenhuma se aproveitava.

A caneca do chá esfriava aos poucos enquanto ainda cheia. Conforme fui bebendo, esfriou mais rápido. Eu bebia, aproveitava a vista. Mas algo faltava.

Havia outros carros, mas só eu ali do lado de fora. Ouvi um barulho. Virei a cabeça. Indiscrição, um carro chacoalhava.

Os outros estavam com o vidro embaçado.

A mim, mesmo com a visão bonita, o clima agradável, o chá quentinho e gostoso, não sei o quê, mas ainda algo faltava.

Borboleta na Janela

Borboleta-Onça

Hoje eu estou um pouco mais triste que o normal.

É muito perigoso mexer com borboletas. Elas são lindas, curiosas, mas não são bicho de ter-se em casa, o bonito é vê-las livres. E isso mesmo é o mais bonito e o mais triste nelas. Não tê-las.

Eu comecei a cuidar de uma planta em frente à minha janela. Gosto de plantas também, elas são um bom passatempo. Mas a minha planta, uma samambaia, ela é só minha. Ela me toma tempo, muito tempo. Talvez mais pelo cuidado que tenho do que pelo que ela exige mesmo. Minha samambaia, está ali perto da janela, mas longe do alcance da mão. Preciso de algumas ferramentas para mexer nela.

De uns tempos para cá, uma borboleta começou a freqüentá-la. Uma borboleta diferente, incomum mesmo. Essa borboleta não é minha, mas ela pousa na minha samambaia, será que lá tem alimento? O que é que borboleta come? Não tem nome. Não posso dar nome, não é minha. É a borboleta da minha samambaia. E nem da samambaia é.

Hoje, depois do banho, parei de jogar video-game porque a vi posada na planta. Fui até a janela para vê-la. Fiquei lá parado, curioso e maravilhado. Olhando feito bobo. A cor, o padrão das manchas, nem precisava tocar. Bastava olhar de longe.

De repente, apareceu uma rolinha, pegou-a pelo bico e saiu voando. Muito rápido. Não havia o que fazer. A rolinha roubou minha borboleta, levou embora, pro seu ninho? Pra longe.

Eu podia continuar ali na janela, mas minha borboleta, que não é minha, se foi.